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O MUNDO NÃO CHEGA
The Star Tracker
23/11/09, 10:16
Por Carolina de Almeida/OJE

João Mesquita voou para Brasil a pensar que iria ficar dois anos a trabalhar por lá. Entretanto já passaram seis e ainda não tem data para regressar. "Enquanto a família não quiser voltar, continuaremos pelo mundo fora", refere o português ao OJE. 


Não foi difícil a João, à sua mulher e aos seus dois filhos renderem-se ao alto astral do Rio de Janeiro. Mas o segredo é pensar global e se o Rio é a paragem do presente, podemos até arriscar que Portugal não deverá ser o destino seguinte. "Há muitos países para conhecer. Portugal é pequeno e as oportunidades são escassas", confessa. João Mesquita é daqueles que pensam em grande e parece não haver mundo que caiba nos seus horizontes.

Licenciado em Organização e Gestão de Empresas pelo ISCTE e com um General Management Program na Harvard Business School, João Mesquita é, desde 2003, o director-geral da Telecine Brasil, produtora de oito canais de filmes para a televisão paga. Foi este projecto que o aliciou a trocar de continente e a substituir  um pequeno mercado por um "gigante e em crescimento, com uma dinâmica ímpar".

Esta não é a primeira incursão do português pelos trilhos do audiovisual. Anteriormente, João foi administrador-delegado da Premium TV Portugal (2000-2003), depois de ter dirigido o departamento de Marketing da Tempus Internacional (Swatch) e de ter passado pela área de produtos pessoais da Unilever.

Lá no Rio, do outro lado do Atlântico, o dia-a-dia de João Mesquita é exactamente como se poderia imaginar: "divertido, variado, cheio". E a coisa melhora quando se tem "a absoluta confiança dos sócios para as decisões estratégicas", como é o caso de João. "A minha equipa é simplesmente de sonho. Pessoas cheias de drive, divertidas, focadas, muito diferentes. Que mais posso querer?" A questão fica no ar e quando lhe perguntamos o que mais adora no trabalho, a resposta é redundante: "Tudo o que descrevi. É uma mistura única. Adoro vir trabalhar cada manhã".

Para este cenário contribuirá, também, essa "alegria de viver do povo" brasileiro, tão característica. E um pouco, talvez, dessa energia vibrante que é estar a viver uma experiência internacional. Para este português, "viver e trabalhar fora num país que é tão diferente pela dimensão, cultura e a própria distância, abre o espírito e faz perceber que o mundo vai bem para além de Badajoz".

Apesar de ainda não estar nos planos o regresso a Portugal, João Mesquita gostaria de, quando voltasse, fazer alguma coisa que o mantivesse "aberto ao mundo, conectado com outros países e mercados". Parece que não há mesmo outro caminho para este empreendedor que não seja o de pensar global - e sonhar em grande: a  viagem ideal é uma volta ao mundo com a família. O espírito aventureiro é, de facto, o que este talento identifica como uma das áreas de excelência dos portugueses, a par da capacidade de improvisação.

João acredita que a globalização é uma chave que deve estar na posse de todos e uma das formas de impulsionar o orgulho dos portugueses é obrigar "as crianças a ler na escola o livro ‘A Primeira Aldeia Global' de Martin Page". Talvez assim, quando forem crescidas e lhes perguntarem "se tivesse de escolher outra profissão qual seria?", também respondessem, sem medo de voos demasiado altos, "ser dono de uma companhia aérea", como João Mesquita.


RAIO-X 
1. O que é talento para si?
Talento é a capacidade de fazer alguma coisa (útil) muito melhor que os outros.
 
2. Que características únicas acredita ter?
O meu talento está na capacidade de conjugar três características que juntas têm algum valor: criatividade e imaginação; raciocínio rápido e articulado; e muita tolerância e paciência para me relacionar com os outros.
 
3. Considera que o talento português tem características comuns que são facilmente reconhecíveis?
Os portugueses são conhecidos por serem trabalhadores e sérios. Não são mais inteligentes nem mais criativos que os outros.
 
4. Que razões o levaram ao país onde está neste momento? A escolha do país foi opção própria?
Vim para o Brasil para exercer a função actual. Gostei da proposta, gostava do Brasil e a família concordou. Viemos por dois anos e já passaram seis. 
 
5. Que diferenças existem em relação a Portugal?
Muitas. É um mercado gigante e em crescimento com uma dinâmica ímpar. O povo é meio bagunçado; falta infraestrutura; muita burocracia;  (herança portuguesa, italiana e espanhola...) mas todos vivem felizes, optimistas e com um sorriso na cara sempre acreditando que há solução.
 
6. Quais são as grandes mais-valias de uma experiência, profissional ou não, internacional?
Portugal é pequeno e vive fechado. Resquícios do salazarismo. Viver e trabalhar fora, num país
que é tão diferente pela dimensão, cultura e a própria distância, abre-nos o espírito e faz-nos perceber que o mundo vai bem para além de Badajoz.
 
7. Relaciona-se com portugueses fora de Portugal? Porquê?
Com alguns mas não é uma prioridade. Sempre acaba por haver alguma identificação. Temos valores e formação comuns; temos histórias parecidas. Mas não vivemos com qualquer nostalgia de Portugal e dos
portugueses.
 
8. Pretende voltar? Como e quando?
Voltarei quando acontecer mas prefiro continuar fora de Portugal. Há muitos países para conhecer. Portugal é muito pequeno e as oportunidades são escassas e pouco interessantes. Enquanto a família não quiser voltar, continuaremos pelo mundo fora.
 
9. O que gostaria de fazer profissionalmente em Portugal, caso regresse?
Alguma coisa que me mantenha aberto ao mundo, conectado com outros países e mercados.
 
10. Se tivesse de descrever Portugal em três palavras, quais seriam?
Para mim: família, sol e mar. Se tentar descrever a outro que não conheça o nosso país: praia, tempo ameno e boa comida. 
 
11. Como podemos impulsionar o orgulho dos portugueses?
Obrigando as crianças a ler na escola o livro  "A Primeira Aldeia Global" de Martin Page.
 
12. Se lhe fosse concedida a realização de um desejo para Portugal, qual seria?
Que descobrissemos petróleo. Muito petróleo.
 
13. Quem é o maior talento português? Porquê?
Hoje é o Cristiano Ronaldo. Destaca-se na sua área de actuação como nenhum outro português. Pela juventude, garra, drive e ambição. Não tem concorrência. E faz mais pela imagem de Portugal que o ICEP e todas as campanhas institucionais.

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