Alain Yvon: “Gerir uma frota em renting permite mais flexibilidade em tempos de crise”
Entrevistas
18/11/11, 08:58 OJE
Com o mercado automóvel em contracção, o renting tem vindo a assumir-se como solução mais eficiente em tempos de crise por permitir, a todo o instante, uma adaptação dos contratos às reais necessidades dos clientes, assegura Alain Yvon. O administrador-delegado da Arval em Portugal não esconde que as rendas do aluguer operacional tendem a subir, mas garante que é possível ajudar os clientes a baixar o custo total com as frotas.
O mercado de renting apresenta uma quebra ligeira, de 5%, quando o mercado automóvel cai mais. Que factores têm influenciado este cenário?
Neste mercado, temos de distinguir o segmento de viaturas de empresas e o mercado de veículos para particulares, sendo que o que está mais prejudicado é o mercado de viaturas novas para particulares. O mercado das viaturas para empresas tem uma resistência maior, porque a necessidade de viaturas novas é mais forte neste segmento e porque o renting constitui, em si mesmo, uma ferramenta mais eficaz em tempos difíceis, pelo que a proporção de viaturas alugadas em renting está a aumentar dentro das empresas. Há dois aspectos que temos a considerar. Em primeiro lugar, um aspecto meramente contabilístico financeiro, porque o renting não pesa no balanço de uma empresa, o que faz alguma diferença. Outro aspecto é o modo de funcionamento das empresas, que estão a concentrar mais os seus recursos na sua própria actividade e a confiar numa gestora externa para optimizar os custos da sua frota. Mas converter o custo de um veículo numa renda é algo que já era conseguido com o leasing.
Com o renting acedem a um serviço adicional. Hoje, as empresas tendem a valorizar mais o outsourcing desse serviço?
Sim, embora já o valorizassem antes da crise. Mas agora apercebem-se mais facilmente de uma questão relevante: quando se obtém um financiamento tradicional, o serviço é contratado em determinados moldes e não há forma de modificá-lo. Ao optar-se pelo renting, a história desse serviço não está completamente escrita. Há formas de alterar os custos, prolongar contratos, ajustar serviços, trabalhar na redução de sinistralidade. A margem de manobra é maior.
Reduzir o custo mensal é o principal objectivo das empresas neste momento. Isso passa por que tipo de medidas?
Passa, por exemplo, pelo prolongamento dos contratos e pela gestão mais eficiente da frota, seja no que diz respeito às viaturas ou aos condutores, porque o comportamento destes tem muita influência no consumo da frota. E as empresas têm de definir e publicar uma política de frotas para a sua empresa, definindo as regras de utilização das viaturas. Pode também fazer-se uma boa gestão de cartões de combustível, com um serviço de reporting sobre o consumo para identificar as viaturas ou os condutores que consomem mais combustível, tomar as medidas adequadas e negociar com as petrolíferas para alterar as condições tarifárias para o cliente.
O valor das rendas está a aumentar?
Sim. Um dos factores mais importantes para calcular a renda está relacionado com o valor que se espera conseguir dentro de dois, três ou quatro anos, quando a viatura for vendida no mercado de usados. Este mercado de usados caiu muito significativamente; logo, se o valor futuro da viatura é muito mais baixo, então o valor da renda é muito mais alto. É uma lógica simples. Este não é um fenómeno específico do renting. Acontece também no leasing. Hoje, as rendas financeiras das viaturas estão mais caras do que há um ano e, no próximo ano, estarão ainda mais caras.
Como é que as gestoras de frotas conseguem aumentar os valores das rendas sem correr o risco de sacrificar boa parte da sua carteira de clientes?
Naturalmente é aí que está a maior dificuldade, porque a renda tem de aumentar, mas nós temos de ajudar o cliente a conseguir baixar o seu custo. Parece paradoxal, mas não é, porque a renda apenas representa 45% do custo total com a viatura e, nesse custo, estão também incluídos o combustível, os sinistros e os impostos. Logo, a nossa missão é ajudar o cliente a baixar o custo total, sabendo que a componente de renda terá de ser mais elevada.
Na carga fiscal não haverá muito a fazer, logo a vossa intervenção passará sobretudo pela redução de custos nos combustíveis e nos seguros?
Sim, passa muitas vezes por negociações nessas vertentes ou também, em alguns casos, pelo "downsizing" da frota, já que muitas empresas têm, infelizmente, de reduzir a sua actividade e diminuir o número de colaboradores e de viaturas. E, em algumas empresas, opta-se também pelo "downgrade" da frota, baixando a gama das viaturas alugadas.
Estes fenómenos intensificaram-se ao longo de 2011? Em 2009, sentiu-se. Em 2010 foi menos expressivo e, em 2011, voltou.
A decisão de prolongar contratos começou a ser tomada por algumas empresas nos últimos anos, mas a renovação da frota não pode ser adiada eternamente. Qual é a posição tomada hoje pelas empresas que, há um ano ou dois, decidiram prolongar os seus contratos de aluguer?
As empresas não têm como único objectivo reduzir os custos. A primeira necessidade para uma empresa é ter uma solução de mobilidade para os colaboradores.
Se chegam a um ponto em que se antecipa que a viatura vai ter problemas mecânicos ou que não tem o nível de conforto que a empresa quer para os seus colaboradores, já não faz sentido prolongar o contrato.
Qual é actualmente o tempo médio dos contratos?
Na Arval, é de três anos e meio.
Acredita que o tempo médio dos contratos vai subir?
Não muito mais, porque há limites. Se os comerciais de uma empresa fazem 40 000 km/ano, a empresa pode fazer contratos de três anos em vez de contratos de dois anos, mas não pode fazer contratos de cinco anos.
O renting tem penetrado com mais facilidade junto de empresas de grande dimensão. Apesar de as pequenas e médias empresas (PME) já estarem hoje mais sensibilizadas para o renting, o que ainda vai dificultando a maior penetração do renting nas PME?
Acredito que é simplesmente por uma questão de conhecimento destas empresas. Uma empresa muito grande certamente já foi cortejada pelas gestoras. Mas estas começam a abordar cada vez mais empresas de menor dimensão.
Tem faltado agressividade comercial por parte das gestoras junto das PME?
Sim, também. Mas as empresas não escolhem o renting como regime de financiamento automóvel apenas por uma questão de preço. A primeira motivação é a necessidade de serviço, de libertar a sua equipa para outras tarefas. Depois vem a questão do preço, obviamente. Mas essa não é a motivação inicial.
É um fenómeno que se repete noutros mercados?
Esta é a evolução típica em todos os países. Entra com maior facilidade nas empresas maiores e, gradualmente, vai chegando às PME. Mas há cada vez mais PME a solicitar este tipo de produtos. E estou convencido de que, no futuro, haverá mais, até porque as gestoras de frotas estão a apostar mais neste segmento.
A Arval tem vindo a intensificar o seu papel de consultoria no apoio que pode dar ao seu cliente para mapear a eficiência das frotas das empresas?
Sim. Esse é praticamente o ADN da Arval. Estamos numa actividade muito especial e as empresas precisam de um aconselhamento muito específico, sobre como gerir a relação com os seus colaboradores, como utilizar as viaturas, quando renovar as viaturas. Esta é uma das áreas a que a Arval está a dedicar muita atenção junto dos seus clientes.
Onde têm encontrado mais fragilidades?
Há muitas realidades diferentes, mas, geralmente, as empresas não têm tanta noção do impacto que a sinistralidade e os combustíveis podem ter nas suas despesas. E são áreas onde o impacto no custo é muito rápido. E a reacção pode passar, por exemplo, por uma mensagem aos seus colaboradores, apelando a maior prudência durante a condução. Porque a forma de conduzir tem um impacto muito grande sobre o consumo de combustível. E, à questão económica, junta-se também a questão ambiental. Tanto a prevenção da sinistralidade como a redução do consumo de combustíveis integram políticas de responsabilidade social das empresas.
Com que expectativas entra em 2012?
O mercado vai continuar difícil. Dentro do sector automóvel, o renting está a resistir muito bem neste contexto.
Para 2012, prevemos a mesma tendência. A haver quebra no renting, será certamente inferior à do mercado. Na melhor das hipóteses, a evolução será estável. Dentro deste contexto, não estou tão pessimista em relação à Arval. Até posso dizer que estou optimista, pois temos conseguido registar uma performance acima do mercado, mantendo-nos em linha com a performance de 2010. Acredito até que, em 2012, poderemos voltar a estar acima do mercado, inclusive com um pequeno crescimento face a este ano.
E qual é o segredo para conseguir crescimento em 2012?
Não há segredos. Apenas temos de fazer o nosso trabalho bem feito, prestar um bom serviço de aconselhamento aos clientes. Prestar serviço de qualidade, correspondendo às expectativas dos clientes que nos pagam. E assim se faz negócio.
"O veículo eléctrico é uma inovação importante"Ainda é cedo para avaliar o impacto da introdução do veículo eléctrico no mercado empresarial português, diz Alain Yvon, para quem não há dúvida de que a adopção de veículos mais amigos do ambiente será uma realidade cada vez mais presente nas frotas portuguesas. No entanto, apesar de ter encontrado empresários sensíveis à questão, reconhece que, das palavras aos actos, ainda vai uma longa distância.Como está a evoluir a predisposição dos empresários portugueses, enquanto clientes das gestoras de frotas, para integrar veículos mais amigos do ambiente nas suas frotas? Vemos que esta é uma preocupação importante para os nossos clientes. Colocam algumas questões, falam no assunto, mas nada mais do que isso. Não vemos muita concretização dessa preocupação. Estamos numa fase de transição. É claro que temos vindo a analisar as soluções que existem, mas ainda não estamos a ter grande actuação nesta área.Políticas fiscais mais favoráveis a veículos amigos do ambiente poderiam ser cruciais para desenvolver este mercado? Podem ser importantes, mas não é suficiente. Pode ser uma questão de tempo. Pode ser uma questão de custo. Pode ser uma questão de convicção. O contexto económico difícil pode atrasar a adopção deste tipo de veículos? Sim, é uma possibilidade.
Como avalia a entrada do veículo eléctrico neste mercado? O veículo eléctrico é já uma realidade e representa um avanço tecnológico, uma inovação importante. Também inovadora tem sido a introdução da telemática, com dispositivos que permitem controlar melhor o que está a acontecer na viatura, em termos de consumo, emissões de CO2 ou nível de potência na condução. Há uma procura crescente destas informações. Não podemos considerar os veículos eléctricos completamente fora de uma série de inovações e tecnologias que vão numa mesma direcção.O veículo eléctrico vai ter um grande impacto nas frotas? Ainda é cedo para avaliar.E como avalia a predisposição dos empresários para receber esta inovação? Vejo uma procura ainda reduzida. Há vontade, mas há uma grande distância entre a vontade e a acção.
"Há muita segurança nas estradas portuguesas"Alain Yvon, 37 anos, está em Portugal desde o ano passado, depois de ter passado pelos mercados francês, espanhol e marroquino. Quando chegou a Portugal, estava longe de imaginar a grave crise económica e financeira que o país teria de enfrentar e o difícil contexto que envolve o sector automóvel. "Ninguém podia imaginar que Portugal ia estar assim, mas não há dúvida de que são tempos desafiantes. Porque há sempre desafios. Agora o momento é difícil por razões económicas e sociais, mas, em outros momentos, é igualmente difícil pela concorrência mais agressiva que este mercado desperta", assume o administrador-delegado da Arval. Garante que não tem sentido qualquer preconceito em relação a Portugal quando lida com a casa-mãe e assegura que, dentro do grupo, há uma preocupação constante em perceber quais as dificuldades de cada mercado em que a empresa está presente, identificando as medidas a tomar para melhor responder às necessidades desses mercados. A Arval conta actualmente com 22 subsidiárias espalhadas pelo mundo, garantindo uma oferta integrada à escala global, "o que pode ser muito útil para os nossos clientes que estejam a implementar estratégias de internacionalização", sublinha. Olhando para as experiências vividas noutros mercados, Alain Yvon encontra diferenças marcantes, mas lembra que, "no final, estamos sempre a falar da mesma coisa: de empresas que precisam de ter uma frota para os seus colaboradores, que têm uma exigência para o nível de serviço que contratam e uma exigência sobre o controlo de custos desta frota. E isto é exactamente o mesmo em todos os países". Quanto ao mercado português, e depois de reflectir um pouco sobre o assunto, Yvon conclui que não encontrou, afinal, grandes surpresas. "Há, de facto, algumas diferenças em relação a outros países onde estive, mas estive sempre em países cultural e geograficamente próximos de Portugal, pelo que, de certa forma, já estava preparado para trabalhar neste contexto. Noto, no entanto, em Portugal, um dinamismo e uma vontade de desenvolver negócio que é muito importante. Sobretudo nesta situação complicada que o país vive. Mas vejo dinamismo nas empresas, e isso é muito importante", revela, antes de deixar alguns elogios ao país que agora o acolhe, falando em português correcto, apenas denunciado pelo sotaque francês. "O país é encantador, a comida é muito boa e gosto mesmo muito de trabalhar aqui. Diziam-me que os portugueses conduziam mal, mas eu até acho que há mais segurança nas estradas portuguesas do que nas espanholas, marroquinas e francesas".