>Maria Gomes-Solecki licenciou-se em Medicina Veterinária na Universidade Técnica de Lisboa em 1992. É professora assistente no departamento de Ciências Moleculares da University of Tennessee Health Science Center e acumula funções como vice-presidente e directora científica da sua empresa, a Biopeptides Corp.
>É muito provável que daqui a um par de anos estejamos todos orgulhosos desta madeirense e da sua empresa. É que o maior projecto da Biopeptides é o estudo de uma vacina veterinária que elimina uma bactéria nos roedores e nas carraças, protegendo indirectamente o Homem da Doença de Lyme.
>Esta portuguesa considera que em Portugal "há uma grande dificuldade em reconhecer e galardoar portugueses que contribuíram para o progresso na nação" e, sem meias palavras, diz que "somos muito somíticos quando se trata de reconhecer a contribuição de conterrâneos". No caso do seu projecto, estamos a falar de uma descoberta para a humanidade. Fará Portugal, enquanto país natal desta cientista, o seu papel?
>Directa e muito pouco modesta, apaixonada pelo que faz e mãe de "duas meninas ainda pequeninas", esta portuguesa não poupa críticas ao país que a viu nascer. "As características culturais como o negativismo e a excessiva modéstia portuguesa não ajudam ao desenvolvimento do talento natural das pessoas", declara, acrescentando que "a atitude do ‘can do' é uma das minhas características que nos EUA resulta muito bem". Um bom primeiro passo seria alterar a educação da próxima geração de portugueses. "Temos de estimular as crianças com críticas construtivas em vez de negativas", diz.
>No entanto, para se ter uma ideia perfeita do que é Portugal, há que ter uma experiência no estrangeiro, diz. Só quando foi viver para os EUA é que Maria teve a "capacidade única de olhar e finalmente ‘ver' Portugal". E o que viu também foi um "povo pacífico" e hospitaleiro, explorador e curioso "por ser inspirado pelo mar" e conseguir planear o amanhã. "Nisto os americanos são péssimos", conta, "só pensam no dia-a-dia". Agora, daí a abandonar o "oásis científico", como chama aos EUA, e regressar definitivamente a Portugal, é um passo "que duvida muito". Mas não descarta a hipótese de viver dois meses no pequeno rectângulo (em Cascais), até porque gostava que as filhas aprendessem o português. "E acho que essa será a única maneira..."
1. O que é o talento para si?
>É a capacidade de traduzir ou render ideias ou conceitos inovadores em expressões quotidianas da vida humana.
>2. Que características únicas acredita ter?
>Sou bastante ambiciosa, competitiva, concentrada e muito, muito persistente. Também acho que pertenço a um grupo de portugueses que não tem complexos de inferioridade em relação a outras etnias. Creio que somos tão bons como os alemães, americanos, japoneses, ingleses, etc, daí que não tenho medo de competir com eles. Outra característica, é que, desde muito nova, sempre fui capaz de retirar algo construtivo de qualquer crítica negativa. Esta capacidade resulta em resistência face a situações adversas.
>3. Considera que o talento português tem características comuns facilmente reconhecidas?
>Não, mas acho que características culturais como o negativismo e a excessiva modéstia dos portugueses não ajudam ao desenvolvimento do talento natural. O talento talvez tenha características comuns e tem que ser estimulado desde muito cedo, mas certamente não terá nada a ver com etnias ou nacionalidades.
>4. Que razões a levaram ao país onde está neste momento? Foi opção própria?
>Foi uma oportunidade que apareceu no momento certo da minha vida. Mas é preciso ter em consideração que as oportunidades também se procuram. Esta oportunidade surgiu quando estava em França, porque já tinha tomado a decisão de sair de Portugal. A escolha do país foi ao acaso. Nunca tinha pensado emigrar para os EUA.
>5. Que diferenças existem em relação a Portugal?
>Milhares. A cultura dos EUA é absolutamente antagónica face à de Portugal. A cultura norte-americana é muito aberta, no sentido de ser democraticamente tolerante, e é extremamente optimista. É exactamente o contrário da cultura portuguesa, que é bastante autoritária e doentiamente pessimista.
>6. O que traria da cidade onde vive para Portugal?
>Neste momento vivo em Memphis, no sul dos EUA (Tennessee). É uma cultura completamente diferente do nordeste (Nova Iorque), onde vivi muitos anos. É muito mais europeia, mas não no sentido moderno liberal, antes no sentido antigo, colonial. Traria de Memphis a música e a apreciação e suporte social pela arte em geral.
>7. Por que razão decidiu sair de Portugal?
>Tenho uma personalidade de experimentalista. Afinal, sou cientista porque tenho uma constante necessidade de explorar e saber. Também gosto de estar numa situação em que não haja falta de oportunidades. E em Portugal havia muita falta de oportunidades quando eu saí, em 1995.
>8. Quais são as grandes mais-valias de uma experiência internacional (profissional ou não)?
>Toda a experiência internacional traz uma mais-valia palpável à vida de quem escolhe viver fora do seu país de origem por algum tempo. Uma delas é a capacidade única de olhar para o meu país natal e finalmente "ver" Portugal, porque quem nunca saiu não vê, não tem ponto de comparação nem medida. Tive a sorte de ir para um país que se adequa bem ao meu carácter. E, claro, faço sempre comparações entre as duas culturas, é como comparar filhos....
>9. Relaciona-se com portugueses fora de Portugal?
>Sim, com portugueses que têm os mesmos interesses que eu e que também estão completamente integrados nos EUA. Agora estou a ficar mais sensível à população de americanos descendentes de portugueses, que tal como os seus antepassados, são uma população apagada, com pouca projecção nacional.
>10. Pretende voltar? Como e quando?
>Volto todos os anos de férias, mas duvido que regresse definitivamente. Uma situação em que viva em Portugal cerca de dois meses por ano não está fora de questão. Gostava que as minhas filhas aprendessem português e acho que essa será a única maneira...
>11. O que gostaria de fazer profissionalmente em Portugal, caso regresse?
>Não consigo dissociar a minha vida pessoal e profissional do país onde vivo, de modo que teria de continuar a dirigir a minha empresa Biopeptides Corp., algo que pode ser feito à distância por um curto período do ano.
>12. Se tivesse de descrever Portugal em três palavras, quais seriam?
>Pacífico, lindo, hospitaleiro (incluindo as ilhas).
>13. Como podemos impulsionar o orgulho dos portugueses?
>A primeira coisa que temos de atacar na nossa cultura é o negativismo virulento, completamente generalizado. Tem de se educar as próximas gerações de portugueses a serem mais positivas e a terem mais auto-estima.
>14. Se lhe fosse concedido um desejo para Portugal, qual seria?
>Que o povo deixe de considerar que a culpa dos seus problemas é toda do governo. Nos EUA chama-se "personal responsability, accountability", e "to give back to society" por parte do indivíduo. Que se dê crédito a quem lhe é devido. Em Portugal há uma grande dificuldade em reconhecer e galardoar portugueses que contribuíram para o progresso da nação. Somos muito somíticos quando se trata de reconhecer a contribuição de conterrâneos! E este hábito de reconhecer excelência tem de começar cedo nas escolas
>14. Quem é o maior talento português?
>No mundo empresarial, o Manuel Pestana (Hotéis Pestana) e o Belmiro de Azevedo, na literatura, José Saramago; nas artes, a artista plástica Joana Vasconcelos, que espero que venha a expor no MoMa, em Nova Iorque; na política, Cavaco Silva, pelo que fez pelo país quando foi primeiro-ministro; no campo das ciências biomédicas, os Damásio, Hanna e António; no campo filantrópico, Joe Berardo e no futebol, o Cristiano Ronaldo, claro! Entre os talentos que já não estão connosco: o Champalimaud, filantropo, e os capitães de Abril, sobretudo o capitão Salgueiro, que me permitiram crescer em liberdade.