Em Cabo Verde, o mercado dos vinhos portugueses de alta qualidade é quase virgem. Ela, Vânia Guibarra José, enóloga de 25 anos, natural de Lisboa, largou tudo na Herdade do Rocim, perto de Cuba (Alentejo), para abrir uma loja na Cidade da Praia. Com ele, Jason Palma, a história é diferente. O toureiro profissional e cavaleiro tauromáquico, nascido há 27 anos em Londres, largou tudo depois de conhecer Vânia, que lhe apresentou o projecto.
O que faziam em Portugal?
Vânia Guibarra José (VGJ): Em Portugal, estava nesta última fase, antes de vir para Cabo Verde, como enóloga residente na Herdade do Rocim, uma propriedade que tem cerca de dois anos, junto a Cuba, no distrito de Beja. Comecei como estagiária, depois passei a analisar os vinhos. Depois, fizeram-me o convite para enóloga residente, que foi o que fiz até ter saído. Depois ainda dei início ao projecto da Guibarra Wines.
Jason Palma (JP): Era cavaleiro de alternativa, profissional desde 2006. Trabalhava muito em todo o país e sobretudo em Espanha, onde toureava mais do que em Portugal.
A alternativa foi feita pelo cavaleiro Joaquim Bastinhas...
JP: Sou afilhado do Joaquim Bastinhas, meu padrinho, de quem gosto muito.
Tinha uma criação de cavalos...
JP: Sim. Quem está nesta vida dos cavalos acaba por ter as duas coisas. O gosto é pelos cavalos. Depois pelos cavalos e pelos touros, mas tentamos sempre criar cavalos para termos, um dia, o nosso a tourear. É sempre bom ter os nossos cavalos, ensinados por nós desde o princípio, desde que nasceram até ao dia em que entram em público. Todos os toureiros pensam assim.
O que lhe passou pela cabeça para vender tudo e vir para Cabo Verde?
JP: Vendi tudo, mas não vendi tudo para vir para Cabo Verde. Ainda tinha cavalos quando cheguei a Cabo Verde. Mas depois pensei, conversei com a Vânia, e, como os cavalos estavam parados, são atletas e não era justo estar lá com cavalos e eu aqui a trabalhar, numa conversa que tive com colegas meus, achei que era melhor vendê-los. Podia, se fosse possível, fazer as temporadas lá e estar cá durante o Inverno. Da última vez que fui a Portugal (Óbidos), acabei por vender o meu último cavalo, o Fadista, um cavalo de toureio, de "ferro" Vera Cruz.
Vânia Guibarra, quando se deu o "clic" para deixar tudo e vir para Cabo Verde?
VGJ: Cabo Verde é uma passagem. Fazia o que gostava. Arregaçar as mangas e estar no meio do vinho é, sem dúvida, o que gosto de fazer. Mas quando percebi que havia esta oportunidade, senti que era o momento. Viemos cheios de garra, cheios de força, motivados para trabalhar, para conseguir chegar a todo o público cabo-verdiano.
E como caracteriza o consumidor cabo-verdiano?
VGJ: Ainda é um tipo de consumidor que tem de ser ensinado. Não basta beber vinho. Consegue-se apreciar bom vinho. O vinho tem muitas coisas que podemos apreciar e que as pessoas, pela falta de conhecimento, penso eu, não aproveitam. Até podem beber um bom vinho, mas bebem por beber, não pelo prazer, não pelas sensações que nos pode transmitir, pelos sabores, pelos aromas. Senti que, de alguma forma, podia ajudar a minha pequena contribuição no mundo dos vinhos, que é o meu mundo.
Houve alguma razão de cansaço de Portugal, de ir à aventura, conhecer outros locais?
VGJ: Passa também por aí. Tinha muita curiosidade em saber como seria viver noutro sítio, se conseguiria fazer amigos como em Portugal, se conseguiria avançar com um projecto, se teríamos força para o projecto nascer, crescer e ter um percurso normal. Senti que estavam reunidas as condições e, sobretudo, tinha o apoio do Jason.
JP: O "clic" foi o projecto, mas quem o provocou foi a Vânia. Provavelmente, não estaria sozinho em Cabo Verde. Monto a cavalo há 24 anos e nunca fiz mais nada se não o negócio dos cavalos. Para mim, os cavalos eram tudo. Conheci a Vânia, comecei a conhecer o meio, a relacionar-me com os vinhos, com as adegas e começou a despertar em mim a atenção. Quando apareceu este projecto, decidi que era esse o caminho a seguir. A minha profissão é não é fácil, não temos emprego todos os dias, e temos, provavelmente, de ter negócios com os cavalos, centros hípicos, outras coisas para conseguirmos viver. O espectáculo dá dinheiro, mas não todo o ano. Serei toureiro e cavaleiro toda a vida. Isso ninguém me tira. Mas como o nosso projecto está a dar certo, a vida é agora esta.
Qual foi o investimento inicial que fizeram aqui?
VGJ: Foi relativamente grande. Somos dois jovens, não trabalhamos assim há tantos anos para termos um pé de meia. Chegámos aqui e tivemos de fazer obras na loja e a parte dos vinhos é responsável pelo grande investimento. As taxas aduaneiras são elevadas e isso requer uma grande estrutura por trás. Até porque hoje pode vender-se muito e amanhã nem uma única garrafa. Mas já começámos a ter algum retorno, pois abrimos a loja em Maio de 2009.
JP: Anda à volta dos 50 mil euros.
E o volume de negócios até ao fim de 2009?
VGJ: Vendeu-se muito em Dezembro. Mas estamos a importar cada vez mais, cada vez mais marcas e cada vez temos mais clientes. Restauração, supermercados, etc. Cerca de 20 mil euros. Esperamos entrar no "verde" já no próximo ano. Aponto para Maio de 2011. Aí estaremos bem. Se continuarmos motivados e as coisas correrem bem, claro.
Falou nas taxas alfandegárias. O que poderia ser feito para melhorar?
VGJ: Eu tento perceber o porquê dessas taxas. Mas penso também que deve haver flexibilidade, porque Cabo Verde só tem a ganhar com isso. Vamos para um novo mercado, criamos empregos. O governo tem de tomar medidas a este respeito, porque há muitas oportunidades. Eu vejo que há muitas oportunidades e elas escapam-se por causa das elevadas taxas.
JP: Seria bastante útil baixaras taxas. As actuais não são atractivas e são fora do normal. Se as baixassem, mandávamos três contentores e não um. Não alicia muito os investidores.
Qual o mercado que já abastecem?
JP: Na ilha de Santiago abastecemos quase todos os hotéis e restaurantes. Ainda está um pouco por explorar, mas penso que chegaremos a toda a ilha de Santiago até ao fim do ano. Já vendemos para ilhas como o Sal e para a Boavista, mas são eles que vêm à nossa loja.
No futuro, gostaríamos de ter uma distribuição em todas as ilhas.
Até onde vai este projecto?
VGJ: Até onde houver empenho e ideias. Ideias há muitas e empenho também. Temos novos projectos no âmbito da Guibarra Wines. Mas tudo a seu tempo.
Como se pode definir o cliente em Cabo Verde?
JP: Ao fim de semana o tipo de cliente é diferente do do dia de semana. Ao fim-de-semana vendem-se os vinhos de maior qualidade. Nos dias de semana, vendemos todo o resto.
VGJ: De uma maneira geral, o consumidor cabo-verdiano ainda não tem muito o espírito de beber vinhos diferentes. Bebem o que está na moda, que são três ou quatro marcas, mas felizmente vai havendo um pequeno número de consumidores que já aceita uma sugestão.
Ajudam a apurar o gosto pelo vinho?
VGJ: Penso que sim. Um dos objectivos é esse mesmo. Tento ensinar e trocar ideias com as pessoas e a ajudar a ter uma boa carta. Isso motiva as pessoas a ir a um restaurante. Tenho esperança de que, a longo prazo, as coisas mudem. Aliás, já há algumas.
Quem são os vossos principais concorrentes? A cerveja, o "grog"?
VGJ: Acho que é a cerveja. Sobretudo por o vinho ser mais caro.
Por ser mais caro, o vinho é "elitista" em Cabo Verde?
VGJ: Sim, sem dúvida.
E os vinhos cabo-verdianos? O Fogo é uma ilha vinícola. Como enóloga, como sente os vinhos branco e tinto do Fogo?
Antes de mais, acho que é de elogiar, parabenizar, os responsáveis pela iniciativa. O clima do Fogo e as condições do solo são minimamente favoráveis. Tanto que são que se fazem bons vinhos.
Pessoalmente, gosto mais dos brancos do que dos tintos. O tinto tem de ser um pouco mais polido, está um pouco agressivo para o palato. Mas tem um bom branco, o que é um paradoxo, porque é mais difícil fazer um bom branco do que um bom tinto. No tinto consegue esconder-se muita coisa nos sabores. Mas têm de inovar mais, e é isso que estão a fazer, como no moscatel, aguardentes, etc. Tem tudo para dar certo.