Marianne Myles chegou a Cabo Verde como embaixadora em Agosto de 2008 e está fascinada com o que tem visto, dando disso mesmo conta a Washington. Natural de Buffalo, no Estado de Nova Iorque, a diplomata norte-americana vê um país pequeno a dar cartas ao mundo.
Para Marianne Myles, o prémio maior passa por Cabo Verde, na qualidade de país de rendimento médio, ter sido o único seleccionado para um vasto pacote financeiro do organismo norte-americano que dá assistência internacional pública, o MCC. Diz que o país tem credibilidade internacional e que merece ser mais conhecido mundialmente. Tem estabilidade política e a democracia funciona, sendo essas razões mais do que suficientes para uma maior atracção do investimento, que necessita de ser diversificado. Mas, para isso, defende que o arquipélago tem um grande desafio pela frente: uma campanha internacional que informe os investidores das muitas vantagens do país.
Comecemos pelo MCA (Millennium Challenge Account). Cabo Verde foi seleccionado para um segundo compacto. O que isso significa isso?
Em relação ao MCA, acho que a selecção de Cabo Verde é um momento muito especial para os dois países. Os dois governos têm laços muito estreitos. Há séculos que existe uma relação muito boa de amizade e baseada em laços familiares. Esta novidade do segundo compacto do MCC é um outro elemento da relação que reconhece os progressos, o trabalho que Cabo Verde tem feito até agora no primeiro compacto (no valor de 74,3 milhões de euros), mas também, em termos gerais, o progresso que Cabo Verde tem feito na área económica.
Acho que os elementos mais importantes na decisão do MCC (Millennium Challenge Corporation, o organismo de assistência pública internacional do governo dos EUA que lidera o MCA em Cabo Verde) foram a boa governação, o alto grau de transparência, o nível baixo de corrupção e também o interesse, a protecção e o respeito pelo povo. Estes ingredientes dão a Cabo Verde uma credibilidade que é um dos bens mais importantes do país. Esses factores são uma parte muito importante na decisão do Conselho de Administração do MCC, porque a ideia e o conceito da lei que criou o MCC é gerar inovação nas parcerias, nas quais os países que recebem o compacto fazem o programa de desenvolvimento de forma credível e com resultados concretos. Isso aconteceu com Cabo Verde no primeiro compacto. Agora que Cabo Verde foi seleccionado para o segundo, esperamos que as coisas continuem assim.
Qual o valor do segundo compacto?
O primeiro, de 110 milhões de dólares, era destinado, sobretudo, às infra-estruturas, nomeadamente o Porto da Praia, construção de pontes, estradas, etc. Basicamente, infra-estruturas e elementos no sector de agricultura e microfinanças. Imagino que o segundo compacto também terá um grande impacto nas infra-estruturas, mas também abordará a formação.
O compacto inteiro será elaborado numa série de encontros entre os dois governos que começarão em Janeiro. Só depois vamos ver o valor do compacto, da disponibilidade dos fundos. A selecção de Cabo Verde como elegível para um segundo compacto não é uma garantia de fundos de grande dimensão. Temos de ver, durante o processo de negociação do segundo compacto, quais serão os elementos e qual o custo e a necessidade de fundos. Neste momento, não posso dizer qual será o valor.
Como é que os EUA vêem a política em Cabo Verde?
Um elemento importante em Cabo Verde é a estabilidade política. Trata-se de uma democracia que é multipartidária há muitos anos e tem eleições transparentes e livres, sem os problemas de corrupção que lamentavelmente existem noutros países.
Então, os EUA, em geral, e o MCC, em particular, tomam em consideração a estabilidade como um ingrediente muito importante e que é muito visível. Isso cria uma situação tal que leva Cabo Verde a receber o apoio não só político de outros países, mas também económico, porque os investimentos, sejam de privados, de parceiros governamentais ou de organismos internacionais, dependem da confiança e de um grau muito baixo de risco, e só com estabilidade política podemos, todos nós, ter esta confiança. A estabilidade política do país é o maior bem que o país tem.
Essa estabilidade pode ser afectada pelas próximas eleições (legislativas e presidenciais) no início de 2011? Há sempre a hipótese de mudança de governo. A postura dos EUA manter-se-á igual se o governo mudar de mãos?
Sim. Não tenho qualquer dúvida. Os EUA têm confiança em que as eleições serão justas, livres, transparentes e sem problemas de corrupção ou fraude.
Como tal, ganhe quem ganhar, o mais importante é que o processo reflicta os desejos do povo de Cabo Verde. Uma eleição justa, livre e transparente, que resulte num governo representativo da vontade popular é o mais importante para Cabo Verde, e também para os EUA.
Não estamos a pensar nos possíveis resultados. Não é um problema, não é uma preocupação da parte dos EUA sobre quem será o novo primeiro-ministro, ou quem será o novo presidente da República, qual o partido que ganhará. Não é a nossa preocupação, pois temos a confiança em que, quem vencer, será o legítimo representante do povo.
Já falou das perspectivas económicas no âmbito do MCA. Como vê os indicadores económicos cabo-verdianos?
Para o MCC, há três categorias de indicadores, num total de 17 factores. Para ficar elegível, para ser considerado para um compacto, um país tem de estar na «zona verde» na maioria dos indicadores. E há uma situação muito interessante, que é muito boa para Cabo Verde: quando se graduou a País de Rendimento Médio (PRM), Cabo Verde tinha de alcançar e cumprir com indicadores mais exigentes. E fê-lo. Conseguiu chegar à «zona verde» na maioria dos indicadores, até durante o período em que estava a executar o primeiro compacto. Estava a fazer uma boa gestão, um bom trabalho no primeiro compacto e, ao mesmo tempo, estava a progredir nos vários desafios e a fazer um progresso muito impressionante, ao ponto de cumprir com os novos indicadores mais exigentes. Isso abriu o caminho a Cabo Verde para ser considerado para um segundo compacto.
Temos de lembrar também que, na decisão de escolher para o MCC, Cabo Verde é o primeiro país em muitas coisas. É, aliás, o único país seleccionado. É o primeiro que vai completar um primeiro compacto normalmente. Foi o terceiro país seleccionado para o compacto, mas o primeiro a cumpri-lo normalmente. É o primeiro que se graduou a PRM a cumprir os indicadores mais rigorosos. Agora, é o primeiro a ser seleccionado para um segundo compacto. Tudo isto cria, para Cabo Verde, uma situação e categoria únicas, o que é muito bom e que merece um reconhecimento mundial.
Porquê esse reconhecimento mundial?
Por o modelo que está a criar poder servir para outros países. É possível ser um país pequeno, com poucos recursos, com pouca água e com poucas chuvas, e chegar a um ponto no desenvolvimento económico que ajuda o povo do país de forma espectacular.
Acho que Cabo Verde está a mostrar ao mundo que não há nada que um país pequeno não possa fazer.
É exemplo disso a vinda de Hillary Clinton a Cabo Verde (em Agosto deste ano)? A secretária de Estado norte-americana chegou mesmo a dizer, entre outras coisas positivas, que "Cabo Verde é um exemplo para o mundo"?
Hillary Clinton ficou muito impressionada quando visitou Cabo Verde em Agosto deste ano. Esteve aqui pouco tempo, mas já sabia muitos elementos sobre o país. Ficou muito impressionada com a boa governação e boa gestão do primeiro compacto.
É importante lembrar que foi Hillary Clinton que presidiu à reunião que levou à histórica selecção de Cabo Verde para o segundo compacto do MCC. Teve um encontro muito bom com o primeiro-ministro de Cabo Verde (José Maria Neves), no qual, além dos aspectos económicos, se falou da relação bilateral e também de assuntos como a cooperação militar para diminuir as ameaças de narcotráfico, da pesca ilegal, da emigração ilegal e do tráfico de pessoas. No entanto estas são ameaças para todos os países, não só para a Cabo Verde, mas também para toda a região oeste africana, para África, para Europa e para os EUA. Estamos num mundo globalizado e os problemas são comuns a todos. Temos de enfrentá-los de forma conjunta para diminuir esses flagelos.
Hillary Clinton também falou sobre uma preocupação que tem em relação a Cabo Verde que é a da violência doméstica, assunto que tem sido uma preocupação própria embaixada dos EUA aqui. Foi um assunto que Hillary Clinton discutiu com o primeiro-ministro e em relação ao qual ele reconheceu que este problema existe no país e que o governo também está disposto a tudo fazer para o combater.
E as relações comerciais? Cabo Verde não tem aproveitado as possibilidades da AGOA (African Growth and Opportunity Act, na sigla inglesa) ...
O AGOA é um elemento muito importante. Em qualquer conversa sobre relações comerciais, têm de se considerar as possibilidades e as potencialidades que representam a AGOA. A AGOA cria a possibilidade, a oportunidade, para Cabo Verde exportar vários tipos de produtos isentos de taxas aduaneiras para os EUA e aumentar o intercâmbio comercial. Até agora, Cabo Verde não desfrutou muito desta oportunidade. A economia de Cabo Verde está baseada nos serviços, não na produção industrial contínua. Um dos benefícios da AGOA é o de um país, quando começa a exportar, ter a possibilidade de aumentar as exportações. Em Cabo Verde isso é muito difícil, porque não existem instalações produtivas que criem um aumento da produção no futuro.
Como é que isso se pode ultrapassar?
Cabo Verde tem esse elemento importante da credibilidade e estabilidade, ingredientes que atraem os investidores privados. Um investidor privado quer saber que o investimento que faz hoje poderá ser produzido por muito tempo e que tem pouco risco de o perder o seu investimento. E isso depende das circunstâncias locais. Cabo Verde tem-nas muito favoráveis e tem a possibilidade de receber investimentos. Até agora, a maior parte delas está no sector turístico, com a construção de hotéis. Mas tem a possibilidade de atrair investimentos nos sectores produtivos. Então, seria bom a elaboração de uma campanha mostrando as vantagens de Cabo Verde. Um dos problemas que Cabo Verde tem de enfrentar é o facto de não ser bem conhecido no mundo. Não é bem conhecido como uma possibilidade de investimento, como um destino turístico. No meu entender, o desafio de Cabo Verde é criar uma campanha global para que outros países conheçam as vantagens, que são muitas, para que um investidor não escolha um país que não conhece, sem saber da estabilidade e da credibilidade. O maior desafio para Cabo Verde é fazer uma campanha que informe os investidores sobre as vantagens do país.