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Pedro Cudell: "Cabo Verde está na moda"
Entrevistas
23/03/11, 11:23
Por José Sousa Dias (texto e fotos), Exclusivo OJE /Lusa

Pedro Cudell, presidente do BES-CV, defende que Cabo Verde está na moda pelas melhores e piores razões. Melhores, porque tem um importante potencial de investimento. "Piores", porque vai sair beneficiado das crises noutras regiões. Por isso, a instituição está a apostar no arquipélago e pretende apoiar áreas essenciais como o Turismo, Agricultura, Pescas, Transportes, Energias Renováveis e até já pisca o olho à área da Saúde.

Disse recentemente que Cabo Verde está na moda. Porquê?

Porque há um conjunto de elementos positivos, tanto a nível das pessoas como a nível dos negócios. Não posso deixar de reflectir sobre as recentes eleições (legislativas, a 6 de Fevereiro), que se passaram numa grande tranquilidade democrática e uma grande estabilidade social. São dois predicados fundamentais para atrair o investimento e todos aqueles que se interessam por uma nova geografia. A qualidade dos recursos humanos deste país é indiscutível, tanto a nível da simpatia como da formação e da disponibilidade que os recursos humanos têm para atrair e para se relacionarem com as pessoas e com o estrangeiro. Isso é típico de um arquipélago, de alguém que está no meio do Atlântico e que tem esse grande recurso: poder e saber receber todos os que o querem visitar.

 

Mas há mais?

Há um aspecto fundamental, que é a questão das relações diplomáticas estabelecidas por Cabo Verde. Em África, não nos podemos esquecer da CEDEAO (Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental), onde muito brevemente há uma possibilidade séria de Cabo Verde vir a tomar a liderança da organização. Há a Parceria Especial com a Europa e não se pode esquecer tudo o que se passa em relação à excelente imagem que Cabo Verde tem nos Estados Unidos. O primeiro projecto do MCA (Millennium Challenge Account) realizado em Cabo Verde foi um sucesso e o arquipélago é, neste momento, o primeiro candidato africano ao segundo pacote do MCA. Não nos podemos esquecer que Cabo Verde tem ainda o segundo melhor "rating" da costa ocidental africana, a seguir ao Gabão. No "Polítical Risk Map" ("Mapa de Risco Político"), elaborado pela AON, uma das maiores correctoras de seguros internacionais, é o único dos países citados que não tem nenhum risco significativo. Isto só pode ajudar e melhorar a percepção que temos de Cabo Verde.

 

... e tem um PIB elevado...

É o maior PIB entre os países da CEDEAO. Estamos a falar na ordem dos 3.400 dólares «per capita» (mais de 2.500 euros).

 

De qualquer forma, há riscos subjacentes à crise internacional. Cabo Verde tem um défice excessivo, cerca de 13%, mais do quádruplo do estabelecido em Maastricht (3%). Em que medida é que o aumento dos preços do petróleo e dos alimentos podem prejudicar a consolidação orçamental de Cabo Verde, tendo ainda como pano de fundo o horizonte de 2013, quando o arquipélago deixar de receber os apoios e incentivos ligados à transição para País de Rendimento Médio (PRM)?

Tudo indica que, realmente, tanto os alimentos como a energia tenham de passar por um momento crítico e, por isso, só há uma solução: sermos criadores, inovadores e inteligentes, características que não faltam ao povo cabo-verdiano. Cabo Verde vai encontrar certamente vias para superar essas dificuldades, que são universais, e que passam pelo desenvolvimento de novas oportunidades no Turismo, nas Pescas, nas Infra-estruturas, no desenvolvimento dos portos e aeroportos e nas negociações com as companhias aéreas internacionais. Sem aviões a aterrar em cabo Verde, de preferência cheios, não haverá turistas. Cabo Verde tem de encontrar uma solução para aumentar o «in-flow» de turistas.

 

Indo justamente por aí. Em que medida é que o BES e o BES-CV podem ajudar nesse caminho?

É uma pergunta difícil, porque isso passa, indiscutivelmente, por um posicionamento do próprio Governo sobre o que pretende fazer com os TACV (Transportes Aéreos de Cabo Verde). As notícias que temos dão conta de que há uma intenção de privatizar os TACV. Mas, mais do que isso, é preciso contactar e explorar novas oportunidades para que, hoje em dia, os "low cost" venham mais para Cabo Verde. Uma simples ideia: se pagamos 25 euros por um visto para entrar em Cabo Verde, isso, multiplicado por 400 mil turistas, dará qualquer coisa em torno dos 10 milhões de euros, que talvez possam ser aproveitados para dar incentivos às empresas de "low cost" para que despertem para Cabo Verde e tragam os aviões mais cheios.

 

Quando fiz a pergunta não me referia apenas ao sector do Turismo, mas sim no global. Por isso, repito: em que medida o BES e o BES-CV podem ajudar o desenvolvimento desses sectores que falou, as Pescas, Agricultura e Infra-estruturas, etc?

E creio que são os temas essenciais. Turismo e Infra-estruturas, indiscutivelmente. São temas que nos são extremamente caros e com os quais temos competências específicas. O Banco Espírito Santo de Investimentos (BESI) tem obtido, nos últimos anos, a melhor performance internacional e tem recebido os melhores prémios internacionais em termos de "advisory" para operações de infra-estruturas e de aconselhamento para energias renováveis. É preciso pensar que as energias renováveis são uma oportunidade para Cabo Verde e para a qual temos competências e podemos ajudar de forma concreta. Já estamos a apoiar o maior projecto turístico residencial neste país, na ilha do Sal, com 1.260 fogos, e há outros projectos que estão a ser analisados. Gostaríamos muito, e já manifestámos disponibilidade, de ajudar o Governo de Cabo Verde na promoção internacional do porto de águas profundas do Mindelo (ilha de São Vicente). E estamos disponíveis para divulgar a imagem do país através das nossas competências na área financeira. Mais ainda, o facto de termos determinado que também queremos utilizar Cabo Verde como plataforma financeira para a costa ocidental africana pode ser um processo claro de apoiar e colaborar na internacionalização do país e fazer com que ele se constitua também como um "cluster" de serviços financeiros.

 

Já aflorou alguns, mas quais são os outros principais projectos do BES e do BES-CV para Cabo Verde?

Além dos que já falei, há um que me parece importante, que é o tema da diáspora. Temos esse mercado da diáspora bastante bem enquadrado dentro da nossa estrutura em Lisboa e gostaríamos de replicar esse modelo à diáspora cabo-verdiana, que vale cerca de 100 milhões de euros por ano, montante extremamente importante. Queremos criar produtos inovadores e tentar orientá-los para a diáspora. Há outros temas que têm sido equacionados por nós, mas que terão ainda de passar por um período de maturação, como, por exemplo, o da Saúde. Não haverá turismo de qualidade se não houver estruturas de saúde de apoio. Há ainda alguns défices, mas estamos a tentar ver em que medida se pode apoiar e ampliar o suporte a esse sector. Provavelmente, não será por via de grandes centros médicos, como grandes hospitais, mas poderá ser através da telemedicina ou de redes integradas de clínicas especializadas. A verdade é que o turista, antes de embarcar, um dos temas que vai ver e avaliar é a qualidade da saúde para uma eventual infelicidade.

 

Há também toda a questão ligada às Pescas.

Fizemos agora um "Economic Outlook" sobre esse sector em Cabo Verde, idêntico ao que fizemos para o Turismo há seis meses. No âmbito das Pescas, estamos convencidos que é uma área que tem de ser desenvolvida e aprofundada. Já estamos em contacto com grupos internacionais especializados a tentar sensibilizá-los para o mercado cabo-verdiano, não só nas pescas, mas também na aquacultura. As Pescas  não são só o acto de pescar, mas também a armazenagem, frio, indústria conserveira, reparação naval, etc. Há todo um conjunto neste sector que tem de ser muitíssimo bem coordenado. Sabendo nós da posição estratégica de Cabo Verde, apoiamos indiscutivelmente a grande aposta do Governo de Cabo Verde na dinamização do «cluster» do Mar.

 

Tem ideia de quanto o BES já investiu ou disponibilizou em CV?

Sei, claro que sei. Não devemos estar muito longe dos 150 milhões de euros.

 

Em que principais domínios?

Não gostaria de os desvendar. Os clientes são a nossa maior riqueza e são sempre temas que para nós são difíceis de poder desvendar.

 

Já tem ideia dos resultados líquidos de 2010?

A boa notícia é que, ao fim de seis meses, o BES-CV já vai terminar com resultado positivo. Não é um resultado extraordinário, mas também para seis meses não podíamos exigir mais.

 

Já há números?

Não devemos estar longe dos 5.000 contos cabo-verdianos (cerca de 45 mil euros). Não é um valor muito significante, mas, para nós, o importante foi que, em seis meses, já conseguimos fechar com números positivos. Por outro lado, a nossa sucursal financeira exterior termina com números muito mais significativos. Aí sim, já são montantes muito significativos.

 

Quanto?

São cerca de dois milhões de euros.

 

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