A Nokia defende a sua liderança nos equipamentos de comunicações móveis com uma estratégia que vai cada vez mais para além dos telemóveis propriamente ditos. Sinal dos tempos, a loja on-line e as aplicações concentram uma boa parte da nova estratégia. Luís Peixe, líder da empresa em Portugal, explica em que consistem os desafios do mercado actual.
Os resultados de 2009 demonstram que a Nokia terminou o ano melhor do que começou, com o último trimestre a inverter a tendência de desaceleração que vinha a verificar-se. Isto ficou a dever-se a que razões?
Terminámos, de facto, o ano muito bem e o último trimestre é um bom indicador disso mesmo. No fundo, é o culminar de um ano de aplicação da nossa estratégia, que foi realinhada na direcção das denominadas "soluções"...
... que se traduzem por quê, exactamente?
Isso traduz-se em trazer para um equipamento móvel, através de um bom "user interface", mais valor para o consumidor final. Esse valor pode passar pelo acesso às músicas pessoais, independentemente da localização onde estejamos; passa também pela facilidade de fazer download dessas músicas, ou por uma solução de navegação que dê comandos de voz, guias de cidades; passa ainda pelo acesso ao mail, etc. Todas estas constituem, cada vez mais, características valorizadas pelo utilizador de um equipamento móvel. A Nokia está a operar uma transformação: de uma empresa, cuja vocação era essencialmente trazer para o mercado telemóveis para utilização básica de conversação e mais algumas funcionalidades, somos uma companhia com um âmbito muito mais abrangente, e daí a nossa entrada neste mundo dos serviços.
Qual foi a evolução da quota de mercado Nokia em Portugal e no mundo em 2009?
A nível global, estimamos termos terminado o ano com uma quota de 38%, com uma progressão no último trimestre que nos terá deixado nos 39%.
No sector dos smartphones, pensamos que essa quota tenha ficado nos 40%, ainda a nível mundial. Em Portugal, somos líderes destacados em ambos os segmentos.
A Nokia liderou de forma sistemática a explosão dos telemóveis na era da sua massificação. Mas hoje subsiste a ideia de que a marca perdeu terreno quando o mercado descobriu os smartphones. A Nokia acordou tarde para o fenómeno?
É uma ideia errada e vou explicar porquê. Fomos a primeira empresa a pensar nos smartphones numa perspectiva de plataforma aberta. Repare que a plataforma Symbian, aquela que nós utilizamos na maioria dos nossos equipamentos, partiu de uma iniciativa da indústria em que a Nokia era um dos "main drivers", mas onde decidiu adquirir a totalidade do capital e transformá-la numa fundação, a Fundação Symbian. O objectivo é que o Symbian seja uma plataforma completamente "open source". Tudo isto ilustra que há muitos anos que a Nokia se dedica ao desenvolvimento de um sistema para os seus smartphones, mas um sistema que permite o desenvolvimento contínuo pela comunidade. Um bom exemplo disso mesmo é o Forum Nokia, que conta com cerca de quatro mil "developers", um número muito significativo e que nos dá muita confiança.
Assistimos ao lançamento de outras marcas com fortíssima implantação no mercado de smartphones, nomeadamente o mercado empresarial. Em comum, o facto de o software ser partilhável em diversas plataformas para além do telefone propriamente dito. Pensa que o sucesso se joga no sistema operativo?
Acho que o sucesso se joga em toda a gama e em todos os segmentos. Nós somos uma empresa cuja missão é, como diz o lema Nokia, "connecting people", e isso não é só conectar aqueles que têm dinheiro para pagar um telemóvel de 700 euros, mas também aqueles que gastam apenas 20 euros num equipamento. Nós estamos presentes em todas as geografias e em todos os segmentos de preço. O sucesso passa muito por aí, mas é claro que a área dos smartphones é uma classe muito "sexy" e reúne muito do valor, pelo que, quando falamos em trazer soluções para o mercado, isso traduz a nossa aposta nesse segmento. Mas creio que a nossa quota de 40% no mercado dos smartphones é uma liderança muito significativa e fala por si.
Falou em plataforma de código aberto, a propósito do Symbian. Será possível a algum fabricante, no futuro, sobreviver com um software próprio e exclusivo?
O Symbian não é um software exclusivo da Nokia, tanto que houve outros fabricantes a desenvolverem aplicações nesta plataforma. É claro que é o nosso sistema por excelência nos smartphones, mas também introduzimos recentemente, num patamar acima, a plataforma Maemo, que é desenvolvida sobre o Linux. Mas estou de acordo que assistimos no mercado a grandes apostas no domínio do software - será, porém, o consumidor a decidir qual é aquela que lhe traz mais valor.
E agora pergunto-lhe muito directamente: o que acha do iPhone?
É um produto muito interessante para a nossa indústria, apesar de não trazer nada de propriamente disruptivo em termos de aplicações, mas tem o seu espaço.
...a que atribui o sucesso mundial do iPhone?
O sucesso de alguns equipamentos da nossa concorrência tem a ver com a capacidade de identificação de nichos e a capacidade levar valor a esses nichos.
Quanto ao produto de que fala, foi isso que aconteceu, mas a verdade é que a indústria tem capacidade de reagir muito rapidamente e completar aquilo que falta. É claro que vemos a concorrência com bons olhos, porque não olhamos para a nossa posição dominante numa perspectiva estática, não nos limitamos a olhar para o nosso umbigo. Recordo que a nossa estratégia tem sido a de trazer soluções para o mercado, com inovação. Dou-lhe um exemplo: a Nokia investe cerca de 16 milhões de euros por dia em investigação e desenvolvimento, o que mostra bem as nossas apostas na tecnologia. Por isso, em suma, o iPhone foi um produto que criou o seu espaço e é nele que continua.
Fiz-lhe esta pergunta não tanto pelo iPhone em si, mas por se tratar de uma marca que não estava presente nas comunicações móveis e, de repente, chega com este efeito que é conhecido. E agora temos a Google... Este tipo de apostas preocupa a Nokia?
No caso da Google, essa aposta traduz- -se mais por uma nova plataforma, a Android, mas não deixa de ser concorrência que, mais uma vez lhe digo, não tememos e até saudamos. Reflecte a estratégia de aposta em serviços e em trazer mais valor para o mercado e, sublinho, no final do dia será o consumidor a decidir qual a melhor.
Nós temos muita confiança na nossa marca que, recordo, há vários anos é considerada como a quinta mais valiosa do mundo. Isso só se mantém pelo trabalho que continuamos a desenvolver diariamente e a chegada de concorrentes só nos entusiasma e nos dá mais vontade de ir mais longe, como se vê, aliás, pelos novos produtos que temos trazido para o mercado.
Mas tudo isto traduz uma mudança de paradigma: fica a ideia de que já não basta a um telemóvel ser bonito, ter uma câmara cheia de megapixeis... O consumidor está a ficar habituado a ter mais.
Por isso temos uma resposta forte no domínio das soluções. Lançámos a nossa loja de música on-line, temos soluções de e-mail e de instant messaging, bem como a navegação com mapas pré-instalados. Desde o lançamento, o ano passado, da nossa Ovi Store, que registamos um crescimento muito forte em downloads de aplicações e onde temos uma disponibilidade muito grande. Por outro lado, se adquirir um Nokia com GPS, ele oferece já os mapas da Europa, incluindo os pontos de interesse e informações úteis - tudo isto está disponível, substituindo eficazmente um tradicional navegador por GPS. O mercado passa, por isso, muito por esta experiência completa de utilização e essa experiência tem de ser boa, não nos podemos esquecer disso. Quando estamos a manusear as funções do equipamento, seja a fazer um simples scroll, seja a procurar uma nova aplicação, a utilização tem de ser agradável, tem de dar prazer. Estamos aliás a trabalhar neste aspecto, o que se irá reflectir no lançamento da nossa plataforma Symbian 3, que dá um passo à frente muito significativo na experiência de utilização. No decorrer deste ano, vamos lançar equipamentos com esta nova versão.
O que espera de 2010?
Vai ser um ano interessante, porque será um período de forte implementação da nossa estratégia em torno dos serviços. Será um ano marcado pela introdução das novas plataformas Symbian 3 e Maemo 6 e vamos continuar a responder a todas as classes de mercado, desde o equipamento mais simples e mais barato até aos smartphones, com o objectivo, uma vez mais, de trazer soluções.
Onde vê o maior crescimento - no mercado empresarial ou no de grande consumo?
Vemos esse crescimento com maior expressão nos smartphones, até porque eles estão a ser cada vez mais democratizados, chegando a faixas de preço mais abrangentes.
Portugal, por seu lado, é um mercado muito interessante, porque tudo o que é novidade é rapidamente adoptado pelos consumidores. Os portugueses têm uma grande apetência pela novidade e, nesse aspecto, este é um mercado fantástico. De tal forma que a Nokia usa muitas vezes o nosso país para fazer determinadas experiências.
Quanto representa o mercado empresarial para a Nokia em Portugal?
Não tem um peso significativo em volume, mas sim em valor. Respondemos a ele com um linha dedicada de produtos, e E-series, na qual tudo o que são aplicações ou soluções mais procuradas por este tipo de utilizadores é incluída. Mas é preciso não esquecer, mesmo assim, que o mercado empresarial é transversal a toda a linha de produtos.
O mercado português é das marcas ou dos operadores?
É as duas coisas. As pessoas dão importância à marca, mas mantêm uma afinidade muito grande com os operadores. O sucesso do mercado tem assentado muito também no esforço que os operadores têm feito e, nesse aspecto, temos trabalhado em conjunto com todos eles. O sucesso num mercado desta natureza exige um esforço conjunto a que se juntam os distribuidores e retalhistas, e isso tem corrido especialmente bem.