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Fátima Carioca: “Nenhuma medida familiarmente responsável pode ser considerada como um custo”
EFR
07/12/11, 01:00
OJE

A maior parte das empresas sobrevaloriza o tempo de presença do colaborador na empresa, quando novas formas de gestão de pessoas poderiam abonar em favor da produtividade e motivação. É um dos vários exemplos apontado por Fátima Carioca para demonstrar que há ainda muito por fazer para melhorar o investimento das empresas em medidas que favoreçam a vida pessoal dos colaboradores
 
Num contexto económico como aquele que vivemos actualmente, ter empresas familiarmente responsáveis é algo que ganha um valor acrescido?

As empresas familiarmente responsaveis são empresas em que se nota (mede) uma melhor saúde, motivação, compromisso, rendimento, desempenho, iniciativa, retenção do talento, tempo poupado em gestão pessoal durante o horário laboral, etc, etc. Ora nas empresas, especialmente em tempos de crise,todos estas atitudes são fundamentais e críticas para encontrar soluções novas, novos modelos de negócio e criar uma maior cumplicidade entre os colaboradores na organização.
 
Para além disso, quando as políticas familiarmente responsáveis são enquadradas na estratégia global da empresa e acompanhadas por práticas directivas consonantes facilitam a implementação de medidas que de outra forma suscitariam uma muito maior resistência à mudança.  É o momento de as empresas demonstrarem consistência nos valores em que acreditam. Se a consistência é abalada, tem um efeito perverso na confiança dos colaboradores e toda a atitude de empenho e compromisso que se necessita rui. Por último, é ainda uma questão de solidariedade nacional, fará parte da responsabilidade social  de todas as empresas que têm uma visão de futuro actuar proactivamente para que as gerações actuais e futuras cresçam e se desenvolvam de uma forma mais humana.
 
As dificuldades económicas que afectam muitas empresas poderão condicionar a implementação de boas práticas a este nível?
As dificuldades económicas, por si só, não constituem um impedimento à implementação de práticas familiarmente responsáveis. As boas práticas de conciliação que, por exemplo, favorecem a flexibilidade de tempo e de espaço, as  políticas profissionais de apoio ao colaborador e as políticas de benefícios sociais têm um efeito de alavancagem na criatividade, empenho e desempenho. Podem existir, pontualmente, benefícios incomportáveis pelas empresas em situação fragilizada, mas quando tal acontecer é muito importante que a situação seja explicada de uma forma clara e transparente a par com a estratégia e o caminho a seguir para ultrapassar a situação.
 
É certo que nem todas as medidas familiarmente responsáveis implicam um custo para a empresa. Esta é uma altura propícia à criatividade dos empresários ou departamentos de recursos humanos? Que exemplos pode destacar?

Nenhuma medida familiarmente responsável pode ser considerada como um custo mas sim como um investimento. Mais do que isso, a não existência de tais políticas, isso sim, será um custo para a empresa, nomeadamente em termos de menor produtividade, mais problemas de saúde (por stress, por exemplo), mau ambiente e maior conflituosidade laboral, maior rotação não desejada (para o estrangeiro neste momento). É realmente tempo de se ser criativo, mas principalmente de maior participação e diálogo. As soluções são mais criativas e verdadeiras quando construídas pelos colaboradores e dirigentes.
 
Quanto a exemplos a destacar, salientava que, actualmente, a maioria das organizações estão ainda estruturadas de maneira a sobrevalorizar o tempo de presença na empresa, como se estar presente tivesse uma correspondência com o nível de produtividade. Existem inúmeras funções em que a gestão dos colaboradores poderia ser diferente: por projectos, objectivos, tarefas, não implicando uma presença diária e contínua no local da empresa. Esta medida, que apenas exige uma nova forma de gerir as pessoas, traz poupanças significativas às empresas e às pessoas. Para não ir mais longe, quem tiver de se deslocar de carro para a empresa, quanto poupa num dia que trabalha em casa? No final do mês equivale a um aumento real do salário mensal. 
 
Da parte dos colaboradores tem vindo a ser crescente o valor que atribuem a este tipo de medidas?

Sem dúvida. As novas gerações não são menos trabalhadoras que as anteriores e, com o nível elevado de desemprego, poderão sujeitar-se a praticamente todos os trabalhos. Mas é verdade que não ambicionam esgotar-se no trabalho, por muito aliciante que seja. Ambicionam um trabalho desafiante e realizador mas ambicionam também continuar a comprometer-se em projectos comunitários, voluntários, ambicionam construir uma família, ambicionam realizar-se como pessoas.
 
Tem assim duas consequências. Primeira, em igualdade de oportunidades, as empresas familiarmente responsáveis são mais procuradas pelos jovens e mais bem sucedidas no que toca à captação e retenção dos melhores talentos. Segunda, está estudado que, embora existam outras variáveis a considerar, a flexibilidade na empresa está directamente relacionada com a motivação, donde que os jovens, e os menos jovens, até se podem sujeitar a qualquer trabalho. Mas com que motivação? Com que produtividade? Durante quanto tempo?
 
Como define, hoje, uma empresa familiarmente responsável?

Uma empresa familiarmente responsável é aquela que encara a família como mais um parceiro, um "stakeholder". E implementa um conjunto de medidas que favorecem a harmonização entre a vida profissional e familiar, que permitem ao colaborador realizar-se como pessoa e sentir-se mais feliz e à sociedade desenvolver-se de uma forma mais humana.
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