Azeite Jóia do Sul brilha no mundo Casos de sucesso ![]() OJE/Jack Soifer, Consultor internacional Esta empresa
familiar de Pereiras-Gare, concelho de Odemira, soma já dois prémios
internacionais de melhor azeite extra-virgem. O apeadeiro de Pereiras, na divisão entre o Algarve e o Alentejo, outrora usado para escoar a produção rural, já não tem serventia. Mantém-se, no entanto, como um ponto de referência importante na região. Partindo do apeadeiro por uma estreita estrada, chega-se aos olivais da Herdade Jóia do Sul. São nove hectares plantados entre 2005 e 2006, com as variedades Galega, Cobrançosa e Maçanilha. O azeite extra-virgem é muito apreciado nos melhores restaurantes do Algarve,
Alentejo e Lisboa. Em 2011, esta quinta vendeu apenas 4,2 mil garrafas. Há seis
anos, a jornalista Alexandra Monteiro e o marido Francisco Barra fartaram-se
das burocracias e do bulício da cidade e lançaram um projeto empresarial, que a
empreendedora dá a conhecer ao OJE. Porque investiram no azeite? Foi, antes de
mais, um sonho que se tornou realidade, pois investir num produto que
comprovadamente traz benefícios para a saúde nunca seria um mau investimento. Que razões levaram à escolha desta
quinta no Alentejo?
Razões de
dimensão da propriedade e a proximidade ao local onde habitamos foi condição
essencial. Porque escolheram estas variedades e
não outras? Escolhemos
variedades 100% portuguesas, pois investir noutras variedades que não fossem
nacionais não faria sentido, um vez que a produção é em território nacional. Quais são as principais dificuldades
da olivicultura?
As pragas, a
manutenção e a carência de mão-de-obra sazonal disponível. Qual foi o principal obstáculo sentido
na comercialização do azeite?
A forte
concorrência das grandes marcas a nível nacional e as marcas brancas das
grandes superfícies e a sua prática de preços irrisórios. O que é o mais difícil no processo de
exportação?
Portugal fica na
ponta da Europa; o exterior ainda não sabe do que cá se produz nem da qualidade
a ela associada. Para muitos, Portugal é uma província espanhola e, por isso,
chegar ao exterior é dificultado, pois não é reconhecido como produtor de
azeite de qualidade. Como é que a Direcção Regional da
Agricultura poderá contribuir para dinamizar a atividade exportadora de
empresas como a vossa?
Através de uma
alargada divulgação nas suas plataformas de contactos a nível nacional e
internacional daquilo que de melhor se produz por cá. O que poderá fazer o AICEP?
O
redimensionamento de quotas para micro e pequenas empresas, de forma a estas
também poderem abarcar esta associação. Numa perspetiva geral, qual é o maior
problema do Alentejo?
Os entraves
legais/burocráticos para se chegar ao término de um qualquer processo.
E do município?
Os grandes é que
vingam. As microempresas não pesam na balança.
Qual é o maior problema das nossas
pequenas e médias empresas?
É querer fazer e
"alguém" não deixar. O processo burocrático que depende de Ministérios e
Institutos deveria ser sujeito a uma simplificação alargada e adaptada a cada
região. Se fosse ministro da Agricultura, qual
seria a sua principal ação?
Acreditar no
esforço e na vontade de quem quer fazer algo neste ramo e facilitar qualquer
pedido que entrasse neste Ministério consoante provas apresentadas pelo
interessado. Ao ministro da Economia, o que compete
fazer nesta área?
Analisar a
viabilidade económica numa perspetiva da realidade geográfica e não se basear
em fórmulas matemáticas que, em contextos de regiões diferentes, são por vezes
falíveis e não declaram as reais potencialidades do projeto em causa. Que condições são necessárias para
criar emprego em Portugal?
Primeiro, impedir
falências através da eliminação ou do adiamento do pagamento de impostos de
microempresas que não apresentam lucros. Por que pagar o PEC (Pagamento
Especial por Conta)? Segundo, manter os bons profissionais e empreendedores no
País, pois, sem eles, não somos ninguém. Por último, reavaliar o fundo de
desemprego, porque este serve de bengala a muitos que não querem trabalhar.
Assim que a cultura dos desempregados seja sujeita a um "reset" a mentalidade
pronta a produzir, acredito que a economia voltará a tornar-se sustentável e
competitiva. Empreendedores
Alexandra
Monteiro, 37 anos, casada com Francisco Barra, de 39, com dois filhos de cuja
companhia desfruta ao máximo no (pouco) tempo que lhe sobra do trabalho. De
ascendência luso-germânica, nascida e criada em Albufeira, Alexandra Monteiro é
licenciada em Comunicação Social e Cultural pela Universidade Católica
Portuguesa. Empreendedora, entusiasta, pró-activa, só não gosta mesmo nada do
estado a que o País chegou.
AZEITE, OS ENTRAVES À EXPORTAÇÃO Portugal tem um
enorme potencial na venda de óleos comestíveis, como o de girassol, que está em
plena subida, por ser gordura boa. O azeite luso é um dos melhores e os
espanhóis vêm cá plantar de forma racional, como nós já deixámos de fazer. Do
resíduo, fazem-se sabonetes, vendidos a bons valores na Europa, e ainda
extratos para a indústria cosmética e alimentar.
Os pequenos
lagares são racionais na produção, mas perdem na distribuição. Isto pode ser
compensado por uma parceria com uma rede independente de distribuição, mas não
é fácil. Há que criar a comercialização, mas o oligopólio que domina o setor e
a distribuição que importa óleo nocivo para a saúde impede-o.
Na produção
pequena juntam-se muitos produtores numa central de "envase" e transporte ou,
como no caso dos vinhos, contratam-se, por dia, camiões TIR com uma moderna
linha móvel de engarrafamento que bombeia o azeite do lagar e o devolve
engarrafado e embalado, pronto em paletes para serem depois transportadas em
carrinhas, ou de camião. Nas Beiras e no
Alto Alentejo, as cooperativas vendem pouco e o azeite volta para os
olivicultores ou é vendido localmente. Três firmas vendem 90% do consumo, sem que
tenham muitos olivais em Portugal (com uma exceção). Elas apenas engarrafam:
Gallo da Unilever, Sovena, do grupo Jorge de Mello,
e Serrata.
De cada tonelada
de azeitonas obtêm-se apenas 120 a 150 litros de azeite, extraído aos 27/28ºC.
Portanto, perde-se um grande volume de massa. Uma ínfima parte é utilizada para
fazer pasta de azeitona, como em Vila Velha de Ródão. Mas, apesar da mais-valia
gerada, o processo, para ser bem sucedido, necessita de grande empenho em
marketing. A variedade "Galega", habitual no Alentejo e Beiras, exige cuidado,
pois é sensível às
pragas. É uma azeitona pequena, preta, cujo azeite aveludado é muito
apreciado.
Há também um bom
potencial para exportar azeitona em conserva, mesmo neste período de crise
económica mundial. É um processo muito simples, com investimentos limitados,
mas precisa de uma marca e de foco em pequenos nichos de mercado, como os
restaurantes gourmet. Ao demarcar zonas e motivar olivicultores e cooperativas
para formar um cluster de exportação, poderíamos em muito aumentar o rendimento
dos produtores e ainda trazer libras para reduzir o nosso défice comercial.
Extrato, fácil de obter sem grande tecnologia e que oferece bom lucro, precisa também de
um consultor para exportar. São 180 milhões de euros só em dois
nichos, de resíduos ainda desprezados.
Mono e
diglicerídios gordos, emulsionantes até agora feitos com gordura animal, em
geral de porco, começam a ser proibidos ou restringidos, o que abre um grande
potencial para óleos vegetais. Se o Governo apoiar clusters de lagares para
certificação e exportação, teremos um retorno de jovens técnicos nas pequenas
cidades. "Um dos stands que atraiu mais atenção na Feira Nacional do
Azeite...tinha produtos de beleza... feitos no Reino Unido com azeitonas
compradas a comunidades carenciadas, em Itália". Francisco Lino, da Confraria
do Azeite da Cova da Beira diz, "Portugal deve apostar neste tipo de inovações".
"O consumidor não
está informado sobre a produção, há grandes diferenças entre o azeite refinado
e o virgem" diz José Fernando, diretor-técnico da Cooperativa Agrícola
de Portalegre,
acrescentando: "A distribuição é das grandes superfícies, que desmantelaram os
canais que existiam".
Segundo este
responsável, faltam infraestruturas: "A desertificação, a falta de vias
de comunicação, de investimento privado e público... Estamos à margem do
desenvolvimento, por parte dos governos centrais". Os entraves são "a
burocracia que encontramos diariamente para resolver qualquer assunto. Apenas
deixo esta questão; afinal, precisamos ou não de empreendedores?"
Ainda segundo
este responsável, "a AICEP poderia, em parceria com os consulados, desenvolver
contatos, provas e degustações".
A Cooperativa
Agrícola de Portalegre congrega mais de dois mil produtores, produz 350 mil
litros por ano e já exportou para a Bélgica, França, Angola e Alemanha.
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