12/10/09, 10:04Para esta designer, escritora, researcher e viajante, o aqui e agora é, de facto, o que a move na forma obstinada de viver a vida. Talvez por isso admire tanto as "pessoas que conseguem estar presentes ao que quer que estejam a fazer no momento", conta ao OJE, "porque, no fundo, é isso que interessa, o resto já passou ou está por vir".
Esteja em Lisboa (da qual sente falta o ritmo, as pessoas e o clima), em Buenos Aires (onde trabalhou como voluntária para a editora Eloísa Cartonera), ou em Berlim, onde colabora em vários projectos, Joana Bértholo é "alérgica à rotina" e nunca tem dois dias iguais. Escrever de manhã "bem cedo, que é quando me sinto melhor a fazê-lo", e dedica o resto do dia a "ler, pesquisar, ver uma exposição, dançar, visitar um amigo".
Licenciada em Design de Comunicação pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa (2000-2006), manteve a escrita como um mundo paralelo ao da formação e publicou o primeiro livro de banda desenhada em 1999. Em 2005, seguiu-se um conto e, um ano depois, uma compilação de vários contos. Aos 25 anos muda-se para Berlim de caneta em punho e escreve o primeiro romance ("Diálogos para o fim do mundo"), que tem lançamento marcado para Fevereiro de 2010, antes de Joana completar os 28. A artista vive "fascinada pelo processo criativo e pela forma mágica e indizível como algo nasce como uma semente, uma ideia vaga ou uma imagem tosca na cabeça, se desenvolve até se tornar um livro, um guião, um objecto redondo", diz. É isto que adora mais no seu trabalho, que pode surgir de várias formas: um vídeo, um artigo, uma exposição...
Genuinamente curiosa, Joana sofre do mal Pessoniano de querer "sentir tudo de todas as maneiras" e quando lhe perguntamos que outra profissão escolheria, responde que sempre pensou que "gostava de ser duas semanas de cada coisa. Duas semanas trabalhava na caixa do Lidl, outras duas apresentava um programa de televisão, outras duas servia à mesa e mais duas era camionista".
Não está preocupada com o que podemos fazer para recolocar Portugal no mapa dos países mais importantes do mundo, até porque "o que é isso, de ser importante?", questiona. Joana considera mais interessante "pensar como podemos tornar os portugueses mais envolvidos com a sua cultura, as riquezas do país e o bem-estar de quem vive à volta". E o desejo que deixa ao país não é daqueles de Aladino, está antes ao alcance de cada um. Joana gostava que "Portugal soubesse desfrutar melhor de Portugal". Não será este um óptimo mote para o romance de qualquer português?
1. O que é talento para si?
É a capacidade de identificar algo em que somos naturalmente bons, e que nos dá prazer, e depois trabalhar a 200% para sermos cada vez melhor nisso e divertirmo-nos ainda mais a fazê-lo.
2. Que características únicas acredita ter?
Não sei se são únicas, mas sei que tenho uma capacidade de entrega muito grande quando me apaixono por um projecto ou ideia. Sou obstinada e motivada, mas há quem lhe chame "teimosia"...
3. Considera que o talento português tem características comuns que são facilmente
reconhecidas?
Somos talentosos a diferentes níveis. Do que vou vendo, e por sempre ter Lisboa como base, onde volto regularmente, sou da opinião que somos altamente criativos. A cultura do "desenrasca" ensinou-nos bem. Somos talentosos, empáticos, culturalmente ricos, acolhedores, mas infelizmente deixamos que uma colectiva falta de auto-estima nos impossibilite de mostrar mais isso ao mundo.
4. Que razões a levaram ao país onde está neste momento? A escolha do país foi opção própria?
Foi. Escolhi a cidade (Berlim), mais que o país. Já vivi em muitas cidades e o ano que passei em Berlim (2007) convenceu-me de que este é o lugar onde quero passar mais tempo nesta fase em que me cansei de andar de casa às costas. Por isso voltei após meio ano em Lisboa e meio ano em Buenos Aires.
5. Que diferenças existem em relação a Portugal?
Nem sei se consigo comparar. Cada lugar oferece coisas insubstituíveis e impossíveis de reproduzir noutras cidades. Sei que neste momento o que oferece Berlim é o que me interessa viver. Mas claro que sinto a falta do ritmo de Lisboa, das pessoas, do clima. Isso não há cá.
6. O que traria da cidade onde vive para Portugal?
O multiculturalismo, a forma como convivem tantas culturas de tantos lugares longínquos, quase sem fragmentação. Poder encontrar comida, música, dança, língua, expressões culturais de todos os lugares do mundo numa só cidade é um sonho. Além disso, é anormalmente barata, em muitas coisas mais barata que Lisboa. E, sem dúvida, que levaria para Lisboa a cultura de ir de bicicleta para todo o lado e pagar pelas coisas o que cada um acha que pode dar.
7. Por que razão decidiu sair de Portugal?
A intenção nunca foi estar longe de Portugal, mas perto do resto do mundo. E como não sei fazer ambos ao mesmo tempo, nesta fase estou fora. Mas adoro o meu país e não excluo a hipótese de um dia voltar. Neste momento não penso nisso.
8. O que gostaria de fazer profissionalmente em Portugal, caso regresse?
O mesmo que faço agora, pesquisar e escrever. E gostaria muito de vir a ensinar ou trabalhar com grupos e criações colectivas, porque me fascina.
9. Se tivesse de descrever Portugal em três palavras, quais seriam?
O Mar, A Luz, As Gentes.
10. Como podemos impulsionar o orgulho dos portugueses?
Reforçando e enfatizando tudo aquilo em que somos bons e temos talento, pondo mais foco nisso e não só nos estudos que sempre indicam que estamos na cauda da Europa de uma-coisa-qualquer. Celebrando o que se faz Cá-Dentro (sem excluir o que vem de fora). Parar de tentar ser Melhor que "x" ou construir a árvore de Natal Mais-Alta ou a ponte Mais-Comprida.
11. Se lhe fosse concedida a realização de um desejo para Portugal, qual seria?
Não é um desejo digno de Aladino, está ao alcance de cada um. Gostaria de ver uma mudança ao nível da percepção e consciência das pessoas, e não só nos políticos, e que isso implicasse que se esforçasse mais para estar bem, para estar atento às pessoas da sua rua, zelar pelo bem comum, pelo estado das ruas, da cidade, das escolas, de como aprendem as nossas crianças. Para viver menos em volta da televisão e do shopping e mais nos parques e nas praias.


