PUB
Faça do OJE a sua homepage
Montepio

"Mercado de inter-conectividade em Cabo Verde é carente mas promissor"
Entrevistas
03/03/10, 10:37
Por José Sousa Dias, da Agência Lusa (Texto e Fotos)

Especialista da "elite" da Cisco Sistems, um dos maiores gigantes tecnológicos do mundo, Nivon Silva, brasileiro de 33 anos, considera que Cabo Verde tem um grande potencial na área da inter-conectividade.


Gestor da Multirede, empresa que se instalou no arquipélago em Janeiro de 2009, este engenheiro civil e de telecomunicações, natural do Recife e formado na Universidade de Pernambuco, defende, porém, que o mercado, neste sector, está muito "carente". A falta de mão-de-obra especializada é gritante, diz. Mas o mercado, insiste, é promissor pelas oportunidades que apresenta e pela vontade política em tornar Cabo Verde num "hub" tecnológico. Gigante no Brasil, a Multirede internacionalizou-se há seis anos com a chegada a Angola, onde tem a Sonangol como principal cliente. Em Cabo Verde, são as empresas da área financeira e as agência do Governo que requerem a ajuda. A transferência de tecnologia e a formação contínua são os propósitos da empresa que, segundo Nevon Silva, está a ter uma grande aceitação junto dos clientes. E, se o "hub" resultar, Cabo Verde pode tornar-se o centro do Atlântico na prestação de serviços tecnológicos, tendo em conta que o arquipélago fica a meio caminho das Américas, da Europa e da África. "Não inventámos a roda, mas já somos uma referência a nível mundial".


 


O que é a Multirede? Como nasceu?
A Multirede é uma empresa com 18 anos no mercado da tecnologia. Basicamente, fomos pioneiros no Brasil dentro do mercado de inter-conectividade, bem antes da Internet nascer. Hoje somos uma referência pelo simples facto de termos acreditado no protocolo de comunicação que se tornou hoje mundial, que é o IP, a base de comunicação por Internet entre todas as empresas do mundo. Na altura em que a empresa abriu, fomos os primeiros a implantar projectos com esse protocolo em bancos e grandes empresas brasileiras. Também na altura, havia no Brasil uma empresa que ainda era pequena, com apenas dois funcionários, chamada Cisco, que hoje se tornou o maior gigante da tecnologia do mundo. Estabelecemos uma parceria com eles, apostámos e vingou. Tornámo-nos referência na área da inter-conectividade - segurança, comunicação, sistemas, etc -, e, ao mesmo tempo, desenvolvemos áreas de negócio muito específicas, como na parte de consultadoria, desenvolvimento de projectos, venda de soluções e formação. Temos uma parceria global muito forte com a Cisco, que trouxemos para Cabo Verde, e podemos actuar não apenas na venda de soluções, mas também na implantação e formação, que é algo muito necessário e importante. Não apenas implantar tecnologia, mas transferi-la, ensiná-la às pessoas, para que a absorvam nas empresas.


Vocês são líderes do mercado no Brasil. Como nasceu a internacionalização, nomeadamente para Angola?
A ideia partiu da área estratégica de negócios da empresa, uma vez que já tinha enviado profissionais para actuar em Angola, ainda no período da guerra. Viram o país como um ambiente bastante virgem em termos de tecnologia e de empresas, com uma necessidade tecnológica muito grande, mas sem mão-de-obra. Logo após o fim da guerra, decidimos actuar em Angola. Temos hoje uma base muito sólida de clientes em Angola, como a Sonangol, que responde pelo maior PIB do país e é um cliente muito forte desde há seis anos. Mas a ideia foi da área de negócios, que já tinha conhecimento do mercado angolano e o visualizou logo depois do fim da guerra como uma grande oportunidade de negócio.


... "olho clínico", portanto...
Sim, sem dúvida que foi um "olho clínico". Foi uma aposta muito correcta. Mas, em termos físicos, a nossa presença no exterior resume-se a Angola e Cabo Verde. A partir do Brasil, Angola e Cabo Verde atendemos, não apenas esses países, como os Estados vizinhos, como o Chile, Colômbia, Moçambique, etc. A ideia é utilizarmos esses centros como ponto de partida, como plataforma, para actuarmos noutros países.


Qual foi o "olho clínico" que tiveram para apostar no mercado de Cabo Verde?
O "olho clínico" aconteceu depois de algumas actividades pontuais em Cabo Verde. Começámos a estudar o mercado, a analisar que existia uma oportunidade muito forte no mercado financeiro e, pelos contactos que tivemos com os "decision makers", chegámos à conclusão que de existe uma procura e, ao mesmo tempo, uma carência, sobretudo de mão-de-obra especializada, na área que é precisamente o nosso forte, a consultadoria.


E é por aí, pela transferência de tecnologia, que vocês pensam beneficiar Cabo Verde e a vossa própria empresa?
Sim, na transferência de tecnologia, que é uma reclamação geral de todas as empresas que são ou não nossas clientes. As empresas estrangeiras que vêm para Cabo Verde são "terceirizadas" por empresas locais, que não possuem mão-de-obra especializada. Ou seja, as empresas locais têm sempre a mesma reclamação: (as empresas estrangeiras) implantam as tecnologias e vão-se embora, deixando-os dependentes. Não existe a transferência, o processo de ensinamento. Diferentemente das empresas locais, trouxemos mão-de-obra especializada, elites dentro da cadeia de certificações dos fabricantes, como um profissional CCIE (Cisco Certified Internetwork Expert), que são profissionais raríssimos, e Cabo Verde conta já com um. Quem trabalha na área sabe que o CCIE é a elite de todas as certificações. Isso acaba por ser uma prova de que estamos a investir fortemente no mercado, onde estamos a ser bem reconhecidos pelos nossos clientes e parceiros de negócio.


E quem são eles?
Eu preferia não dizer os nomes, porque são todos da área financeira. Não sei como se sentiriam se tivessem os nomes expostos. Mas posso adiantar que os clientes que têm absorvido o nosso trabalho são da área da banca e agências do governo.


Qual é o capital social da empresa?
São muitos milhões de dólares, entre 50 e 60 milhões de dólares (entre 37 e 44,4 milhões de euros). Antes de 2009, fizemos aqui alguns trabalhos pontuais, mas estamos em Cabo Verde desde Janeiro de 2009. A facturação global da Multirede em 2009 foi de cerca de 17 milhões de euros. Já temos um volume de negócios em cabo Verde que justifica a continuidade da empresa e a aposta do investimento. Investimos muito.


Mas qual foi o volume do investimento e o retorno em 2009?
De imediato foi algo entre 200 e 300 mil euros. Temos esse investimento exclusivo para Cabo Verde. Se se fizer um balanço de 2009, foi um excelente ano, tivemos um retorno na ordem dos 300 a 400 mil euros. Isso foi muito bem recebido. A receptividade das empresas (locais) tem sido grande.


Quantos funcionários tem a Multirede em Cabo Verde?
Temos cinco pessoas. Permanentemente. Há outras que vêm e vão. A ideia da empresa é, à medida que a procura aumentar, trazer mais profissionais. Queremos usar a mesma estratégia que utilizamos em Angola, que é formar uma equipa local.


... de elite?
Para chegar à elite o caminho muito longo. A nossa abordagem é a seguinte: se conseguirmos formar uma pessoa, que já tem um conhecimento de base, e pudermos formá-la a um alto nível profissional, para nós é um investimento melhor do que trazermos um especialista de fora. A nossa filosofia em Angola, por exemplo, é ter profissionais locais e formá-los, dando-lhes o chamado "banho de loja" tipificado pela Cisco: fazê-los participar em grandes projectos, em formações locais, no Brasil ou noutro país. A nossa estratégia é, basicamente, investir em mão-de-obra local. É bom para o país de acolhimento e para nós, enquanto empresa.


Já formaram algum em Cabo Verde?
Ainda não. Estamos na fase inicial. A procura local tem sido atendida por engenheiros próprios, mas já estamos na fase de contratação de profissionais locais.


Falou nos países vizinhos. Pensam alargar o âmbito da vossa acção, por exemplo, à África Ocidental, a países como Guiné-Bissau, Gâmbia, Senegal ou outros?
Sim. Assim que houver oportunidade e o nosso próprio comercial começar a utilizar Cabo Verde como ponto de partida para esses países, sim. Inclusive, os próprios fabricantes, como a Cisco, já viram o nosso potencial na região e existe uma tendência própria dos fabricantes em nos convidarem para projectos nesses países. Isso pode fortalecer o nome de Cabo Verde na área da tecnologia.


O primeiro-ministro de Cabo Verde (José Maria Neves) já disse que pretende transformar o arquipélago em "ilhas do conhecimento". A vossa vinda para Cabo Verde enquadra-se nisso?
Sem dúvida. O nosso primeiro contacto com Cabo Verde foi através de formações. Vínhamos com os nossos engenheiros instrutores. Todos nós somos formados como engenheiros e formadores, passámos por uma bateria de testes para chegarmos a esse nível. Mas, dizia eu, o nosso primeiro contacto com Cabo Verde foi a convite de empresas locais, basicamente ligadas ao mercado financeiro. Já tivemos outras formações nas quais houve uma repercussão excepcional e uma aceitação muito boa do mercado. Hoje em dia, o cabo-verdiano não precisa de partir para os Estados Unidos, Brasil ou Portugal no momento em que tem essa necessidade, pois tem o conhecimento necessário em Cabo Verde para a área de inter-conectividade.


Em Cabo Verde, os sistemas de rede ainda são lentos. Perspectiva-se um novo cabo submarino de fibra óptica para 2011. Acha que Cabo Verde tem potencial mas ainda é "lento" na transferência de dados, por exemplo, na velocidade das redes?
Sim. Vemos Cabo Verde como um país que tem uma posição geográfica muito favorável. É um país que está entre vários continentes: América do Norte, América do Sul, Europa e África. Isso faz com que tenha um potencial para se transformar num "hub" de tecnologia e de inter-conectividade entre essas grandes regiões muito grande. O potencial é enorme.


Isso é o que diz o primeiro-ministro cabo-verdiano.
Sem dúvida. Congratulamo-nos por esse tipo de iniciativa e pensamento. A nossa presença, com o conhecimento que temos, fruto do trabalho que desenvolvemos nos grandes países em que já trabalhamos, pode ser fundamental para apoiar os "decision makers" locais na tecnologia ideal para que eles transformem esse potencial.


Voltando atrás, Cabo Verde está numa posição estratégica. Como pode o vosso trabalho "potenciar o potencial", passo a expressão, do país para mercados como o americano, europeu e africano?
Pensamos que Cabo Verde, pela sua posição geográfica, pode transformar-se num "hub" de comunicações entre essas regiões. Também pelo seu alto grau de beleza, de potencial de turismo, isso poderá transformar-se num atractivo para que as pessoas de África, Estados Unidos e de outras regiões possam interessar-se, não apenas em investir, mas utilizar Cabo Verde, que está no meio de tudo, como ponto de presença para essas comunicações.


Face a tudo o que já disse, como vê o actual panorama tecnológico de Cabo Verde?
É um panorama carente, mas bastante promissor. Carente, porque existe uma grande necessidade de mão-de-obra, e promissor no sentido de que tem muito para investir, muito para preparar o cabo-verdiano para absorver as novas tecnologias do mercado. Existe uma dependência muito forte de empresas estrangeiras e isso acaba por gerar um obscurantismo perante os grandes fabricantes. Os grandes fabricantes não conseguem ver negócios em Cabo Verde. Os negócios chegam, mas chegam em nome de empresas estrangeiras, mesmo sendo comprados por empresas locais. Já identificámos isso. Hoje estamos a trazer os fabricantes. Temos um evento, em parceria com a Cisco, previsto para Abril. Pela primeira vez, a Cisco Sistems virá a Cabo Verde para agitar o meio tecnológica, para mostrar quais são as inovações, para mostrar que hoje, se há um "link" de baixa velocidade em Cabo Verde, é porque querem, uma vez que existem outras soluções no mercado. Queremos mostrar o que é segurança e redução de custos através, por exemplo, do VOIP, que as grandes empresas das grandes nações estão a utilizar e que não representam necessariamente um alto custo de aquisição.


O cabo submarino tem, então, outras alternativas?
Sem dúvida.


Todos dizem que tudo dependerá da instalação do cabo submarino. Isso é verdade?
O cabo submarino e os satélites, outro exemplo, são simples formas de comunicação. O simples facto de eu acelerar uma transmissão não significa que eu estou a evoluir nos processos tecnológicos. Existe uma infinidade de recursos ligados à segurança, ligados a como se transmitem os dados da melhor forma, ligados à telefonia, coisas a que a grande maioria das principais empresas cabo-verdianas não está a prestar atenção. Querem velocidade mas, ao mesmo tempo, não se preocupam com a segurança do seu sistema. Não se preocupam com recursos que se podem integrar dentro dessa forma de comunicação que pode reduzir custos.


Como o VOIP?
Sim. O VOIP permite chamadas de baixíssimo custo, até mesmo gratuitas, entre Portugal, Brasil e Cabo Verde. Quando se fala em redução de custos, essa é uma excelente forma de retorno do investimento, de reduzir custos das empresas.


Acha que CV Telecom está, então, interessada em manter o actual panorama?
Provavelmente, mas pode ser também uma grande forma de melhorarem. Mas seria interessante que se entendesse que não se pretende criar concorrência, mas sim uma parceria, um índice para que as operadoras de telecomunicações possam reduzir custos. Se isso existe em todos os países do mundo, porque não em Cabo Verde?

0  Comentários
0 votos
22/12/11, 01:00

Isabel Jonet: "Propomos parcerias na luta contra a fome"

Isabel Jonet, responsável pelo Banco Alimentar Contra a Fome, afirma que é indispensável que haja uma solidariedade reforçada em 2012 e que tem de regressar-se Ver Notícia
14/12/11, 00:01

Portuguesa gere marcas planetárias na Península Ibérica

Elsa Gomes é directora geral ibérica da Copyright Promotions Licensing Group. Líder de uma equipa que coloca no mercado ibérico mais de 100 milhões de euros em Ver Notícia
07/12/11, 00:01

Nuno Gomes de Azevedo: “Portugal distingue-se de Espanha essencialmente na sua sensibilidade ao factor preço”

Distingue-se igualmente no protocolo. Os espanhóis são muito calorosos, prevalecendo a relação pessoal quase sempre sobre a formalidade na gestão dos negócios. Ver Notícia
30/11/11, 00:01

Marina Costa: “Espanha é um mercado bastante maior e mais desconcentrado que o Português”

Tem apenas 27 anos, mas já conhece o mapa da Europa como a palma das mãos, esta economista, natural de Bucelas, Gestora de produto VAIO da Sony Ibéria. O Ver Notícia
pub
NOTICIAS
  • ÚLTIMAS
  • + LIDAS
  • DESTAQUES