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Foi por isso que se inscreveu no programa Inov Contacto e, na grande roleta de destinos, calhou-lhe uma das economias com o ritmo de crescimento mais acelerado no mundo - a China. Não "era uma possibilidade que me agradasse particularmente", conta ao OJE. Mas parece que, três anos depois de estar a viver em Xangai, a opinião de João se actualizou: "considero que tive bastante sorte com a colocação". É difícil não partilhar da mesma ideia, senão vejamos: João Alves é o vice-presidente da consultora em banca de investimento Capital Eight; o seu dia-a-dia não é muito diferente do quotidiano de trabalho em Portugal até chegar ao patamar das reuniões, que ali se multiplicam "quer com chineses quer com outros europeus, australianos, americanos, árabes ou sul-americanos". Onde tudo muda de figura, de facto, é no idioma. Apesar de fazer da "eterna aprendizagem do mandarim" um dos seus hobbies e de as reuniões contarem com um intérprete, João Alves confessa que vive "diversos momentos ‘Lost in Translation'" e o seu nome parece ser sempre "impronunciável". Além disso, ainda existe a questão da distância, mas tendo a tecnologia a favor dele, João considera que tudo fica mais fácil. "A massificação do transporte de longa distância nos últimos 20 ou 30 anos e o aparecimento de ferramentas de comunicação, como o MSN ou o Skype, alteram bastante a experiência do que é ser emigrante" e fazem com que esta "não comporte tantos riscos", diz.
Licenciado em Gestão pelo ISEG e com uma pós-graduação em Análise Financeira, este talento já se habituou ao ritmo alucinante de Xangai e, se pudesse, traria um pouco do "dinamismo, a capacidade empreendedora e a vontade de subir na vida" dos chineses para território luso. O que mais gosta de fazer no maior centro comercial e financeiro da China é "andar pelas ruas das antigas concessões e ver a fabulosa história de Xangai do final do séc. XIX, início do séc. XX".
Além de viajar, João Alves é apaixonado por mergulho e, se tivesse de escolher outra profissão, seria instrutor. "Não tenho visto gente muito mais feliz que os instrutores de mergulho que conheci na Austrália, Filipinas ou Malásia", diz. Mas quando voltar a Portugal - neste momento não pensa muito nisso, "porque gostaria de ter outras experiências antes de regressar" -, o português gostaria de fazer algo na área da Educação.
E é a Educação que sublinha quando lhe questionamos o que está por fazer em Portugal para que surja no mapa dos países mais importantes no mundo. Apesar de considerar que não deva ser esse o objectivo, o gestor acredita que "podemos, e devemos, ser muito melhores do que somos" e "tudo começa na Educação".
Como tal, deixa pistas concretas: "o domínio de conhecimentos técnicos, como a matemática, a proficiência em línguas estrangeiras, sobretudo o inglês, o fomento da criatividade e de uma cultura de exigência, são alguns dos elementos que podem formar a base para o sucesso futuro".
RAIO-X
1. O que é talento para si?
A capacidade de fazer de forma diferente, de surpreender, de deixar uma marca única.
2. Que características únicas acredita ter?
Únicas não serão, mas úteis de certeza. Numa área como a consultoria/banca de investimento, a capacidade de ouvir e entender rapidamente o que se pretende e a adaptabilidade para trabalhar em diferentes projectos, sectores, países, etc são fundamentais.
3. Considera que o talento português tem características comuns que são facilmente reconhecíveis?
Não sei se haverá uma característica comum, resultante apenas da nacionalidade. Será que Siza Vieira tem algo em comum com Saramago ou Damásio (só por serem Portugueses) que não tem com Calatrava ou Pei e que teve impacto no seu sucesso?
4. Que razões a levaram ao país onde está neste momento? A escolha do país foi opção própria?
Vim para a China através do programa Inov Contacto. A escolha não foi minha nem sequer era uma possibilidade que me agradasse particularmente - três anos depois considero que tive bastante sorte com a colocação em Xangai.
5. Que diferenças existem em relação a Portugal?
Muitas! A concentração de pessoas (sempre são 20 milhões...), o caos nas ruas, a poluição sonora e atmosférica, a censura na Internet e nos jornais, a comida, a explosão de ideias e de vontade de fazer, o optimismo, as chocantes diferenças de níveis de riqueza, a pontualidade... dava um livro!
6. Relaciona-se com portugueses fora de Portugal? Porquê?
Sim, bastante, mas não só. Tendo vindo para a China com um grupo relativamente grande de "Contacteantes", ao final de três anos o relacionamento entre os que foram ficando é bastante forte e foi complementado por alguns outros que entretanto chegaram. Mais uma vez, embora em Portugal fossemos provavelmente pessoas muito distintas, estando fora vemos muito mais aquilo em que somos parecidos - o futebol que jogamos duas vezes por semana, a comida de que sentimos falta, o gosto por fazer férias de praia, os comentários às notícias que chegam de Portugal, a discussão sobre porque é que o país "não anda para a frente", a língua que mais ninguém entende (nem por vezes os brasileiros!) e os nomes impronunciáveis (João!).
7. Se tivesse de descrever Portugal em três palavras, quais seriam?
Na China, as três palavras que descrevem Portugal são: Cristiano Ronaldo, Figo e Mourinho. Era bom que fosse diferente (é pena pensar que, pelo menos no Oriente, Portugal é futebol e pouco mais). Talvez Mar/Praia, Hospitalidade e Desilusão (infelizmente).
8. Como podemos impulsionar o orgulho dos portugueses?
Actualmente o orgulho nacional assenta, quase exclusivamente (ou exclusivamente), nos Descobrimentos. Tendo sido importantes há 500 anos atrás, há exemplos mais actuais que também podem encher-nos de orgulho: a boa organização da Expo98 e do Euro2004, Portugal como destino turístico escolhido por milhões de pessoas, as distinções individuais de que tantos Portugueses foram alvo, os produtos nacionais de qualidade, etc. Julgo que a responsabilidade desse impulso não passa pelo Governo (tipicamente culpado por tudo o que está mal e criticado por tudo o que não faz). Passa, em alguma medida, pelos media que podiam, sem esconder o que está mal, dar mais destaque ao que se faz bem. Mas passa, sobretudo, por cada um de nós, que prefere concentrar-se no que é mau ou que escolhe olhar para o que é bom e sentir-se inspirado/motivado para fazer igual ou melhor.


