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Art Cars: Criatividade em movimento
Automóveis
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10/05/11, 10:38
Por Armanda Alexandre

A BMW procedeu a uma recolha de carros, mas pelo melhor dos motivos. Para assinalar os 35 anos dos Art Cars, a fabricante alemã chamou a Munique 15 dos 17 modelos da colecção, exposta pela primeira vez como um todo. Até 30 de Setembro, no museu da marca.
Desde 1975 que artistas de todas as partes do mundo têm vindo a criar peças únicas ao intervirem nos BMW do seu tempo, a convite da construtora alemã. Até agora, quem quisesse ver a colecção de arte em movimento da marca, da autoria de criadores como Roy Lichtenstein, Andy Warhol, Ernst Fuchs ou Jeff Koons, tinha de viajar pelo globo. Isto porque os veículos têm sido expostos de forma individual, ou parcialmente, em museus como o Louvre, em Paris, a Royal Academy em Londres, o Whitney Museum of American Art em Nova Iorque, o Palácio Grassi em Veneza, o Powerhouse Museum em Sydney, ou os Museus Guggenheim em Bilbau e em Nova Iorque. Mas no final de 2010, e para comemorar o 35.º aniversário do conceito, a maior parte da colecção foi reunida no museu da BMW, onde os visitantes podem ver de perto arte com identidade da marca, até ao final de Setembro próximo.


 
Arte sobre rodas
Ao contrário da maioria das empresas, que investem em arte, adquirindo obras de pintura, escultura... a BMW apostou no próprio produto como forma de arte. A colecção Art Cars é única no mundo, onde o produto da marca é o veículo da obra em si, e em que esta não interfere no design - não altera a forma do carro, conferindo-lhe a linguagem própria do artista.
No entanto, a actual colecção de 17 exemplares surgiu por mero acaso.
O arranque do conceito dá-se em 1975, ano em que o leiloeiro e piloto de corridas Hervé Poulain entrou nas 24 Horas de Le Mans. Poulain comentou com o amigo, o conhecido escultor Alexander Calder, que gostava de combinar o mundo da arte com o das corridas de carros, ideia que agradou a Calder. Só tinham de encontrar uma marca automóvel disposta a arriscar. Um amigo de ambos, o piloto de ralis Jean Todt, sugeriu que entrassem em contacto com a BMW, e assim o fizeram. A marca foi de tal forma receptiva, que em poucas semanas disponibilizou um carro para testarem o conceito. E assim surgiu o primeiro Art Car, com o BMW 3.0 CSL, modelo com o qual Hervé Poulain correu em Le Mans, personalizado por Alexander Calder. Na altura, para a BMW, a experiência não passou disso mesmo, de uma experiência. A empresa germânica não pensava sequer numa colecção. Mas, nos anos que se seguiram, a combinação única do mundo das corridas com a arte e o design da BMW captou a atenção de vários artistas famosos, como Frank Stella, Roy Lichtenstein ou Andy Warhol, que transformaram modelos de corrida da BMW em Art Cars.
Nos anos 80, a BMW tinha conquistado o seu lugar no mercado internacional. E dentro da empresa já se falava em colecção e de como se devia alargar a filosofia a outros continentes. Em 1989, os colaboradores da companhia na Austrália propuseram avançar com um Art Car que simbolizasse o país. Nesse ano, não um, mas dois artistas australianos imprimiram o seu cunho, e o da sua nação, a carros da marca. Em 1990, foi a vez de o nipónico Matazo Kayama combinar as formas de arte tradicionais do Japão com a tecnologia e design alemães. Nesse mesmo ano, o espanhol César Manrique pintou o seu Art Car. Em 1991, dois novos artistas passaram a fazer parte do projecto, o alemão A. R. Penck e a sul-africana Esther Mahlangu (a primeira mulher a criar um Art Car). Mais três artistas e modelos fariam parte da colecção nesta década.
E se os anos 90 foram profícuos para o projecto, na década seguinte o primeiro Art Car, o 16.º, surgiria só em 2007, mas conduziu a colecção a outro nível, com o carro, e todos sinais distintivos da marca, como o logótipo, a "desaparecerem" pela primeira vez sob a segunda pele criada pelo artista, Olafur Eliasson. O 17.º Art Car, de 2010, é a mais recente peça de arte da colecção. E a marca diz que não tem pressa em avançar para outra experiência, adiantando que só por volta de 2014 surgirá outra obra sobre rodas. Até lá, e de futuro, os modelos existentes são um testemunho da união entre arte e tecnologia em exposições internacionais.


Cronologia

1975 BMW 3.0 CSL - Alexander Calder
Na primeira obra de arte sobre rodas, o escultor americano Alexander Calder usou apenas cores primárias. As diferentes tonalidades nos elementos individuais do carro conferem a ilusão de movimento. A apresentação do veículo como uma obra de arte fez sensação na altura. O primeiro BMW Art Car foi uma das últimas grandes obras de Alexander Calder, que morreu em 1976.


1976 BMW 3.0 CSL - Frank Stella
Esta obra de linhas rectas é inspirada no papel milimétrico, intensificando o aspecto geométrico do carro, que participou nas 24 horas de Le Mans, e foi aguardado com expectativa pelo mundo artístico após o primeiro Art Car. Com este trabalho, Frank Stella entrou de tal forma no espírito das corridas de carros, que se tornou piloto. E a ideia de colecção começava a tomar forma.


1977 BMW 320 Grupo 5 - Roy Lichtenstein
Com o estilo inconfundível do artista norte-americano Roy Lichtenstein, o carro que espelha o local por onde passa: o céu, o sol, a relva... é um dos mais populares da colecção. A marca demorou seis dias e seis noites a passar o desenho de Roy Lichtenstein para o modelo. Apresentado no Centro Pompidou de Paris em 1977, ficou na 7.ª posição nas 24 Horas de Le Mans nesse ano.


1979 BMW M1 - Andy Warhol
O carro mais valioso da colecção foi o primeiro a ser directamente pintado pelo próprio artista (com base no modelo da maquete), e em apenas 28 minutos. Warhol explicou que as pinceladas rápidas e de cores vivas tentam dar a sensação de velocidade, uma vez que quando o carro circula a grande velocidade as cores e linhas se transformam numa mancha. O carro ficou na 2.ª posição na sua classe em Le Mans e no 6.º lugar na geral, representando a melhor prestação dos modelos da colecção na corrida até hoje.


1982 BMW 635CSi - Ernst Fuchs
Este foi o primeiro carro a ser pintado por um artista europeu, o austríaco Ernst Fuchs. O pintor, escultor, músico e arquitecto concebeu o modelo desde o início como uma peça de exposição e não um carro para ser levado para a estrada ou para as corridas. Chamas em movimento saem do motor e das rodas; no capô, um coelho salta por cima das labaredas, simbolizando a derrota do próprio medo.


1986 BMW 635CSi - Robert Rauschenberg
Neste museu sobre rodas, o pintor americano quis combinar a cultura europeia com o novo mundo, e com impressões da natureza. O carro é visto não só como meio de transporte, mas como um veículo de ideias do mundo. Esta foi a primeira edição em que o artista usou métodos de fotografia para transferir imagens para o modelo (incluindo de quadros clássicos famosos). O carro esteve exposto nesse ano na Galeria BMW em Nova Iorque, e em 1988 em Berlim Ocidental. Desde então foi exibido pela Europa e, em 1997, foi uma das peças centrais na retrospectiva de Rauschenberg no Museu Guggenheim de Nova Iorque.


1989 BMW M3 - Michael Jagamara Nelson
Em sete dias, o artista australiano transformou um carro preto num exemplo de arte aborígene Papunya, cujas formas abstractas simbolizam a Austrália, incluindo a água, o canguru ou o gambá. O autor aborígene quis veicular uma paisagem vista a partir do ar, de um avião. Para o artista, o processo de pintar o modelo foi uma forma de diálogo com o seu pai, que tinha morrido há pouco tempo.


1989 BMW M3 - Ken Done
Dois carros no mesmo ano, do mesmo modelo e de dois conterrâneos. As semelhanças terminam aqui, porque as cores vivas e pinceladas vigorosas de Done simbolizam uma Austrália moderna, com o sol, as praias e as paisagens semitropicais. O autor quis que o carro parecesse em movimento, mesmo quando estacionado. Para tal desenhou retratos abstractos de papagaios e peixes-papagaio, dois animais típicos do seu país e que se movem a grande velocidade.


1990 BMW 535i - Matazo Kayama
O artista nipónico baseou este trabalho num anterior, "Neve, lua e flores de cerejeira", mas com uma interpretação diferente, ao usar técnicas japonesas como a Kirigane (cortar formas em metal) e a Arare (impressão em folha). Matazo Kayama quis combinar as formas de arte tradicionais do Japão com um objecto de arte moderno. Os flocos de neve e os rios fluem de forma irregular pelo centro do carro, conferindo a ideia de movimento.


1990 BMW 730i - César Manrique
O arquitecto, paisagista, artista gráfico e escultor espanhol também era ambientalista, o que o inspirou a conceber uma obra que fosse a combinação entre tecnologia e natureza, dando a impressão de o carro deslizar pelo ar sem qualquer resistência, com cores vivas que simbolizam movimentos graciosos. César Manrique colocou olhos nos espelhos laterais, como que a dizer "olha para onde vais". Dois anos após ter criado o Art Car, o artista morreu num acidente de carro na sua terra natal, Lanzarote.


1991 BMW 525i - Esther Mahlangu
O primeiro carro da colecção assinado por uma mulher não se encontra no museu da BMW, está exposto no Museu de Arte e Design (MAD), em Nova Iorque. Mas não é por isso que deixamos de falar na obra da artista sul-africana, que usou as cores e formas ornamentais típicas da arte tribal Ndebele. A pintora quis unir a sua herança cultural à modernidade do modelo, e adorou poder levar a arte da sua tribo a um público mais alargado.


1991 BMW Z1 - A. R. Penck
Existem 8 mil carros Z1 no mundo, mas o artista alemão A. R. Penck transformou este numa obra de arte única, inspirado no trabalho de artistas como Picasso e Rembrandt, bem como nas pinturas nas cavernas ou o fascínio que tem pela matemática e pela física. O facto de ser arte sobre tecnologia, sobretudo a ideia de arte num elemento em 3D, captou a atenção de Penck, que colocou os seus conhecidos traços, a preto, sobre o modelo encarnado.


1992 BMW Série 3 - Sandro Chia
As silhuetas e retratos do pintor de origem italiana desafiam o observador a ver-se ao espelho. Para Sandro Chia, que demorou três dias a finalizar a sua obra, um carro é um objecto cobiçado na nossa sociedade, está exposto aos olhares, e o artista decorou a superfície do modelo para representar esses mesmos olhares. Tal como César Manrique, Sandro Chia pintou olhos nos espelhos laterais.


1995 BMW 850CSi - David Hockney
A 20 de Abril de 1995, o britânico David Hockney pôs a assinatura no 14.º Art Car, completando meses de trabalho. O autor quis retratar o interior do carro no exterior, daí ver-se o conteúdo do carro, o contorno do condutor na porta ou até o cão atrás do assento do condutor. O animal é o "Stanley", um dos dois dachshund (cães salsicha) do pintor. Imagem que o autor disse não ser precisa, uma vez que os seus cães vão sempre sentados ao seu lado, à frente.


1999 BMW V12 LMR - Jenny Holzer
A segunda mulher a trabalhar um Art Car inscreveu mensagens provocadoras como "Protege-me do que eu quero" ou "Falta de carisma pode ser fatal", em folha brilhante e leve, para evitar acrescentar peso ao carro de 12 cilindros, que haveria de completar uma etapa de honra em Le Mans. Crítica da sociedade ocidental, a artista conceptual americana cresceu no entanto rodeada de carros, uma vez que o pai era dono de um stand de automóveis.


2007 BMW H2R - Olafur Eliasson
Com esta obra, o dinamarquês de origem islandesa Olafur Eliasson abordou questões críticas sobre o aquecimento global. O artista quis chamar a atenção para a direcção que o globo está a tomar e as consequências do nosso comportamento. O carro a hidrogénio serviu de palco criativo, ao ser substituído por uma estrutura de metal, borrifada por cerca de mil litros de água que se converteram em várias camadas de gelo, e exposto a uma temperatura de -10 Celsius. O carro metamorfoseou-se num casulo, com uma luz intensa amarela a emergir por entre a estrutura de tipo filigrana gelada. No sentido de manter a "criatura" viva, esta teve de ser colocada numa espécie de câmara frigorífica. Assim, e por ser um trabalho de difícil manutenção, este é o único Art Car que não está patente ao público.


2010 BMW M3 GT2 - Jeff Koons
O 17.º e mais recente Art Car foi apresentado ao público em Junho de 2010 no Centro Pompidou, em Paris. A explosão de cores deste carro que participou nas 24 Horas de Le Mans transmite poder, movimento e energia. Ao inscrever o n.º 79 no capô e nas portas, o artista americano Jeff Koons quis homenagear o ano em que Andy Warhol assinou o seu BMW M1. Entretanto, na primeira metade de Maio o carro deixa de ser parte integrante da exposição, uma vez que vai fazer um tour pela Ásia.
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