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"Há um potencial enorme nas energias renováveis"
Entrevistas
04/02/10, 12:55
Por José Sousa Dias/Lusa

Em Cabo Verde o vento e o sol são "fantásticos" para aproveitamente energético, havendo ainda um grande potencial na geotermia. Palavras do responsável pela empresa que está a desenvolver, para o Governo, um plano energético renovável para o arquipélago. Cabo Verde tem tudo para ser, um dia, 100 por cento renovável.


As energias renováveis estão na ordem do dia em todo o mundo, mas, em Cabo Verde, centram os investimentos. A linha de crédito de 100 milhões de euros disponibilizada por Portugal teve já resposta da Martifer, que adjudicou contratos no valor de 30 milhões. Miguel Barreto, administrador delegado da GeSto Energia, participada da Martifer, defende que Cabo Verde tem um potencial "enorme" no sector. O vento, o sol e a geotermia, diz, são "fantásticos". Para já, estão os estudos de uma série de projectos. Para já, também, a construção de dois parques solares fotovoltaicos tipo "chave na mão", com uma capacidade instalada de 7,5 megawatts (nas ilhas de Santiago e Sal). Para o antigo director geral da Energia português (entre 2004 e 2008), natural de Lisboa, 34 anos, licenciado em Gestão na Universidade Católica de Lisboa e com um "MBA" pela Kellogg University, de Chicago (EUA), o único limite de Cabo Verde é a sua pequena dimensão. Mas acredita, embora não para já, que o arquipélago poderá, um dia, ser 100% renovável.


O que a GeSto Energia, em colaboração com a Martifer, está a fazer em Cabo Verde?
A GeSto Energia, participada da Martifer, foi recentemente adjudicatária de um projecto de assessoria ao Governo de Cabo Verde, para, no âmbito de uma linha de crédito de energias renováveis do governo português, criar e desenvolver um plano energético renovável para Cabo Verde.


E quais são esses projectos?
O projecto tem vários objectivos e os estudos deverão estar concluídos até ao final deste ano. Por um lado, desenvolver um plano de desenvolvimento de energias renováveis no arquipélago até 2020, um plano de investimentos em redes para suportar esse plano desenvolvimento de energias renováveis e um atlas de energias renováveis, nas várias vertentes, solar e geotérmica. Vamos também fazer um estudo profundo de prospecção geotérmica nas ilhas do Fogo, Santo Antão e São Vicente com uma campanha de geofísica alargada. Vamos estudar em detalhe um projecto, potencial projecto, de bombagem pura que permita elevar a energia eólica a novas dimensões no arquipélago, quer em Santiago, quer no eixo São Vicente/Santo Antão.
Vamos depois licenciar e acompanhar a construção de duas centrais fotovoltaicas, uma no Sal e outra em Santiago, que serão, quando forem construídas, as duas maiores centrais fotovoltaicas do continente africano. Vamos, finalmente, apoiar alguns pequenos projectos-piloto que têm a ver com a electrificação rural, com iluminação solar, nalgumas zonas, com expressão também em mais ilhas, e apoiar também o governo cabo-verdiano no lançamento de uma legislação ligada à microgeração...


... projectos abrangentes, então?
Sim. Trata-se de um projecto abrangente, que envolve todas estas vertentes, que pretende criar um caminho, uma visão de futuro, viável e concreto, mas de muito maior intensidade de energias renováveis.


É um projecto também ambicioso...
É um projecto claramente ambicioso, mas que vai procurar identificar projectos concretos, reais e visíveis muito relevantes, como as centrais fotovoltaicas.
Até que ponto pode substituir, a longo prazo, o petróleo?
Isso veremos. As várias fontes de energias renováveis todas têm as suas limitações. Estamos num contexto de ilhas em que todo o equilíbrio do sistema é fundamental. Por isso, vai haver estudos detalhados de redes, de forma a tentar levar as energias renováveis ao máximo possível, que seja economicamente viável e interessante para o arquipélago e tecnicamente fazíveis, sem colocar em causa a segurança e a regularidade dos abastecimentos.


Há a intenção do governo cabo-verdiano de, até 2020, conseguir que o abastecimento do arquipélago seja assegurado em 50% pela produção de energia renovável. Isso é exequível?
As metas são as que sairão do estudo. Por ventura, sim. Mas não vale a pena precipitarmo-nos. Não vale a pena estarmos a dizer quais serão as metas. É muito cedo para podermos dizer se sim ou se não. A curto e médio prazos, com os projectos eólicos e solares que o Governo tem em curso, prevê-se chegar aos 25 por cento. A longo prazo, é isso que o nosso projecto vai analisar, para ajudar o governo cabo-  -verdiano a definir um plano fazível, real e concreto para as energias renováveis, com a intenção de levar as energias renováveis a uma maior intensidade.


Há um projecto para a ilha da Brava, a mais pequena ilha habitada do arquipélago, que prevê que toda a energia seja produzida através do renovável. Como será?
Sim, há esse projecto para tornar a ilha da Brava 100% renovável. Mas este projecto vai focar-se nas cinco maiores ilhas, onde terá maior impacto.
Numa primeira fase, vamos estudar as ilhas de Santiago, São Vicente, Santo Antão, Sal e Fogo. São as ilhas que têm 90% da população e se regista 90% do consumo.


E a Brava?
Esta é a primeira fase do projecto, que contempla essas cinco ilhas. Mas existe um outro projecto para tornar a Brava 100% renovável, mas isso será para depois. Mas iremos também ajudar o governo cabo-verdiano a lançar esse projecto.


Há uma linha de crédito de 100 milhões de euros do governo português...
Os contratos assinados recentemente são no valor de 30 milhões de euros. Os projectos que estão aprovados têm uma verba maior, que têm, essencialmente, a ver com os parques voltaicos. Nesta fase, o que foi adjudicado tem a ver com a construção de uma central de «back-up» térmica para cada uma dessas cinco ilhas e uma central fotovoltaica e estão agora a ser lançadas as partes todas de reforço das redes que vão, depois, complementar e reforçar as actuais. Nesta fase, avançamos com 2,5 megawatts. Também está prevista uma segunda fase para a central do Sal, com o crescimento do Sal, avançar-se também para 2,5 megawatts nessa ilha.


2,5 megawatts é o suficiente para o quê?
Estamos a falar de cerca de 4.000 famílias, cerca de 20.000 pessoas. Pretendemos instalar 2,5 megawatts no Sal e cinco megawatts em Santiago.


É possível diferenciar a quantidade das diferentes fontes de energia - eólica, geotérmica, etc - que vão instalar?
Sim. Vamos estudar isso. Os três maiores recursos renováveis de Cabo Verde são o vento, sol e mar. O vento tem níveis fantásticos nalgumas ilhas, superiores à Dinamarca, que é o país onde há mais eólica instalada no Mundo.
Quanto ao Sol, estamos muito perto do Equador. Há imensas horas solares, bastante superiores às do Algarve, com condições excelentes para o desenvolvimento da energia fotovoltaica. E julgamos que deverá existir um potencial geotérmico muito interessante. O estudo prevê também analisar as restantes vertentes das energias renováveis. Vamos olhar para as ondas, vamos estudar o potencial das ondas no arquipélago, que está ainda numa fase embrionária e inovadora. Vamos estudar uma coisa que vai ser muito importante, que tem a ver com uma componente hídrica.
Para poder levar a eólica mais além - hoje em dia o problema tem a ver com a intermitência do vento - vamos estudar a possibilidade de desenvolvimento de projectos hídricos ou marítimos. Isto é, à noite, quando não há consumo, quando a eólica está com força, puxar a água para cima, para um reservatório superior e, depois, durante o dia, bombear. Isso vai permitir uma gestão muito mais equilibrada nos maiores sistemas, em Santiago e São Vicente, e poderá permitir levar a eólica mais além.
Vamos caracterizar a questão do potencial hidráulico, ou hídrico, apesar de não chover muito, mas na perspectiva destes dois reservatórios.


Estão envolvidos nos projectos da construção de três barragens? Ou estão já mais à frente?
As três barragens previstas destinam-se à agricultura. O que vamos estudar é a possibilidade, e vamos ver duas alternativas: uma é a construção de dois reservatórios com um desnível elevado, que possam permitir fazer a bombagem de um para o outro, e outra, cujo reservatório ficará inferior ao nível do mar. Haverá então energia do mar. Mas são precisos estudos que, se correrem bem, vão permitir a possibilidade de construção de novas barragens nestes termos.


Cabo Verde tem potencial, então?
Cabo Verde tem um potencial enorme. O único limite é a dimensão da ilha. Mas os recursos renováveis são enormes. O vento é formidável, o sol é fantástico e, por ventura, a geotermia poderá ser também um recurso muito forte. Cabo Verde tem imensos recursos renováveis, que são muito, muito, atractivos.
Tem a limitação dos sistemas eléctricos e da dimensão das ilhas, que colocam restrições ao aproveitamento de todo este potencial. Mas vamos estudar a forma de ultrapassar todas essas limitações e potenciar as energias renováveis no arquipélago. Há um compromisso muito grande do Governo de Cabo Verde para com as energias renováveis, isso é notório com as decisões tomadas recentemente, e julgamos que estão criadas todas as condições para que Cabo Verde seja um exemplo não só a nível de África mas também no mundo.


Está a ver Cabo Verde, num futuro não muito longínquo, 100% renovável? É utópico pensar assim?
Nalgumas ilhas sim, será possível. Mas sobretudo nas maiores, onde haja potencial para investir em bombagens e num conjunto de investimentos que possam equilibrar e fazer uma melhor gestão dos sistemas. Depois, nas mais pequenas, como a Brava, também será possível, mas com uma abordagem diferente. Tudo a seu tempo.

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