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Estratégia abrangente

08/02/12, 00:03

Por Sérgio Cordes Aniceto*
Nem tudo é consequência das imposições da Troika e já anteriormente havíamos perdido a soberania. Daí, o 1.º de Dezembro.

 
Conhecedores da história e, ainda que contranatura, bem que o "animal spirit" poderia apostar mais no capital humano, arrepiando um pouco a cartilha neoliberal, a mesma que defende e dogmatiza a desregulamentação e liberalização das regras em favor dos monopólios. Com uma redução drástica da obra pública e da construção nova, bem como a falta de encomendas ao nível da remodelação, o reconhecimento da difícil situação do setor da construção (um terço das 4746 insolvências registadas em 2011), já garantiu que será "dos mais beneficiados" com a
regularização das dívidas do Estado.

Quando, entre nós, foi eleita a falta de imaginação, não é somente na fileira da indústria da construção civil que Portugal denota ter uma ininteligível falta de visão e estratégia. Com a fuga dos investidores estrangeiros - muito devido à falta de credibilidade do país - e com a generalização da fraca procura, o ambiente recessivo no setor acentua-se e as empresas acabarão por ter de despedir mais. Mas o desemprego não é uma inevitabilidade e o seu combate deveria passar pela implementação sucessiva de medidas substantivas, "não passivas", de apoio ao emprego. Independentemente das "políticas reformadoras", o descalabro poderá mesmo atingir proporções insustentáveis, com a dispensa de mais de cento e vinte mil trabalhadores. Flexibilizar não é sinónimo de mobilidade e, muito menos, de progresso.
Tão pouco o é de reajustamento e adaptação do setor à atual realidade. O país e o mundo estão a mudar e a aposta na adaptação da formação superior e na implementação de políticas sérias ao nível da formação média, técnica, deveriam ser imperativos nacionais. Faltam centros de ofícios, de formação técnica especializada, aproveitando o futuro e estimulando o potencial criativo das relações inter-geracionais.

O pedido de "setor em reestruturação" e a oportunidade de criação de um fundo para a reestruturação da indústria, bem como a reconversão dos créditos das empresas de construção, não poderá ser isolado duma estratégia mais alargada. Com um Estado completamente submisso às leis do(s) mercado(s) e, mesmo considerando o salário como uma variável cuja curva descendente permite baixar a inflação e melhorar a competitividade das exportações, aproveitar o capital - jovem, ou nem tanto - nacional em P&D/I&D será decisivo a nível económico e social. Não nos poderemos esquecer do ainda desastrosamente reduzido impacto económico da inovação em Portugal.

Com um número médio de horas de trabalho superior ao comunitário, não deveríamos também reforçar os incentivos e a aposta nas competências de gestão, na inovação e na melhoria das capacidades tecnológicas das empresas? Não sendo possível reter os talentos nacionais e profissionais mais qualificados - que têm vindo a imigrar faz já uns anos -, urge criar condições para os aliciar e trazê-los de volta à economia nacional. Também entre nós poderemos criar vantagens competitivas sustentáveis, face a outros mercados europeus, e não só.

Se "temos um encontro marcado com a prosperidade", há que valorizar o fator trabalho, maximizar e implementar o saber da Universidade e dos centros de investigação, e transferi-los para os setores e empresas que, no tecido do nosso Portugal são, sobretudo, micro, pequenas e médias empresas. Desculpar-me-ão os defensores das medidas recessivas, continuar a acreditar que a produtividade resulta sobretudo da educação e da formação, e não da precariedade e do empobrecimento forçado, à custa da simples redução salarial. Perigosamente para alguns, poucos, o capital humano qualificado terá, necessariamente, de gerar maior remuneração e, consequentemente, mais qualidade de vida e melhor posição social.
 
*consultor
scaniceto@gmail.com
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