| true- Segunda-Feira 21 Maio de 2012
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Vivemos a lei seca para o financiamento Gestão de Activos 03/11/11, 10:43
Com frequência ouvimos as palavras "momento atípico" para caracterizar a actual situação dos mercados e, acima de tudo, para descrever a evolução das carteiras de poupança/investimento de cada um de nós. Tais considerações são feitas a curto prazo e sem grande visibilidade, fruto da actual conjuntura. A gestão de activos costuma ser analisada nos seus históricos passados segundo padrões de desempenho passados e não tanto no seu desempenho comportamental. Prefere-se quantificar e não tanto qualificar. Resulta mais fácil de entender e reportar. A volatilidade acrescida dos últimos anos, especialmente na Europa, nossa área geográfica de referência, tem proporcionado críticas ao desempenho da actividade de gestão de activos. Serão justas as críticas?
Dirá quem gere que devemos estar todos conscientes da necessidade de uma correcta aferição dos riscos vs potencial de remuneração que estamos dispostos a aceitar no momento em que nos comprometemos com determinado activo ou carteira de activos. O espaço temporal do investimento é igualmente factor determinante da selecção pelo seu potencial impacto na volatilidade do activo ou activos.
Em vez de nos remetermos para o campo das meras explicações simplicistas, foquemo-nos no desafio de ambas as partes. O sucesso do gestor será o sucesso do investidor e o contrário também se verifica. Na prática, ambos agem em parceria.
Vivemos anos a fio de globalização em benefício de um rápido crescimento da tecnologia de ponta com redução de pobreza nos países convergentes. No entanto ficámos expostos a efeitos de um rápida propagação eventos negativos. A actual crise financeira, "iniciada oficialmente" em Wall Street, em 2008, rapidamente contagiou as restantes economias mundiais. Os problemas da Europa rapidamente vieram à tona e tomaram contornos de grande dimensão.
Perante a actual conjuntura, mais que em um cenário atípico, estamos perante uma alteração dos paradigmas que sustentavam a gestão de activos. Verdades absolutas passadas, deixaram de o ser. Dívidas soberanas com risco muito superior a dívidas de empresas desse mesmo estado.
Mercados financeiros mundiais que navegam à vista em função de comentários e vontades políticas de uma manta de retalhos, que é a actual Europa, em que problemas gravíssimos de pequenos membros provocam um cataclismo nas suas estruturas, se propagam e ameaçam a sua continuidade. Mercados que tantas vezes foram considerados de tal maneira eficientes que não necessitavam de mais regulamentação e que agora se tenta regular para apressadamente acautelar os legítimos interesses de todos os participantes. Muito mais se poderia listar sob pena de nos tornarmos demasiado extensos.
Quem se atrevia a antecipar que uma Grécia poderia por em causa a sustentabilidade do euro, do projecto Europa e deixar o mundo em suspenso? Porque se analisaria o potencial incumprimento por parte de um país membro da UE admitido à união europeia e euro dada a convicção que um tal evento nunca se passaria.
Viveu-se um largo período de ilusão resultando num profunda crise económica e de valores. Deparamo-nos perante uma austeridade mal entendida pelos cidadãos e mal programada pelos os nossos lideres. As consequencias têm sido de tal amplitude que os ditos paradigmas da gestão, e como se estruturavam os mercados financeiros, alteram-se.
Continua a ser verdade que a gestão de activos deve assentar numa visão a longo prazo e na capacidade de discriminar as propostas com maior valor. Alterações estruturais na regulamentação entretanto criada, como Basileia III, altera o desempenho do papel do sector financeiro na economia.
Actualmente vivemos a lei seca para o financiamento de projectos pelo que as empresas com capacidade de crescimento não são as que tinham capacidade de se financiar na banca mas as que têm actual capacidade de se financiar directamente no mercado, nomeadamente através do mercado primário. Futuramente, o processo de desintermediação das grandes empresas facilitará o acesso ao crédito por parte das restantes empresas de menor dimensão, mesmo se com crédito mais caro que no passado.
Do ponto de vista da gestão de carteiras, as alterações assentarão sobretudo nos métodos de valoração dos activos assentes em rigorosas análises qualitativas e quantitativas. Uma sistemática análise de risco transversal à globalidade da carteira de activos, entre as diferentes classes de activos, áreas geográficas, emitentes, entre outros, é obrigatória.
Não se poderão continuar a tratar os diferentes riscos de forma descorrelacionada, compartimentados em distintas classes de activos. O mesmo se passará com o excesso de analise quantitativa e comparativa das análises de valor.
Devemos tomar decisões de investimento com base no conhecimento de facto sobre o que está a ser feito e não tanto numa mera analise de comparáveis históricos que, per si, podem não aportar valor futuro. Riscos identicos deverão ser vistos de forma transversal, num mercado global, sem a ilusão de que poderão existir mercados, classes de activos ou zonas geográficas imunes ao que se possa passar com os restantes participantes mercado e seus rivais. A divida soberana deixa de ser, por defeito, o refúgio mas mais um risco a avaliar.
Em suma, quebram-se tabus e criam-se oportunidades. A relação investidor/gestor de activos será mais transparente e o nível geral de conhecimento e exigência evoluirá positivamente. Rui Salgado Alves, director da Área Comercial e Gestão de Activos da SGF

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