Olivier Thrierr: "O mercado automóvel está a morrer em Portugal"
Entrevistas
14/10/11, 01:00 Por Luís Pimenta
Olivier Thrierr, director-geral da Automóveis Citroën SA, representante da marca em Portugal, é peremptório: a fiscalidade automóvel atingiu o seu limite no nosso país. O gestor é muito claro quando afirma que "o mercado está a morrer e mais impostos terão o efeito de uma guilhotina". Retrato de um sector em queda e de como os responsáveis das marcas estão a fazer exercícios de imaginação para manter as vendas, a rede e o negócio.
Como é que a Automóveis Citroën está a enfrentar este ano de crise e esta conjuntura tão complexa? A situação em Portugal está muito complicada para todas as marcas. No caso da Citroën, temos a oportunidade criada por uma gama extraordinariamente renovada e completa, em especial com o lançamento dos modelos DS. Infelizmente, a dimensão do mercado reduziu e temos de jogar neste novo contexto.
Em que segmentos se sente a maior quebra? O mercado foi afectado em todos os segmentos e mercados. A quebra sente-se em viaturas de passageiros, comerciais, novos e, inclusivamente, nos usados.
Que ajustamentos tiveram de ser feitos a nível empresarial e de negócio para fazer face à quebra continuada ao longo do ano? Em primeiro lugar, um trabalho muito estreito de colaboração com os concessionários através de iniciativas destinadas a evitar que fiquem fragilizados pela situação de crise no mercado. Por outro lado, respondemos às necessidades de preço evidenciadas pelos clientes, com acções de promoção pontuais, o que se traduz por um aumento da nossa agressividade no mercado. Numa outra frente, estamos a lidar com a conjuntura negativa também no acesso ao crédito, que se encontra fortemente limitado no sistema bancário. Nesse sentido, construímos soluções em estreita colaboração com o nosso próprio banco, o PSA Finance, de forma a propor soluções de crédito adaptadas para que cada cliente possa aceder à compra do seu carro. Existe ainda um aspecto mais geral, que diz respeito à gestão interna da empresa. Neste domínio, operamos uma gestão de custos muito rigorosa e em todos os domínios. Aliás, a medida mais visível, e que foi partilhada por todas as marcas, diz respeito à anulação do Salão Automóvel em Lisboa. Foi uma boa decisão, mas uma má notícia... Creio que todos gostaríamos de fazer uma festa do automóvel em Portugal. No nosso caso prevíamos a estreia do novo DS5, a par dos outros DS, mas a situação do mercado não nos permitiu mobilizar este investimento.
Como é que a crise está a afectar o segmento de frotas? Depois do momento da intervenção externa na economia portuguesa, o mercado dos particulares quebrou mais que o das frotas. É claro que se sentiu o decréscimo nas empresas, mas a sua actividade prossegue, sendo no mercado dos clientes individuais que o decréscimo é mais importante. No caso da Citroën, o facto de termos uma grande tradição e uma posição de liderança nos veículos comerciais tem permitido que resistamos a este momento mais difícil. Uma das características das crises económicas consiste no acentuar da clivagem entre aquilo que é premium e o que é mainstream - e isto é válido para automóveis como para tudo o resto. A Citroën tem, neste momento duas gamas paralelas: a DS, Premium, e a C, mais mainstream.
Nesse sentido, a crise poderá afectar mais a gama DS ou a C? Depois das últimas observações após os lançamentos dos DS3 e do DS4, constatamos um enorme sucesso do primeiro e uma grande performance do segundo, cujo lançamento ocorreu mais recentemente. O que a nossa rede de concessionários nos transmite é que ambos os modelos suscitam um interesse muito forte e isso tem-se traduzido em resultados comerciais dentro dos nossos objectivos.
... e um dos objectivos dos DS3 e DS4 era a conquista de clientes de outras marcas. Essa meta está a ser alcançada? A maioria dos clientes DS3 e DS4 em Portugal provém de outras marcas, o que nos tem colocado num patamar de conquista, que pretendíamos.
Quais as suas perspectivas para o mercado do próximo ano? Pensamos que o mercado automóvel em Portugal deverá fechar este ano nas 160 mil viaturas, no máximo, enquanto em 2012 não deverá ultrapassar as 150 mil, ou seja, prevemos nova quebra. E estes valores não pressupõem um agravamento fiscal, isto é, têm como base os impostos actuais. A realidade é que o mercado automóvel português está em perigo e a carga fiscal sobre o sector atingiu o seu limite. A prova disso mesmo está na quebra de receitas fiscais que já se regista este ano (n.d.r.: menos 17,5%, ou 101 milhões de euros, de ISV em Setembro, por comparação com o mesmo mês de 2010). Em 2012, com as previsões de quebra de consumo, um novo aumento fiscal irá provocar uma queda ainda mais acentuada no mercado e penalizar ainda mais as receitas do Estado. O mercado está a morrer e mais impostos terão o efeito de uma guilhotina.
A crise traz habitualmente movimentos de consolidação nas empresas. No caso da Automóveis Citroën poderemos esperá-lo, nomeadamente ao nível da rede de concessionários? Felizmente, a actividade do sector automóvel não se resume exclusivamente à venda de viaturas novas, já que existem áreas de operação em torno dos carros usados, do pós-venda, das peças, etc. A Citroën detém um parque circulante de grande dimensão em Portugal, pelo que a actividade, apesar de estar em baixa, como é evidente, continua a trabalhar de forma sustentada. Nesse sentido, não prevemos alterações importantes no que diz respeito a movimentos estratégicos ou de consolidação da nossa rede de concessionários. Renovámos os contratos com todos eles e encerrámos uma concessão em Lisboa, no Saldanha. Esta última constitui a única alteração na rede.
Falando mais detalhadamente da gama de produtos, como define actualmente o perfil de clientes? Como está o mix de vendas no nosso país? Temos quatro pilares essenciais no que diz respeito ao volume de vendas. Na viaturas de passageiros, um perfil de segmentação que corresponde ao essencial do mercado e que se centra na oferta pequena-média, defendida pelos modelos C1, C3 e C4. O quarto pilar está nos veículos comerciais, com o modelo Berlingo. A par destas propostas que constituem o maior peso em termos quantitativos, gostaria de destacar o C5, cuja performance comercial se mantém bastante sólida, apesar da chegada de novos concorrentes ao mercado. No início do próximo ano, por outro lado, teremos o lançamento do DS5 (n.d.r.: topo de gama), cuja oferta vai incluir versões de motorização híbrida, permitindo um enquadramento fiscal muito favorável.
Ao navegar pela oferta Citroën actualmente presente no mercado, nota-se um posicionamento de preço algo diferente face ao passado, parecendo levar a marca para um patamar mais elevado, por exemplo, face a concorrentes directos. A que corresponde esta nova realidade? Vamos ser muito claros neste aspecto: o projecto Citroën desde há 10 anos - e que se acelerou desde o lançamento da gama DS e da nova identidade - é assumidamente de fazer progredir a marca em termos de imagem. Tivemos períodos da nossa história em que a oferta se revelou débil face a outros pesos-pesados, fossem franceses ou alemães, mas hoje a gama Citroën é uma das mais belas, se não a mais bela, das que existem no mercado automóvel - e isto aplica-se tanto à gama C como à gama DS. O que não significa, porém, que sejamos naïf ou que essa nova estratégia nos tenha subido à cabeça... É importante posicionar a gama no mercado e criar acções que demonstrem a nossa competitividade. Vive-se hoje uma grande guerra total de preços e a Citroën não quer entrar nesse tipo de mercado, mas propõe ofertas atractivas para cada um dos seus produtos. A vocação Citroën é alimentada por uma defesa e confiança totais na qualidade dos seus produtos, ao nível de uma Peugeot ou de uma Volkswagen - é neste universo que a marca se movimenta actualmente. E não somos mais caros que os outros concorrentes, estamos ao mesmo nível e acrescentamos acções pontuais de estímulo de vendas. Quanto ao resto, há quem faça loucuras no mercado. Nós preferimos não as fazer.
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