14/12/09, 10:12
A cidade de Gaudi exerceu um magnetismo tal sobre Leonor que o regresso às origens nem sequer está nos planos. "Apesar de não ser uma grande cidade como Londres e Nova Iorque, oferece tudo o que estas oferecem. Além disso tem praia e montanha. É a cidade perfeita", considera. Além de todas estas razões, podemos acrescentar uma outra: o facto de lá ter criado o seu cantinho 100% português. Mas já lá vamos.
Filha de pai lisboeta e mãe transmontana, esta portuguesa licenciou-se em Comunicação Social pela Universidade da Beira Interior, tendo iniciado a carreira como programadora do Cine Clube da Beira Interior. O cinema e a fotografia foram fazendo cada vez mais parte da sua carreira, com passagens pelo Teatro Cine da Covilhã e como produtora e programadora do festival de cinema e música IMAGO durante as oito primeiras edições.
Os ares de Barcelona, no entanto, levaram-na a uma mudança de rumo. Desde 2006 que se dedica a levar todos os dias o melhor da cultura e gastronomia nacional a catalães, turistas e compatriotas que vivam ou visitem Barcelona, através d'A Casa Portuguesa (Rua Verdi, 58 Barcelona), que abriu com o marido, Pedro Ramos. Do Vinho do Porto ao Pastel de Belém, passando pelo Queijo da Serra da Estrela e o Mel da Serra da Lousã, até às conservas La Gôndola, tudo ali cheira e sabe a português.
É então nesta sua Casa que celebra o orgulho de ser portuguesa, partilhando-o com compatriotas que começou a conhecer quando abriu a loja e outros apaixonados pela gastronomia lusa, uma das áreas de excelência dos portugueses, segundo Leonor. "A grande aposta [do País] deveria ser na nossa Gastronomia, Turismo e Cultura. Se soubéssemos valorizar de forma séria e profissional o que de melhor se faz nessas áreas, as perspectivas de futuro seriam, talvez, mais animadoras", declara.
Foi no país vizinho que Leonor encontrou o seu lugar, que é provavelmente mais português que muitos outros que encontramos por cá. Em Barcelona parece que "tudo corre um pouco melhor, quer a nível pessoal quer em termos profissionais", conta. "As pessoas são mais abertas e disponíveis para receber novas ideias e projectos", adianta esta comunicadora nata. Leonor considera que "seria importante que os portugueses se consciencializassem das coisas boas que têm e as valorizassem e defendessem como fazem, por exemplo, os espanhóis....".
RAIO-X
1. O que é talento para si?
Uma apetência natural em cada um de nós para poder criar alguma coisa especial. O importante é perceber qual o talento que nos é inato e saber desenvolvê-lo e trabalhá-lo de forma positiva ao longo da vida.
2. Que características únicas acredita ter?
Infelizmente acho que únicas não tenho nenhuma, mas tenho uma capacidade natural para comunicar com as pessoas e sou muito boa ouvinte. Dizem-me que transmito muita calma e tranquilidade. Também acho que tenho muita paciência, característica pouco comum nos dias de hoje.
3. Considera que o talento português tem características comuns que são facilmente reconhecíveis?
Somos um povo por natureza calmo e despreocupado e, em situações extremas, temos a capacidade de encontrar sempre soluções, ainda que depois, a médio prazo, venha a verificar-se que não foram as melhores. No momento conseguimos sempre "desenrascar" e isto é algo que nunca conheci em nenhuma outra cultura. Também temos uma simpatia e generosidade incomparáveis.
4. Que razões a levaram ao país onde está neste momento? A escolha do país foi opção própria?
Vim para Barcelona para fazer um Master na Universidade Autónoma em Escrita de Guião para Cinema e Televisão. A ideia era ficar por seis meses e já passaram seis anos! Escolhi Barcelona, primeiro porque o Master me parecia bastante bom e depois a questão da facilidade do idioma também teve o seu peso. Como sou da Covilhã, cidade muito perto de Espanha, sempre tive uma empatia especial com o país vizinho, pelo que quando comecei à procura das melhores escolas e vi que em Barcelona havia uma, a escolha foi
imediata.
5. O que traria da cidade onde vive para Portugal?
A diversidade de culturas. O que mais gosto em Barcelona é o facto de ser uma cidade cosmopolita e aberta a todas as culturas. Também gostaria de trazer a eficiência e o sentido de responsabilidade no trabalho...
6. Quais são as grandes mais-valias de uma
experiência, profissional ou não, internacional?
Penso que as mudanças são sempre positivas e enriquecedoras e, por vezes, quando estamos
demasiado tempo no mesmo sítio ou a fazer a mesma coisa, perdemos a capacidade de nos
distanciarmos e podermos analisar o mundo e as coisas sobre outra perspectiva. Neste sentido, penso que uma experiência fora do que estamos habituados é sempre boa e só pode trazer mais-valias a todos os níveis. Cabe depois a cada um aproveitar da melhor forma a experiência vivida.
7. Relaciona-se com portugueses fora de Portugal? Porquê?
Desde que abrimos A Casa Portuguesa em Barcelona, sim, porque comecei a conhecer muitos portugueses, mas até abrirmos a loja tinha dois amigos portugueses aqui, todos os outros eram, e continuam a ser, catalães. A maior parte dos meus amigos portugueses vive fora de Portugal entre Madrid, Berlim, Londres... em Portugal são cada vez menos!
8. Pretende voltar? Como e quando?
Não penso em voltar a Portugal. Para já, a minha vida é em Barcelona e não há nada que me faça pensar em voltar. Mas também sei que a vida dá muitas voltas...
9. Se tivesse de descrever Portugal em três palavras, quais seriam?
Tranquilidade, beleza e simpatia
10. Se lhe fosse concedida a realização de um desejo para Portugal, qual seria?
Uma lavagem cerebral em termos culturais, intelectuais e éticos à grande maioria das pessoas com altas responsabilidades de decisão. Talvez depois disto o País mudasse um bocadinho para melhor.
11. Quem é o maior talento português? Porquê?
Fernando Pessoa e Amália Rodrigues. Fernado Pessoa porque era um visionário e deixou uma marca importantíssima na cultura Portuguesa e a Amália pela força e amor que deixou com a sua música, que será eterna.


