"Criar emprego é criar a riqueza que permite o emprego"
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Portugal irá, pela primeira vez, registar um desemprego a dois dígitos, aprofundado por uma crise económica que teve impacto a nível mundial. O OJE, em parceria com o portal Ver, reuniu um grupo de sete especialistas que procuraram contextualizar o emprego no país e dar a conhecer melhores práticas no mercado laboral
"O essencial da motivação desta conferência passa por perceber porque é que a economia portuguesa não cria os empregos necessários e como se pode criar esses empregos". Este foi o mote da intervenção de Augusto Mateus, antigo ministro da Economia e presidente da Augusto Mateus & Associados, o primeiro orador da conferência "Mercado Laboral: Responsabilidade das Empresas em contexto de crise", realizada pelo OJE em parceria com o portal Ver.
No auditório João Morais Leitão, cedido pela sociedade de advogados Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva & Associados, dois painéis de sete oradores procuraram analisar o mercado laboral e a responsabilidade social das empresas e do Estado perante esta temática.
"Portugal irá registar pela primeira vez, no próximo trimestre, uma taxa de desemprego a dois dígitos", afirmou Augusto Mateus na primeira intervenção do dia. Segundo o antigo ministro da Economia, "aparentemente, a nossa sociedade não só aprendeu a decrescer do ponto de vista económico como desaprendeu em matéria do que é o desemprego e de como se combate".
O presidente da Augusto Mateus & Associados explicou à plateia presente na conferência que a relação de Portugal com a economia europeia sofreu alterações nos últimos 20 anos. "A taxa de inflação é inferior à da Zona Euro e vale a pena reflectir porquê. A taxa de desemprego também é superior à da média, com excepção das economias maiores", que sofreram de forma mais intensa a crise económica mundial.
O desemprego de longa duração, disse, representa, uma parte significativa do desemprego da União Europeia que, para um número muito significativo de pessoas, passa por uma grande dificuldade em reencontrar um novo emprego.
"Há uma mistura complexa de formas de desemprego: por retracção da procura, por retracção da rendibilidade e, estrutural, por perda de competitividade". As políticas de emprego têm de dirigir-se à resolução desses problemas e em "dar prioridade à competitividade e à rendibilidade".
A mudança da base tecnológica da economia e a alteração do modelo de negócio das empresas são premissas fundamentais para o crescimento económico. "A política pública tem incentivos e tem penalizações que reduzem a incerteza e que definem regras que podem ajudar a essa forte reestruturação", referiu Augusto Mateus. O antigo ministro acredita que é necessária "uma grande preocupação de equidade, de responsabilidade social, numa lógica de ética. Nós precisamos de soluções que são construídas pela sociedade, pelo Estado, e precisamos de uma política económica global, corajosa e estratégica".
"Criar emprego é criar a riqueza que permite o emprego", reforçou. Não é o emprego que é criado primeiro. "Primeiro cria-se o processo que permite que esse emprego exista".
Para Augusto Mateus, a economia só poderá crescer quando se encontrar competitividade dentro das empresas e dentro "daquilo a que podemos e devemos chamar de eficiência colectiva, aquilo que resulta da acção do Estado e da acção do Estado em parceria com as empresas". É ainda necessário ter cautela relativamente aos investimentos estruturantes significativos que, quando são errados, têm custos muito fortes para a economia e para a sociedade portuguesa. "Se tivermos políticas com território, políticas microeconómicas e políticas macroeconómicas, se percebermos que o desemprego se combate criando riqueza e não criando emprego, se dermos prioridade à competitividade, em segundo lugar, à rendibilidade das empresas mudando os padrões de negócio e em terceiro lugar à política conjuntural ganhamos alguma tranquilidade. Podíamos concentrar-nos naquilo que é essencial e tínhamos solução para o nosso País e era possível pôr a economia portuguesa a crescer porque tem condições para isso", reafirmou.
O segundo orador, Pedro Ferraz da Costa, antigo presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP) e actual presidente do Fórum para a Competitividade, afirmou categoricamente que não existem condições de enquadramento e de sustentabilidade da política em termos globais. "Há 20 anos que vivemos sistematicamente com uma procura interna francamente superior à nossa capacidade produtiva", disse. "Nós não só vivemos acima das nossas possibilidades, como consumimos muitíssimo mais do que produzimos", afirmou. Na génese do problema está um conjunto de políticas que não conseguiram transmitir para a actividade produtiva estímulos suficientes para que esse aumento da procura tivesse esse efeito de tracção".
O presidente do Fórum para a Competitividade adianta que Portugal não adaptou a sua estrutura económica quer à entrada do euro quer ao alargamento da União Europeia e à crescente globalização.
"A estrutura económica que existia nos anos 90 perdeu competitividade, bem medida pelo grau de desequilíbrio externo já atingido", referiu Pedro Ferraz da Costa adiantando que a resolução do problema da mudança da estrutura implica aceitar a destruição "de emprego nas actividades a abandonar e criá-lo rapidamente em actividades que possam ser competitivas no futuro". O segundo orador da conferência acredita que uma legislação laboral muito rígida e a sustentação pelo Estado de empregos inviáveis irão atrasar as mudanças necessárias. Embora possam ser compreensíveis em períodos muito curtos, estão, no entanto, a hipotecar o nosso futuro", concluiu.
O exemplo de boas práticas surgiu nas palavras de Alberto da Ponte, presidente do Conselho de Administração da Sociedade Central de Cervejas, que apostou na exportação e na inovação para manter os postos de trabalho na empresa que dirige.
"Não é a crise, na minha opinião, que vai ditar o maior ou menor despedimento", revelou. A crise pode ser aproveitada para fazer uma limpeza profunda dentro das organizações ou, como no caso da Sociedade Central de Cervejas, para ser utilizada de uma forma mais sustentada.
Este ano, foi aquele em que saíram menos pessoas da empresa, acrescentou Alberto da Ponte. "O que nós fazemos, como qualquer empresa, é ajustar a nossa massa laboral àquilo de que a empresa necessita", afirmou.
Para Alberto da Ponte, a responsabilidade social também existe em tempos de crise. "Continuámos sustentadamente a prosseguir a nossa estratégia. Mas todos nós sabemos que não há cheques em branco. O emprego não está garantido para ninguém".
A directora de Recursos Humanos da Liberty Seguros, Paula Garrido, acrescentou que as pessoas tendem a focalizar-se na crise e esquecem a produtividade. A empresa, embora tenha sido afectada pela crise, "porque os seguros são das primeiras coisas que as pessoas cortam", manteve o recrutamento e saiu mais reforçada ao nível dos recursos humanos. Inclusive, adianta a oradora, "aumentámos o investimento na formação para termos pessoas mais fortes para combater a crise". A formação é ainda utilizada como motivação, na medida em que são colegas que formam colegas, que partilham conhecimento. A empresa realiza ainda avaliações de desempenho, onde se percebe que os colaboradores têm a noção de que só poderão ter sucesso se a empresa tiver sucesso.
No caso do Grupo Auchan, apresentado pelo director de Recursos Humanos, Jorge Filipe, a sustentabilidade e as boas práticas também são lucrativas. "Embora não seja uma empresa cotada, tem um sistema de accionariado que permite que os colaboradores possam ser accionistas. E, desde os últimos quatro anos, 99% dos colaboradores são accionistas da empresa", referiu. Este benefício permite um maior envolvimento por parte dos empregados que, actualmente e a nível mundial, controlam 16% da empresa. O grupo, que pela primeira vez em 40 anos assistiu ao crescimento do número de clientes e ao decréscimo de vendas, alterou os indicadores de produtividade para manter os postos de trabalho. "Em vez de continuarmos a pilotar o indicador pela venda sobre hora trabalhada, passámos a pilotar mais dois indicadores, por cliente hora trabalhada e artigo hora trabalhada", concluiu.
"Nós temos todas as condições para ultrapassar a crise mudando a postura", afirmou Manuel Santos Carneiro, consultor do Grupo Select Vedior.
Na opinião deste especialista, se passarmos para uma postura de não facilitismo, em que pensamos que o emprego está garantido, para uma postura de criação de valor, é possível sair da crise. "O empregador despede quando não se cria valor, quando o valor criado dentro da empresa é menor do que aquilo que eu tenho a pagar", refere.
Melhorar e aumentar as qualificações, além de adoptar novos modelos de emprego, como o trabalho a partir de casa, o part time, o empreendedorismo, o profissional liberal, entre outros, será uma das soluções.
A conferência foi encerrada por Nuno Fernandes Thomaz, director da Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE), cuja preocupação com a responsabilidade social antecede, em muito, a actual crise económica.
Para combater efectivamente o aumento da pobreza e do desemprego e o aumento da ineficácia das medidas de combate ao desemprego, a ACEGE vai lançar o Fundo de Capital de Risco Bem Comum. "Procurámos criar uma iniciativa que promovesse o empreendedorismo", referiu o director. "Decidimos concentrar-nos no grupo dos quadros médios e superiores desempregados com mais de 40 anos, onde a procura de novo emprego é mais dificultada.
O fundo tem um montante inicial de 2,5 milhões de euros, mas com as aplicações simétricas a que a ACEGE se candidatou junto do QREN e da Inovcapital, reproduzir-se-á simetricamente para 5 milhões de euros. "É um fundo pequeno, mas que pretende perseguir uma missão. Não se trata apenas de financiar projectos de empreendedorismo inovadores. Tem um complemento de formação, além do backoffice pro bono disponibilizado pelos nossos associados", concluiu.
Os números e o contexto do emprego em portugal (por Augusto Mateus)
A criação de emprego, basicamente, é a criação de actividades sustentáveis na geração de riqueza. A direcção das políticas de emprego tem de ser colocada do ponto de vista de prioridade na solução de um problema muito grave: a estagnação económica em Portugal. A nossa economia desaprendeu de crescer e tem de voltar a aprender. Em segundo lugar, a ideia de que temos uma mistura complexa de formas de desemprego, por retracção da procura, por retracção da rendibilidade e estrutural por perda de competitividade. Uma política de emprego tem de dirigir-se à solução desses problemas e dar prioridade à competitividade e à rendibilidade. Precisamos de ter uma mudança de especialização das actividades económicas e uma alteração do modelo de negócio das nossas empresas. Para isso, a política pública tem incentivos e tem penalizações que reduzem a incerteza e que definem regras que podem ajudar a essa forte reestruturação. Finalmente, é necessário uma grande preocupação de equidade, de responsabilidade social, numa lógica de ética, de fazer melhor e de fazer mais responsável todos os dias. Nós precisamos de soluções que são construídas pela sociedade, pelo Estado, e precisamos de uma política económica global, corajosa e estratégica.
A solução Cockpit Management foi apresentada pela primeira vez em Portugal. O fundador do The Management Cockpit, Patrick Georges, esteve em Lisboa para