Thomas Schmutz: “Queremos consolidar quota de mercado num ano difícil”
Entrevistas
09/05/12, 00:52 Por Pedro Fonseca de Castro / OJE
Perante um setor em travagem a fundo, a Volvo Car Portugal reage com um reforço da rede de concessionários e um investimento recorde em publicidade, com o seu diretor-geral a afastar cortes de pessoal. Thomas Schmutz sugere ainda uma redução da carga fiscal para acelerar o mercado.
O mercado português caiu para metade no primeiro trimestre. Qual é a estratégia da Volvo para enfrentar um dos seus períodos mais desafiantes em Portugal?
Tem toda a razão. Este é, provavelmente, um dos anos mais difíceis para todos os setores, não apenas para a indústria automóvel, mas para toda a gente neste país. Em primeiro lugar, gostaria de dizer, enquanto "outsider", que estou impressionado com a forma como as pessoas estão a lidar com a crise económica em Portugal.
A nossa estratégia para 2012 assenta em diversos eixos. Temos dois eventos importantes este ano: o nosso 85.º aniversário, que acabámos de celebrar, e ainda a escala da Volvo Ocean Race em Lisboa, entre o final de maio e o dia 10 de junho, que vai, certamente, ajudar a marca a atrair cobertura mediática. Em paralelo, lançámos edições limitadas Volvo Ocean Race, que oferecem uma vantagem de equipamento de cerca de 4 mil euros aos nossos clientes. Vamos ainda lançar um modelo completamente novo, em setembro.
Tem estimativas para as vendas e quota de mercado da nova V40?
Claro que temos planos, mas, como disse, a V40 só vai estar nas estradas em setembro, pelo que só o teremos durante quatro meses. Ainda assim, pretendemos vender um número significativo de unidades até ao final do ano, até porque consideramos que se trata de um modelo muito bem adaptado ao mercado português.
Vão continuar a apostar nos pontos fortes da marca, como as carrinhas e os SUV?
Sem dúvida. Os nossos produtos "ADN" são sobretudo as carrinhas e os SUV e, com o XC60, fechámos 2011 como líderes nos SUV premium pelo terceiro ano consecutivo, pelo que parece que o apetite para este automóvel ainda é muito forte.
Perante o cenário que acabou de descrever, podemos concluir que não está a equacionar cortes de custos ou de capacidade em Portugal?
É uma excelente pergunta, porque a frase chave dos tempos que correm é precisamente essa: corte de custos. Nós preferimos chamar-lhe controlo de custos. Claro que é preciso garantir que temos um balanço equilibrado, mas o que tentamos fazer é assegurar que os custos são sempre proporcionais ao valor que criamos. Em concreto, no que diz respeito à Volvo Car Portugal, não temos quaisquer planos para reduzir o número de funcionários ou qualquer outro vetor da nossa atividade.
Aliás, posso dizer-lhe que vamos investir mais em publicidade, por exemplo, ao longo deste ano em relação ao ano passado, sendo que 2011 já assinalou um recorde de investimento para nós em Portugal. Quanto aos concessionários, estão a atravessar um período muito duro, quer com a Volvo quer com todas as outras marcas, mas, ainda assim, prevemos inaugurar pelo menos quatro novas unidades este ano no mercado português.
Está a referir-se a instalações destinadas à venda de automóveis?
Sim, à venda e assistência pós-venda.
Qual é o objetivo de vendas e quota de mercado da Volvo para este ano?
Recuando um pouco, a Volvo Car Portugal foi fundada em 2008. Começámos esse ano com uma quota de mercado de 1% e conseguimos fazê-la crescer para quase 2% no final de 2011. Agora, a nossa meta para este ano é consolidar e ficar na fasquia dos 2%. Encerrámos o primeiro trimestre com uma quota de 2,6%, muito acima do nosso objetivo, o que exigiu um trabalho árduo.
Partilha da ideia de que o segmento premium resiste melhor às crises económicas?
Em termos gerais, e, mais uma vez, trata-se da observação de uma pessoa que está há 8 meses no país, os consumidores portugueses privilegiam a boa qualidade e as marcas premium e de luxo. Isto é verdade para os carros, como é para o vestuário ou os relógios. Quando olhamos para os dados do mercado automóvel, em concreto, vemos que as marcas premium, de facto, resistem melhor.
A Volvo é uma marca premium que é considerada menos ostensiva do que as suas rivais alemãs. Esta perceção pode ser favorável em tempos de austeridade?
Boa pergunta. Não posso responder pelas nossas concorrentes, mas posso responder pela Volvo. A nossa herança vem da Suécia e vai buscar todo o ADN sueco: design elegante e intemporal, funcionalidade e a segurança pela qual somos reconhecidos. Penso que os clientes valorizam este conjunto de atributos tipicamente suecos e, se quiser dizer que apelamos um pouco menos à aparência do que outras marcas, é possível que sim. Na Volvo, dizemos sempre que os nossos clientes são o tipo de pessoas que estacionam os seus carros na garagem, enquanto outros podem estacionar em frente à porta de casa.
Como caracteriza o desempenho da Volvo no primeiro trimestre?
Como disse, o primeiro trimestre foi muito difícil; aliás, o mais complicado até ao momento, na sequência do quarto trimestre do ano passado, quando o mercado encolheu 50%. Esta tendência estendeu-se por completo ao início de 2012, com uma queda de 48%. Atingimos uma quota recorde de 2,6% neste período e conquistámos a confiança dos clientes, que é o mais importante.
Esse resultado foi suportado por campanhas especiais?
Numa situação de mercado como aquela em que nos encontramos, toda a gente está à procura das oportunidades. Foi o que fizemos e tudo o que posso dizer é que, durante o primeiro trimestre, duas gamas foram fundamentais para o nosso desempenho: a V50, que ainda apela a muitos consumidores, e o XC60, que continuou a dominar o seu segmento.
Como referiu, a Volvo Car Portugal nasceu em 2008. Como é que a marca evoluiu nestes três anos?
Desde 2008, conseguimos duplicar a nossa quota de mercado, além de termos conquistado um elevado número de novos consumidores, com a base de clientes da Volvo a crescer mais de 20% neste período. Este desempenho foi conseguido graças a um conjunto de fatores, como o trabalho desenvolvido pela rede de concessionários, que se profissionalizou, transformando os stands segundo um conceito que apelidamos de "Volvo next face". Este foi um eixo estratégico. Por outro lado, lançámos três automóveis novos desde 2008, o que ajudou, até porque estes modelos foram muito bem recebidos em Portugal.
Finalmente, a equipa da Volvo Car Portugal fez um bom trabalho, enquanto organização coesa, no desenvolvimento da marca.
Como é que a quota de mercado portuguesa compara com a europeia?
É superior à que a Volvo apresenta na Europa. A quota de mercado europeia no final do ano passado era de cerca de 1,8% e nós encerrámos o ano exatamente com 1,9%, mas, ao longo dos últimos anos, conseguimos reforçar a quota e estamos bem acima da média europeia.
Apesar de ser um país pequeno, trata-se de um mercado importante para a marca...
Certamente. A própria escala da Volvo Ocean Race prova-o.
O que é que a Volvo ganhou ao assumir o papel de importadora, após a saída da Auto Sueco?
Antes de responder à sua pergunta, deixe-me dizer-lhe que estamos muito agradecidos à anterior importadora privada Auto Sueco, que acarinhou a marca desde a década de 30, tendo feito um trabalho fantástico, sobretudo no norte do país. No entanto, no âmbito de uma estratégia de marca, o que não é específico da Volvo nem mesmo da indústria automóvel, se quisermos ter a marca alinhada ao longo de todos os canais, é sempre bom ter uma representação nacional.
Indo além de Portugal, considera que a Geely está totalmente empenhada no desenvolvimento da Volvo?
Para começar, devo recordar que a Geely comprou a Volvo Car em 2010, tendo instalado imediatamente um conselho de administração independente. Da Geely, temos o presidente, Li Shufu, mas tudo o resto, desde as operações diárias à estratégia, é decidido em Gotemburgo por parte da administração da Volvo Cars.
A empresa é gerida de forma totalmente independente. Claro que existe o objetivo de abrir portas no mercado chinês para a Volvo, mas, no que diz respeito à Europa, as operações são totalmente autónomas.
Qual o contributo da Volvo Ocean Race para a marca?
Representa uma enorme oportunidade. Trata-se da 11.ª edição da regata, que teve início em 1973 e é o evento desportivo mais duro a nível mundial. Seis navios, com tripulações de 11 elementos, que navegam à volta do mundo sob condições muito difíceis. Tivemos a sorte de a prova escalar Lisboa este ano, o que, na perspetiva da marca, constitui uma oportunidade tremenda.
O patrocínio do evento pode ajudar a apagar a imagem algo conservadora da Volvo?
Acreditamos que sim. Regressando, uma vez mais, às raízes, esta regata começou em 1973, pelo que já decorre há quase 40 anos. No entanto, concordo consigo quando refere que a Volvo já foi considerada mais conservadora do que é hoje, está a tornar-se uma marca mais "moderna".
Na sua opinião, que medidas é que o Governo português poderia tomar para reanimar o mercado automóvel?
Se olharmos para as estatísticas, vamos verificar que quase 21% da receita do Estado tem origem no automóvel ou em impostos relacionados com o automóvel, o que significa que perto de um quinto do rendimento do Estado tem origem em alguma forma de negócio relacionado com o automóvel. O que é que isto implica para o mercado de trabalho, por exemplo? Podemos facilmente constatar que, entre 10% e 20% do total de empregados, ganham o seu pão numa área da indústria automóvel.
Se analisarmos a realidade sob este prisma, temos um bom argumento para o Governo chegar à conclusão de que algo precisa de ser feito para a situação não se tornar ainda mais dramática. Se me pergunta pessoalmente o que deve ser feito, e existirão centenas de opiniões distintas, quando cheguei a este país, em agosto de 2011, fiquei chocado com o nível de impostos que os consumidores têm de pagar sobre os automóveis.
Considerando o Imposto Sobre Veículos (ISV), penso que um bom incentivo seria reduzi-lo para metade, ou mesmo eliminá-lo, durante pelo menos meio ano, digamos a partir de junho. Através de um cálculo muito simples, verificamos que, se diminuirmos ou eliminarmos este imposto, só é necessário que o mercado cresça entre 10% e 15% para compensar o efeito na totalidade e teremos ajudado os concessionários e os técnicos a manterem os seus empregos, dinamizando o mercado. No entanto, prefiro focar-me naquilo que podemos mudar na Volvo, aceitando o contexto que nos é oferecido e atuando em conformidade.
Como tem corrido a sua adaptação ao país e ao ambiente de negócios?
Como disse, cheguei há oito meses e tenho de reconhecer que ainda estou espantado com a gentileza das pessoas que conheci, tanto em encontros pessoais como profissionais. Lembro-me sempre de que 75% da população portuguesa vive ao longo da costa, o que gera uma qualidade de vida fantástica, em contraste com a Suíça, onde nasci, onde 75% das pessoas moram à beira da autoestrada A1, que liga Genebra a Zurique. A forma de conduzir os negócios é diferente em Portugal, mas, em termos gerais, o ambiente é fantástico. Claro que seria positivo se a dinâmica do mercado fosse um pouco melhor.
Encontrou profissionais bem preparados?
Sem dúvida. Não apenas na Volvo Car Portugal, mas também nos nossos concessionários, que estão organizados numa rede muito profissional. Já mantive inúmeros encontros de negócios que confirmaram a minha impressão de que existe muito profissionalismo neste país.
Se me é permitido fazer uma observação, em certas ocasiões, noto alguma falta de espírito comercial, que se manifesta através de muita "paciência".