CONSTRUÇÃO SUSTENTÁVEL COMO MODELO DE NEGÓCIO 29/10/08, 14:15 A Construção Sustentável é um tema actual, suportado em várias disciplinas e agregando diversos sectores económicos. A sustentabilidade na construção depende de um conjunto de pilares como sendo as tecnologias e materiais utilizados, o desempenho energético, entre outros. A DTZ, em parceria com o jornal OJE, tem vindo a promover o debate do tema 'Sustentabilidade' através de artigos publicados, convidando também para o efeito algumas das principais entidades a actuar no sector. Para este primeiro almoço-debate - que contou com a colaboração do restaurante Eleven - convidámos Luís Garcez, Director-Geral de Marketing e Comunicação, da Somague por ser a entidade na área da Construção que ganhou o Prémio 'Sustentabilidade 2008'. Miguel Queiroz é o director-geral da consultora imobiliária DTZ Portugal Entrevista da SOMAGUE Como se distingue e qual a política de Sustentabilidade da Somague? LG - Desde a sua constituição em 1947 que sempre houve na Somague uma preocupação com as implicações da sua actividade, imediatas e futuras, antecipando até por vezes exigências legais ou de mercado. A aplicação deste princípio tem estado presente ao longo dos tempos: - Em 1993, ano em que realizou um processo reengenharia do seu modelo de funcionamento, reviu a sua missão, visão e valores (que incluem desde essa data a ética e a responsabilidade social); - Em 2001, integrou o Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável (BSCD Portugal), vinculado ao World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) e adoptou o conceito de 'Desenvolvimento Sustentável', entendido como um desafio e aplicado à actividade desenvolvida, mas visto também como uma oportunidade de negócio. - Desde 2003 tem vindo a divulgar o seu desempenho em termos de sustentabilidade num relatório anual. <hr> Quais os desafios da sustentabilidade na construção? LG - Na Somague a Construção Sustentável (aplicação dos princípios do Desenvolvimento Sustentável ao ciclo global da Construção) não tem sido entendida como uma problemática de difícil execução, mas sim como um desafio para o sector e para todos com quem interage. A actividade da empresa constitui uma intervenção complexa, onde coexistem preocupações no plano económico, ambiental e social. Entre outros pontos deverá: - Dinamizar, avaliar e ajustar os métodos de trabalho e as tecnologias utilizadas para promover a prestação de serviços, com satisfação dos clientes, com desempenho eficaz por parte da empresa e com respeito pelas disposições legais aplicáveis e requisitos específicos dos locais intervencionados.
Quando são contactados para a construção de um edifício já notam preocupações ambientais da parte dos clientes? LG - Já se começam a notar, embora não ainda de forma transversal, como acontece lá fora. Aí, logo nos processos de pré-qualificação ou na resposta a programas de concurso, são sistemáticas as questões que nos são colocadas em relação a Qualidade, Segurança e Saúde e a Gestão Ambiental. E o facto de a Somague dispor já de sistemas de gestão certificados nestas três vertentes incutiu uma cultura nos colaboradores que lhes permite entender o pretendido e eleger a melhor forma de responder às exigências, que requerem em geral respostas com casos de experiência em obras já executadas.
Como é que estas preocupações afectam o modus operandi da Somague ao nível da adaptação às recentes exigências do mercado? LG - Na sequência do que disse anteriormente, os donos de obra questionam muitas vezes, logo na fase de concurso, sobre as práticas de gestão para com os fornecedores e os subempreiteiros, como lhes são passadas as exigências ambientais, como prevê a empresa vir a relacionar-se com as instituições locais e como lidará com a envolvente social das obras, não só no que se refere à minimização dos impactos ambientais provocados pela realização dos trabalhos, mas também como alertará as populações para os aspectos que se irão verificar. Na Irlanda, como exemplo, para além das exigências ambientais hoje consideradas usuais (gestão de resíduos, controlo de ruído, vibrações, derrames, etc.) deparamo-nos já com medidas de mitigação raras e inéditas, em geral ligadas com a biodiversidade (ex. electrofishing nas intervenções em cursos de água). <hr> Poderá ser factor de escolha do cliente e condição 'sine qua non' para a adjudicação da obra? LG - Começa a ter cada vez mais força, mas ainda não lhe é dada, em Portugal, a devida importância. Qual o posicionamento da Somague? LG - Garantir um negócio economicamente rentável, com qualidade, em segurança e com respeito pelo ambiente. O que diferencia uma empresa como a Somague que recentemente ganhou o prémio 'Sustentabilidade 2008' da generalidade das empresas? LG - A sustentabilidade da actividade empresarial é, no entender da Somague, assegurada pela efectiva concretização dos compromissos de gestão pelos quais se guia, bem como outros que considera fundamentais para conseguir o equilíbrio entre o bem-estar social e a preservação ambiental. Assim, foram sistematizados os objectivos de actuação e, em 2007 foi definida uma politica de sustentabilidade que assenta nos seguintes eixos: Económico, Social e Ambiental. Desta política de sustentabilidade relevaria alguns pontos: - Provocar a mudança (no sector da construção) ao inovar o produto em todo o seu ciclo de vida; - Construir um futuro inovador, de qualidade, em segurança e com respeito pelo ambiente; - Impulsionar a competitividade e a rentabilidade de forma sustentada, utilizando os recursos humanos, tecnológicos e naturais adequados; - Accionar um processo constante de envolvimento com os stakeholders de modo a que as suas principais necessidades e expectativas sejam incorporadas na cadeia de valor da empresa; - Reinventar cada atitude individual, considerando os valores éticos como um compromisso fundamental para o bem-estar da sociedade e para o respeito pelo indivíduo; - Promover o sentido de responsabilidade de todas as partes interessadas em prol da valorização do património natural; Este sistema de gestão encontra-se implementado desde 1993 e tem sofrido alterações de modo a responder aos novos requisitos. Em 2002 a Somague definiu o sistema integrado de Gestão do Ambiente, Qualidade e Segurança e em 2007, com a definição do Sistema de Gestão da Investigação, Desenvolvimento e Inovação (IDI), foi adicionado ao modelo de funcionamento um novo processo de suporte para a gestão de IDI. <hr> Tendo em conta o 5º relatório de Sustentabilidade da Somague, quais os compromissos futuros? LG - Nos três vectores de que falei, destacaria os compromissos que passam pelo alargamento da certificação nos referenciais de Qualidade, Segurança, Ambiente e IDI adoptados pela Somague Engenharia às suas participadas; Definição e implementação do Código de Ética; Definição e integração dos indicadores de sustentabilidade nos Sistemas de Informação da empresa. A nível social, aliar os objectivos de negócio à contribuição para o desenvolvimento social e das comunidades onde opera; Melhorar o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional dos seus colaboradores; A nível ambiental, prevê-se o alargamento da implementação do Sistemas de Gestão Ambiental; Aumentar a percentagem de resíduos da construção enviados para reciclagem;
Quais as principais obras da Somague em 2008? LG - Em Portugal temos: - Pescanova - execução da infra-estrutura básica de captação e descarga de água de mar, sistema de captação e infra-estruturas produtivas do projecto de execução aquícola de engorda de pregado em Mira; - Metro de Lisboa - Linha Vermelha; - Central Hidroeléctrica, Bemposta; - Complexo Imobiliário Estoril Sol; - Concessão Túnel do Marão - IP4 - Amarante / Vila Real Ampliação do Complexo Industrial da Repsol Polimeros, Sines Reabilitação reforço dos Cais entre Santa Apolónia e Jardim do Tabaco - 2ª Fase; - Metro do Porto - Linha de Gondomar, troço Estádio do Dragão - Venda Nova; - Terminal marítimo e reestruturação da Avenida Marginal de Ponta Delgada - Portas do Mar; - e Molhes do Douro. <hr> Para Espanha destaco: - Porto de Valência - 4 obras de intervenção; - e o Centro Comercial Dolce Vita na Corunha (construído em tempo recorde e inaugurado há uns dias); Através da Neopul temos: - o AVE - Eixo Atlântico de Alta Velocidade em Espanha: Troço Pontevedra - Cerpozons; - AVE - Actuações de melhoramento na electrificação de Terrasa-Manresa; - AVE - Barcelona - Figueras da linha de Alta Velocidade Madrid - Zaragoza - Barcelona -Fronteira Francesa - Adaptação Alta Velocidade - Troço Alcazar - Manzanares - Jaen - Espanha. Na Irlanda ganhámos: - a Auto-estrada N7 - Nenagh a Castletown (Derrinsallagh to Ballintotty); - e a LUAS - Metro de superfície de Dublin. Em Angola temos: - a Clínica Girassol - Luanda; - Maternidade Lucrécia Paim; - e a Universidade Agostinho Neto;
Em Cabo Verde: - Riu Hotels - construção de 4 hotéis de 5 estrelas; - e a expansão e modernização do porto da Praia <hr> Quais as práticas mais comuns ao nível de protecção ambiental? LG - O sector da construção está associado a grandes impactes ambientais. Refira-se que a nível europeu representa cerca de 40% dos recursos naturais extraídos, 40% dos resíduos produzidos (100 a 200.000.000 Ton/ano) e 40% de energia consumida (incluindo a que é consumida na extracção, fabrico e transporte de materiais). É ainda um sector caracterizado pela ocupação não racional e indevida dos solos, com predominância de resíduos de construção e demolição indiscriminados (perigosos e não perigosos) não depositados ou encaminhados para destino próprio. Tendo isto em conta, a Somague implementou a sua política ambiental, que passa por: Respeitar e manter actualizados os requisitos legais aplicáveis e outros subscritos e avaliar periodicamente o seu cumprimento; Identificar e prevenir situações que possam resultar um impacte ambiental negativo; Minimizar a produção de desperdícios e resíduos, garantindo a gestão responsável e eficaz dos que foram produzidos; Promover a reciclagem e reutilização de materiais e equipamentos; Incrementar o uso de tecnologias 'limpas'; Respeitar a sociedade envolvente e criar canais de comunicação com publico em geral; Consciencializar os colaboradores, mantendo-os actualizados relativamente ao Ambiente e salientando a importância da sua participação na implementação do Sistema de Gestão Ambiental; Prevenir a poluição do meio ambiente. A Somague planeia durante o ano de 2008 estabelecer um Código de Ética no qual serão definidas as directrizes gerais que devem reger a sua conduta e a dos seus colaboradores tanto nas relações com terceiros como com o mercado. Os promotores imobiliários e as consultoras imobiliárias estão a exigir a introdução destes conceitos nos projectos? MQ - A própria lei assim o define. A partir de dia 1 de Janeiro de 2009, será obrigatória a certificação visível da eficiência energética nos edifícios pelo que, como Consultores, temos sempre essa indicação em conta. <hr> Entrevista à DTZ Qual o impacto das políticas de sustentabilidade nos investimentos e no comportamento dos players do mercado imobiliário? MQ - A apetência dos investidores para edifícios energeticamente eficientes está associada ao retorno potencial que estes permitirão. A ameaça ao valor de um edifício energeticamente não eficiente será uma obsolescência acentuada. Num produto que necessite de gerar retornos positivos durante um longo período, o proprietário deverá antecipar mudanças na procura por parte dos utilizadores. À medida que a procura de espaço no mercado se torna mais sensível à eficiência energética, os edifícios que conseguem uma avaliação, do desempenho energético, elevada (na escala de A a G), tornar-se-ão mais apetecíveis. O impacto da sustentabilidade nas rendas e no valor dos imóveis dependerá, em parte, das condições de mercado. Por exemplo, num mercado caracterizado por uma elevada procura e uma escassez de oferta, existe pouca diferenciação entre os diferentes tipos de produto. A partir do momento em que a eficiência energética se torna mais importante é expectável um forte crescimento das rendas e do valor dos edifícios sustentáveis. Estes edifícios, provavelmente, registarão uma reduzida rotatividade de inquilinos e períodos de desocupação reduzidos. Neste enquadramento, os imóveis sustentáveis serão menos ilíquidos do que os seus congéneres não sustentáveis. Um mercado de dois níveis emergirá e a eficiência energética seria vista como uma das características dos espaços 'prime'. <hr> O que pode significar em termos de custo médio construir um edifício dentro de parâmetros de sustentabilidade energética, relativamente à construção convencional? MQ - Os factores preço e custo continuam a ser as variáveis mais valorizadas pelos construtores e promotores nacionais. A grande dúvida reside, no entanto, da estimativa do aumento dos custos decorrente da construção sustentável e de que forma é possível reflectir o investimento realizado no preço final dos imóveis. Adicionalmente, alguns 'players' do mercado, mais sensibilizados para as questões ambientais, afirmam que a decisão de efectuar ou não construção sustentável não se deve basear em critérios financeiros, somente. A grande questão base é a de que na sociedade actual todos nós deveremos ter direito a habitar e trabalhar em imóveis sustentáveis. A sustentabilidade a este nível não passa exclusivamente por eficiência energética ou pela qualidade do ar interior. Passa, acima de tudo, pela criação de ambientes agradáveis consubstanciados nas vertentes social e comportamental. O facto de se tratar de um assunto emergente, faz como que se criem oportunidades para que façamos as coisas bem feitas. Mais do que nos focarmos num ou noutro aspecto, deveremos elaborar estratégias globais para o desenvolvimento estratégico que envolvam não só os promotores, construtores ou investidores no mercado imobiliário, mas igualmente o poder autárquico e os consumidores finais. E o Estado, como o principal detentor de imobiliário em Portugal. A Sustentabilidade afecta o valor dos imóveis? MQ - Em nossa opinião, uma questão paralela é: dever-se-á medir o investimento imobiliário apenas com base no seu retorno, ou ter em consideração os impactos sociais e ambientais? De que forma todos estes factores poderão ser quantificáveis? No último ano, tem-se assistido a uma tendência para os gestores dos principais fundos imobiliários começarem a incluir nas suas decisões de investimento estes factores. Contudo o cepticismo do mercado resulta da falta de 'case studies' que permitam sustentar as estratégias de investimento a realizar. A implementação da regulamentação comunitária é bastante recente, pelo que não existe um historial de transacções impossibilitando a análise do comportamento dos players de mercado. <hr> Tem sido colocada alguma pressão junto dos avaliadores para que consigam dar a resposta a todas as estas questões. É importante, contudo, lembrar que os avaliadores tendem a trabalhar com dados históricos sobre os mercados imobiliários que analisam, não sendo, nem podendo ser, os impulsionadores desse mesmo mercado. É papel sim dos avaliadores estarem atentos à evolução dos mercados, e adequar as suas práticas de forma a reflectir nas suas avaliações, de um modo independente e preciso, os impactos das evoluções recentes do mercado, na valorização dos imóveis. Uma das opiniões consensuais no mercado imobiliário é de que efectivamente as medidas decorrentes da sustentabilidade irão afectar o valor dos imóveis. A quantificação da alteração do valor é que neste momento não é possível estimar. A necessidade de realização de obras nos edifícios com o objectivo de se obter a sua certificação terá um impacto directo no valor dos imóveis. Por oposição, a adequação dos mesmos às necessidades de uma procura cada vez mais consciente das questões ambientais, torná-los-á mais líquidos e irá potenciar um aumento das rendas. Os edifícios que não efectuarem tais investimentos tornar-se-ão cada vez mais obsoletos afectando o seu valor. A definição estratégica será, na opinião da DTZ, uma das melhores formas de dotar os investidores de informação suficiente para a tomada de decisões de investimento. Fundamental à assessoria ao desenvolvimento estratégico deverá estar um forte conhecimento do mercado e dos seus players, conhecendo as suas necessidades e cruzando as expectativas de desenvolvimento de cada área de negócio. Com uma análise sustentada do mercado, e de casos concretos de desenvolvimento sustentável em produtos imobiliários, será então possível responder às questões colocadas. O risco de se continuar a negligenciar o impacto da sustentabilidade no imobiliário será seguramente elevado. ![]() ![]() |