09/11/09, 10:39 Por Carolina de Almeida/OJE Filipe Balestra é um arquitecto do terreno, das pessoas e das ideias. Da comunicação, da solidariedade e do desafio. De grandes e pequenos projectos, de altos voos e traços firmes. É um arquitecto do mundo e do mundo real, daqueles que gosta de meter a mão na massa. Humano e comunitário, terra-a-terra e atento aos desafios do século XXI.
Filipe é brasileiro de berço, português de coração e sueco de residência e paixão. A arquitectura da sua vida desde cedo se projectou em várias direcções e em diferentes idiomas. Nasce e vive em Copacabana, Rio de Janeiro, até aos quatro anos. Entretanto vem para Lisboa, onde cresce e permanece até ser maior de idade, altura em que viaja para Edimburgo, Escócia, para estudar Arquitectura no College of Art. Aí conhece Sara Göransson, também arquitecta; apaixona-se e, quando ela decide regressar a casa - Suécia -, vai junto. "Achei óptima ideia mergulhar noutra cultura", conta ao OJE.
Estocolmo foi a cidade que Filipe adoptou, onde tirou o mestrado em Arquitectura e onde dará aulas, na Royal University of Fine Arts, durante este ano lectivo. A capital sueca é a sua cidade-lar quando não está no Brasil, Índia, Dubai, Rússia, México, Bélgica, Noruega, Inglaterra ou qualquer outro país onde esteja envolvido num projecto. Sim, porque este arquitecto é dos que gosta de acompanhar a obra e ver, de perto, o projecto ganhar forma. O dia-a-dia de Filipe pauta-se pelo "improviso", mas o que o fascina mais na profissão é "descobrir a solução apropriada", refere.
Com 27 anos, já leva na bagagem projectos de cariz variado, mas as duas intervenções que fez nas favelas de dois países em que toda a ajuda é bem-vinda marcaram-no - a si e ao seu trabalho - para sempre. A primeira, no âmbito do projecto final do mestrado, foi uma escola na Rocinha, uma das maiores favelas do Rio de Janeiro. A segunda, um projecto de estratégia de habitação evolutiva, de 1200 casas, em Pune, Índia, de onde acaba de chegar.
Este talento especial de "inverter situações trancadas e negativas com chaves positivas", como ele mesmo explica, valeu-lhe, inevitavelmente, cognomes como "arquitecto das favelas" e arquitecto "que humaniza habitações". Mas é necessário acrescentar a estes um outro, o de "fundador de um atelier criativo", o Urban Nouveau (www.urbanouveau.com). Trata-se de uma plataforma que suporta uma rede aberta de profissionais criativos, que trabalham em arquitectura, urbanismo, design gráfico e outros assuntos urbanos.
De olhos postos no futuro, não é difícil imaginar o nome Filipe Balestra na boca do mundo, por este ou outro epíteto, associado a projectos na Europa ou na Ásia, numa das principais capitais do mundo ou numa aldeia no interior de um país distante. Fará Portugal, um dia, parte do roteiro deste arquitecto? "Adorava trabalhar em Portugal", diz, acrescentando que " gostaria de voltar para trabalhar no que realmente for necessário fazer." A resposta está dada, só falta choverem pedidos. Por que ponta deve ele começar?
RAIO-X 1. O que é talento para si? Ter talento é aceitar diferenças de um modo pacífico e usar o nosso trabalho para ajudar a melhorar a cidade, o país e o mundo dia após dia.
2. Que características únicas acredita ter? Penso conseguir inverter situações trancadas e negativas com chaves positivas. Contudo, nem sempre isto é possível, porque só se pode ajudar quem quer ser ajudado. Tudo a seu tempo.
3. Considera que o talento português tem características comuns que são facilmente reconhecíveis? O individualismo: Siza, Mariza, Ronaldo, Saramago - são todos indivíduos. Gostaria de ver mais talentos portugueses em forma de redes sociais.
4. Que razões o levaram ao país onde está neste momento? A escolha do país foi opção própria? A minha namorada é Sueca e foi ela que teve a ideia de voltar para casa, depois de estudar em Inglaterra e na Escócia. Eu achei óptima ideia mergulhar noutra cultura.
5. Que diferenças existem em relação a Portugal? Comecemos com o clima: no Inverno Sueco, não existe a luz do dia; no Verão Sueco, quase não existe noite. As diferenças culturais são enormes porque a natureza é completamente diferente.
6. Por que razão decidiu sair de Portugal? Para estudar arquitectura em Edimburgo, com 18 anos.
7. Quais são as grandes mais-valias de uma experiência, profissional ou não, internacional? A grande mais-valia foi criar amizades com pessoas com hábitos diferentes, de terras diferentes, com valores diferentes, aumentando assim o espectro de conhecimento de local para global.
8. Relaciona-se com portugueses fora de Portugal? Porquê? Viajar fez crescer uma enorme curiosidade de compreender não só as essências de outras culturas mas também como elas se relacionam. Adoro Portugal, sobretudo no contexto da sua mistura cultural, mas estou fora há oito anos e tenho pouco contacto com portugueses fora de Portugal.
9. Pretende voltar? Como e quando? Neste momento, como profissional jovem, é mais fácil crescer em território escandinavo. Assim que houver condições sustentáveis para trabalhar em Portugal, voltarei, claro!
10. O que gostaria de fazer profissionalmente em Portugal, caso regresse? Acabámos de chegar da Índia onde trabalhámos entre políticos e líderes comunitários numa estratégia para habitação evolutiva. Gostaria de voltar a Portugal para trabalhar no que for realmente necessário fazer, usando a arquitectura como instrumento de evolução da cidade e do ser humano.
11. Se tivesse de descrever Portugal em três palavras, quais seriam? Mar. Luz. Esperança.
12. Como podemos impulsionar o orgulho dos portugueses? Com políticas participativas. Quantos mais portugueses participarem na criação e implementação de ideias, mais adequados serão os resultados; gostaria de introduzir "Futurismo" como disciplina essencial no ensino secundário - há que estudar, não só o passado e a História, mas o Futuro também. Há que sonhar em conjunto.
13. Se lhe fosse concedida a realização de um desejo para Portugal, qual seria? Educação da mais alta qualidade para todos os que nascem em território Português. Isto quer dizer professores internacionais e cursos superiores para todos a custo zero.
14. Quem é o maior talento português? Porquê? Esta é uma pergunta muito pessoal, porque "o maior" não existe. Adoro Fernando Pessoa porque a sua obra continua a ter todo um significado hoje.
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