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José Marques da Cruz: “O sistema judicial não permite cobrar o que é devido”
Intermail
20/10/11, 08:54
Por Inês Andrade/OJE

Com uma perspectiva futura de crescimento limitado para o sector da construção em Portugal,
a Geosolve resolveu apostar na internacionalização e já retira cerca de 20% do total
de facturação das actividades no exterior, disse em entrevista por e-mail José Marques da Cruz, sócio-gerente da Geosolve.
 
Vocacionada para a Engenharia Civil, Geotecnia, Topografia e Ambiente, a Geosolve formou os seus quadros para uma multidisciplinaridade de serviços. A empresa intervém em todas as fases do projecto, desde o estudo de viabilidade ao projecto em si, à obra, fiscalização e manutenção. Opera há já 12 anos em Portugal e integrou o grupo espanhol Inzamac, que possui 65% do seu capital social desde 2010. Foi nesta aliança - que permitiu a partilha de conhecimentos e potencialidades - que foram reunidas as capacidades e nasceram as oportunidades para apostar na internacionalização. Da sua estrutura de clientes fazem parte construtoras, como a Odebrecht e a Opway, empresas públicas, como a Refer e a Estradas de Portugal, e ainda vários promotores privados. A Geosolve esteve por trás de grandes obras como a nova travessia do Tejo, a construção de estádios de futebol, a Via do Infante, o Túnel do Marão e realizou, ainda, estudos geotécnicos para as linhas de alta velocidade.       
 
Como tem evoluído o desempenho da Geosolve no que diz respeito ao resultado líquido e às receitas?

A empresa tem tido sempre facturação crescente e resultados positivos a partir do seu segundo ano de existência. Facturou cerca de 2,78 milhões de euros em 2010 e deverá ultrapassar esse valor em 2011. Este ano talvez atinja os 3 milhões, tendo presente os 1,45 milhões de euros facturados nos primeiros 6 meses. Estes números são resultado de uma carteira satisfatória, que vem desde 2009 e que se manterá até ao final do primeiro trimestre de 2012, e de algum desempenho aceitável no exterior do país.
 
De quanto é o CAPEX anual da empresa?

Para o presente ano quase todo o investimento estará concentrado nas necessidades ligadas à internacionalização e atingirão cerca de 200 mil euros, estando previsto igual valor para o ano de 2012. Serão aplicados em máquinas de sondagens e laboratórios de obra, bem como em equipamentos de ensaio de estacas. Também serão investidos cerca de 25 mil euros em equipamentos ligados à área do Ambiente, para desenvolvimento do mercado em Portugal.
 
A Geosolve sentiu os efeitos da crise económica que o país atravessa?

A Geosolve tem uma carteira actual satisfatória até ao final do 1º semestre de 2012, porém o ritmo de novas adjudicações mensais caiu cerca de 60% nos últimos 8 meses. Estes dois valores combinados indiciam que o nível de facturação vai decrescer de cerca de 40% a 50%, de 2011 para 2012.

Não se trata apenas de uma diminuição do valor dos trabalhos adjudicados, mas de menos "valor" para estes novos trabalhos. Temos adjudicações com menores margens brutas libertadas e adjudicações apenas em algumas áreas de actividade. Os prazos de pagamento saltaram quase dois meses, em menos de um ano, mas o pior é as insolvências. De uma insolvência que sofremos as consequências em 2009, passámos a quatro em 2010 e já vamos em seis em 2011. Cada cliente é olhado com "amor" por ser cliente e com "pavor" por ser potencial insolvente no futuro. Para além disso, existe uma agressividade exagerada ao nível da concorrência, o que dá origem a clientes poucos fiéis. Mais difícil que o generalizado ambiente de miserabilismo vigente é o facto de não haver política económica nacional que aponte um caminho, seja ele qual for. A perspectiva para se trabalhar em Portugal é, consequentemente, muito limitada. O paradigma da mudança do tipo de cliente aponta para a existência de contratos de menor dimensão, em maior número e em diferentes áreas de trabalho. Aproveitar-se-á a capacidade e experiência da Geosolve em ter uma Engenharia diversificada para responder de uma forma mais abrangente aos problemas e necessidades das empresas portuguesas. É igualmente evidente que há uma viragem do cliente estatal para o privado, que passará a ter mais importância. Contudo, a operação em Portugal tem de ser, por si só, auto-sustentada e minimamente rentável, portanto há que mudar para poder sobreviver.
 
Sentiu a pressão que se abateu sobre o sector da construção, que tem cada vez maior dificuldade em obter crédito bancário?

A banca já não financia a indústria da construção. Quando o faz aplica taxas de juro muito superiores às de um ano atrás. Houve também a interrupção de diversos contratos que estavam em curso como o Túnel do Marão e a Subconcessão do Baixo Tejo. Desapareceram vários investimentos públicos previstos - entre Subconcessões Rodoviárias, o projecto de Alta Velocidade, a Linha Ferroviária Lisboa-Porto e a Rede Hospitalar - e foram congelados diversos investimentos privados. A política de contenção do Governo retira a maior parte do investimento previsto para o país. Basta pensar nas obras acima e em todos os investimentos que iriam ter algum suporte do QREN que não vão acontecer. Percebe-se a contenção, não está em causa o que deve ser feito. Não se percebe é como é possível estar trinta anos a dizer às empresas da indústria da construção para se apetrecharem para as obras que se vão fazer e que vão necessitar de intervenientes fortes e bem estruturados e, de repente, tirar-lhes o tapete. Mantiveram uma legislação antiquada e desajustada a acertos de pessoal efectivo, cargas fiscais que não param de crescer, para além de um sistema judicial que não funciona e não permite cobrar rapidamente o que é devido. As consequências estão à vista, a indústria da construção está completamente destroçada e com pouca capacidade de resolução dos seus problemas.
 
Este ano apostaram na internacionalização. A aposta deveu-se à crise?

A aposta nos mercados exteriores far-se-á a partir de quadros locais apoiados pela estrutura fixa de Portugal. Nesses mercados replicar-se-á a estrutura de serviços que proporcionamos em Portugal. Há cerca de dois anos que temos trabalhos em Moçambique e há quatro em Angola e Cabo Verde, integrando parcerias com equipas de engenharia locais e deslocando temporariamente pessoas para esses países. A Geosolve opera também, a partir de contratos pontuais, em S. Tomé e Príncipe. Em conjunto com a sua associada Inzamac, a Geosolve considera que o Atlântico Sul constitui a área primordial de expansão. Este ano manter-se-á em cerca de 18% a 20% o total de facturados fora de Portugal.
 
Quais são as metas económicas da empresa para os próximos anos?

A Geosolve antecipa que a sua evolução como empresa auto-sustentável passa por diminuir o seu volume de negócios e o seu tipo de clientes. A empresa espera uma operação de entre 1 milhão a 1,3 milhões de euros em 2012. Já o grupo Inzamac terá um volume de negócios na ordem dos 26,5 milhões de euros em 2012 e de 35 milhões em 2013.

A partir do próximo ano, o grupo terá escritórios em dez países: Portugal, Espanha, Polónia, Argélia, Moçambique, Angola, Chile, Peru, Bolívia e Brasil. Ainda na expansão internacional, o plano estratégico do grupo prevê que a percentagem da facturação da Geosolve proveniente do estrangeiro represente 40% em 2012, 50% em 2013 e patamares acima dos 55% em 2014.
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