Portuguesa gere marcas planetárias na Península Ibérica
Entrevistas
14/12/11, 00:01 Por Almerinda Romeira (Texto) e Victor Machado (Foto)
Elsa Gomes é directora geral ibérica da Copyright Promotions Licensing Group. Líder de uma equipa que coloca no mercado ibérico mais de 100 milhões de euros em produtos licenciados e gere a imagem e os direitos de marcas como Snoopy, Simpsons, Ruca e Pocoyo, a gestora confessa-se cada vez mais "orgulhosamente portuguesa", mas reconhece que em Espanha há mais capacidade de distinguir rapidamente o essencial do acessório e maior rapidez de decisão dos gestores
É difícil descrever uma semana na vida de Elsa Gomes, porque cada uma é, inevitavelmente, diferente. Não há rotinas. Como responsável ibérica da Copyright Promotions Licensing Group (CPLG), divide o tempo entre os dois países, vivendo em média 180 dias em Espanha e 180 dias em Portugal, já que está em Barcelona semana sim, semana não. E, a brincar, diz que, nos intervalos, viaja ainda em trabalho para outros lugares - Madrid, Valência, Londres, NY, LA, Las Vegas, Paris, Milão... "Enfim, é uma animação!", exclama divertida.
A semana desta executiva tem, em média, 60 a 70 horas de trabalho porque, como a empresa que lidera representa estúdios de cinema americanos situados em Los Angeles, há uma diferença horária de menos horas, o que a leva a trabalhar muito para lá das 18h00.
A menos que tenha de apanhar um voo às sete da manhã, e por isso se tenha de levantar às cinco, o que acontece com muita frequência, tanto em Espanha como em Portugal, acorda por volta das 7h00 e, depois de tomar o pequeno-almoço, vê os e-mails mais urgentes que recebeu durante a noite no Blackberry. Responde ou encaminha para quem lhes dê seguimento. No laptop, trabalha ainda um pouco num ou noutro projecto que precise de maior concentração e sai de casa entre as dez e meia e as onze depois de, em conjunto com a empregada, dedicar uma hora a organizar a vida familiar e doméstica (já que, até ao dia seguinte, raramente volta a pensar no assunto). Pára de trabalhar por volta das 23h00, incapaz de pensar em mais nada.
Elsa Gomes tem um cargo executivo, sendo da sua responsabilidade a estratégia e a manutenção das relações institucionais com os proprietários que a Copyright Promotions representa, além de, obviamente, ser também a responsável máxima pelo cumprimento do budget aprovado pelo conselho de administração a quem reporta. O seu telemóvel ou telefone fixo tocam com frequência e as conference call são predominantes na sua agenda.
Tanto em Espanha, como em Portugal, a Copyright Promotions Licensing Group é, nas palavras de Elsa Gomes, "uma pequena empresa com uma estrutura muito enxuta que se dedica a 100% às vendas, contando com o apoio do back office situado em Londres, na sede". Em Espanha, a empresa tem uma equipa maior (de dez elementos) que em Portugal (três) e há uma segunda figura hierárquica que actua como braço direito da directora geral, o director de vendas. Mesmo assim, a semana da gestora é muito mais intensa em Espanha, "talvez por ser um mercado muito maior, com outro tipo de exigências, muito concorrencial e muito apelativo para os mercados exteriores devido à sua pujança. Isto significa que, mais que uma atitude defensiva, temos de ser pró-activos para mantermos o mercado controlado".
Assumiu responsabilidades em Espanha por opção ou por imperativo de carreira? Um pouco pelas duas razões. Depois de ter regressado do Brasil, senti que trabalhar só em Portugal era pouco para o que eu ambicionava fazer e, nessa altura, surgiu o convite para substituir a Directora-Geral de Espanha. Pensei dois dias e, após medir prós e contras, decidi aceitar. Se não me desse bem, sempre podia voltar atrás.
Fazer carreira internacional estava nos seus planos? Era um objectivo a atingir? Mais do que uma carreira internacional, sempre ambicionei fazer mais que bem e chegar mais além naquilo que fizesse. Desde cedo percebi aquilo que gostava de fazer, em que podia sobressair e fazer a diferença. Aconteceu que esse ir mais além se materializou numa oportunidade de fazer carreira internacional. Eu apenas abracei a oportunidade que me foi dada, e tenho-a vivido plenamente e com toda a satisfação, porque o que tenho recebido de volta tem sido muito compensador.
O que é a Copyright Promotions na Península Ibérica? É uma agência de licensing reconhecida como séria e profissional e com um portfolio de representações sempre invejado. Creio não estar a ser presunçosa ou irrealista dizendo que a CPLG é a empresa de licensing mais observada e mais permanentemente avaliada na Península. Não estou certa, mas creio que, muitas vezes, somos o benchmarking da indústria de licensing ibérica, mesmo para os gigantes que actuam neste mercado. Obviamente, isso também tem os seus custos e é uma responsabilidade difícil de sustentar indefinidamente e que nos obriga a reinventarmo-nos constantemente.
Que peso tem a Península nos negócios do grupo? Digamos que, nos últimos nove anos, como Ibéria, conseguimos estar quase sempre no topo, sendo que, no nosso último ano fiscal, que terminou em Agosto, Espanha foi, uma vez mais, o melhor escritório. Não é coisa pouca, se considerarmos que Espanha está a atravessar uma das suas maiores crises económicas. Devo, no entanto, reconhecer que manter essa performance elevada em 2012 será um grande desafio para toda a equipa, sobretudo porque, pela primeira vez em muitos anos, factores que nos são externos e alheios poderão determinar resultados diferentes.
Que desafios enfrenta diariamente como gestora de uma empresa ibérica? Aprender todos os dias a conviver com culturas sociais e empresariais diversas, defender os interesses estratégicos dos meus territórios, procurar sinergias entre mercados e empresas de cada país, descobrir constantemente novos nichos de negócio em cada país, não confundir assuntos, lembrar-me do que decidi, a quem informei ou o que fiz em cada escritório, auto motivar-me e manter os outros motivados em situações tão adversas, decidir salomonicamente... Há um sem fim de desafios diários que dificilmente conseguiria enumerar sem me tornar maçadora.
O que de fundamental na gestão e no marketing distingue Portugal e Espanha? Em Espanha, há mais capacidade de distinguir rapidamente o essencial do acessório e maior rapidez de decisão dos gestores. Há também mais pragmatismo e uma vontade séria de, em conjunto, levar o país na mesma direcção. Por exemplo, ao contrário do que muitas vezes acontece em Portugal, em Espanha, um país onde tudo é traduzido, as televisões usam cada vez mais os nomes originais dos programas que compram fora, porque sabem que as empresas espanholas precisam de se internacionalizar e não podem ter, à partida, barreiras à entrada noutros mercados porque os nomes dos personagens ou da série foram traduzidos para castelhano. Têm, cada vez mais, a noção de que, usando um nome comum ao dos outros mercados, é mais fácil fazer economia de escala e serem bem sucedidos fora de portas e assim ganhar dimensão. Este é um exemplo de decisões pragmáticas e esforço comum. Um outro episódio que ilustra bem as diferenças no tempo de tomada de decisões aconteceu na Feira do Livro de Frankfurt há uns anos, quando o José Saramago ganhou o Prémio Nobel da Literatura. A editora espanhola de Saramago, assim que foi anunciado o vencedor, reagiu na hora e distribuiu, pela feira, cartazes feitos em folhas de papel A3 e escritos à mão a informar sobre quem era o vencedor e a dizer que eram o seu editor. Enquanto isso, a editora portuguesa esperava receber autorização de Lisboa para imprimir uns cartazes muito bonitos, que foram afixados bastante mais tarde e em locais especiais, mas que chegaram tarde porque, nessa altura, já toda a gente falava da editora espanhola que representava Saramago. Sou cada vez mais orgulhosamente portuguesa, mas habituei-me a olhar para nós com um olhar exterior e não faço este tipo de observação de forma leve ou como crítica. Apenas tento identificar as diferenças entre nós e os outros, e ver se há outras formas de fazer com que nos levem a ser mais competitivos e melhores.
Quais as vantagens e as desvantagens de liderar uma equipa estrangeira num país estrangeiro? Não encontro vantagens nem desvantagens. Penso sim, que é um grande desafio conseguir ser respeitado, porque é preciso fazer um exercício constante de humildade perante si próprio e os outros e, simultaneamente, exercitar a autoconfiança.
Que diferenças nota na forma de fazer negócios entre portugueses e espanhóis? E na forma de liderar? Sobre a forma de fazer negócios, penso já ter respondido. Sobre a forma de liderar, penso que é mais um estilo pessoal que algo determinado pela nacionalidade.
Que qualidades pessoais lhe permitem ter sucesso profissional? Não sou, seguramente, a melhor pessoa para indicar as minhas qualidades, mas sei o que, na minha personalidade, me ajudou a trilhar o meu caminho. Sou competitiva, combativa, assertiva, persistente, muito criativa, curiosa, leal, um pouco perfeccionista, honesta comigo e com os outros e tenho, permanentemente, vontade de fazer melhor. Com o tempo, aprendi a delegar. Procuro não ferir ninguém propositadamente ao perseguir os meus objectivos. Procuro ver sempre mais longe, projectando no futuro as decisões e acções do presente, antecipando resultados. Não viro as costas aos desafios nem ignoro os problemas. Dou sempre uma, duas, três oportunidades a quem erra antes de decidir que essa pessoa tem de encontrar o seu caminho noutras funções ou noutro lugar. No entanto, não aceito levemente os meus próprios falhanços e analiso os motivos que levaram a tal resultado, para evitar cometer os mesmos erros. Mas, como sou humana, reconheço que nem sempre ganho essa batalha individual.
Há alguém que, em particular, tenha influenciado a sua carreira? O meu pai, que incutiu em mim o gosto de saber mais e o espírito da auto-superação, e a minha mãe, que me levou a descobrir o belo e o prazer de brilhar.
Ter responsabilidades de gestão em Barcelona alterou a sua perspectiva sobre a Península Ibérica? É agora mais ou menos iberista? Hoje, mais do que nunca, sabemos que, devido à nossa dimensão, temos constrangimentos que levarão anos a ultrapassar, ou que nunca ultrapassaremos. Somos gente capaz, trabalhadora, gente de valor e de valores. Se num ou mais momentos da nossa história, presente ou futura, soubermos encontrar formas de aliança com Espanha que preservem os nossos interesses, acredito sinceramente que essa aliança, longa ou curta, será quase sempre um benefício para os portugueses.
Eleja cinco ícones ibéricos: Consigo eleger mais: Fado e Flamenco; Mourinho e Ronaldo; Saramago, D. Juan Carlos.
Perfil Elsa Carla de Barros Gomes, nascida em 7 de Novembro de 1957, casada, um filho, estudou no ISLA (curso superior de secretariado e ESA - European Secretarial Academy), tendo feito, mais tarde, uma pós-graduação (Curso Geral de Gestão, Nova fórum) na Universidade Nova de Lisboa. Fluente em espanhol e inglês, com bons conhecimentos de francês e alemão, foi tradutora na Impala e Editora-adjunta do departamento de edições especiais desta empresa editorial. Em 1988-1989, foi Bolseira da Associação de Editores e Livreiros alemães e da Bertelsman, na empresa alemã Ravensburguer Buch Verlag, líder europeu do mercado de jogos de mesa e, nos dois anos seguintes, executiva de Marketing de PSM - Prestação de Serviços de Marketing, Lda. A sua entrada na Copyright Promotions Europe deu-se em 1992, como directora de Vendas da sucursal portuguesa, tendo, em 1994, ascendido à posição de Directora Geral, onde obteve a representação do licenciamento do Gil, a mascote da EXPO'98. Entre 2000 e 2002, foi directora geral da Copyright Promotions do Brasil com escritórios no Rio de Janeiro, S. Paulo e Porto Alegre. Além de responsável pelo "start-up" da sucursal brasileira, conseguiu no primeiro ano de funcionamento, alcançar um EBITA positivo, auditado pela KPMG. Desde 2002, é Directora Geral Ibérica da Copyright Promotions Europe, com escritórios em Lisboa e Barcelona.
Copyright Promotions Fundada em 1974, a Copyright Promotions Licensing Group exerce actividade na área do licenciamento de marcas e nomes registados, ligados à área do entretenimento, cinema, televisão e desporto, representando as grandes majors americanas e algumas japonesas, com destaque para 20th Century Fox, Sony Pictures, Universal Pictures, CBS, Peanuts Worldwide, Saban Entertainment, Cookie Jar, Classic Media, WWE - World Wrestling Entertainment, WRC - World Rally Championship, num total de 2000 licenças anuais. Em 2008, a CPLG foi adquirida pelo grupo Cookie Jar, empresa sediada no Canadá e dedicada à excelência no entretenimento global e educação. Com uma biblioteca em animação de aproximadamente 6000 horas, a Cookie Jar é especialista na criação, produção, licenciamento e marketing de personagens clássicos que apelam a crianças e famílias. A CPLG Portugal e a CPLG Espanha são sucursais de Copyright Promotions Licensing Group. Os escritórios de Lisboa e Barcelona colocam, no mercado ibérico, mais de 100 milhões de euros em produtos licenciados com as marcas representadas em cada um dos países.
Prémios Elsa Gomes colocou a sucursal espanhola na liderança do mercado de licenciamento em Espanha, conseguindo ainda para a sucursal espanhola vários prémios da 20th Century Fox: 2003/04 Gold Award para melhor agência mundial; 2003/04 Gold Award para melhor campanha mundial de retalho com os Simpsons, "Regresso às aulas Carrefour"; 2004/05 Merit Award para melhor agente mundial; 2004/05 Bronze Award para melhor licenciado mundial dos Simpsons; 2005/06 Merit Award para melhor promoção mundial; 2007/08 Gold Award para Melhor licenciando mundial da 20th Century Fox. A agência espanhola também recebeu, nos últimos anos, vários outros prémios locais atribuídos pela revista Licencias representativa da indústria de licenciamento em Espanha, nomeadamente melhor marca licenciada atribuída a Bratz, Simpsons, Spider-Man, Hello Kitty, e estátua de bronze como melhor agência de licenciamento espanhola pela revista de marketing "Estratégia" em 2009 e 2010.
Parabéns Elsa!! Seguramente que recebe muitos salários mínimos portugueses para ter uma semana tão extensa...Felizmente para si não é uma portuguesa a viver como a maioria de nós...As pessoas vivem e dedicam-se de acordo com as oportunidades. Portugal é um país onde a falta delas começa pela falta de reconhecimento dos bons técnicos que muitas vezes se vêm forçados a emigrar para ter o devido reconhecimento!!
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