São poucos os antiquários temáticos e mais raros ainda os que conciliam duas especialidades. O Antiquário do Chiado junta, no mesmo estabelecimento, as antiguidades e o amor pelos livros.
Intitula-se, assim, Antiquário-Livreiro e vende indiscriminadamente obras de arte antiga e livros; a uni-los, o suporte, ou seja, o papel. Aqui, tanto podemos encontrar belos desenhos, como gravuras, ilustrações ou, claro está, livros raros. Neste universo tão vasto, é difícil fazer uma eleição. Optamos por seleccionar a raridade e a antiguidade.
Elegemos, entre muitas obras passíveis de serem comentadas, um mapa representando a costa da Estremadura portuguesa, datado de 1583. O tipo de mapa em questão inclui-se na categoria dos Portulanos, palavra que designa aqueles roteiros usados pelos navegadores com informações preciosas sobre correntes, marés, bancos de areia, relevos da costa... Estas cartas marítimas de origem medieval serviam essencialmente para a navegação de cabotagem, principalmente nas zonas do mundo mais conhecidas, como as do Mediterrâneo. Quando a expansão portuguesa ampliou incomensuravelmente a escala dos mares e oceanos, seguir estas instruções náuticas deixou de ser possível. Criou-se, então, o sistema de projecção conhecido por Mercador, onde se cruzam uma série de linhas de paralelos e meridianos, através das quais os pilotos podem traçar o seu rumo (o sistema ainda hoje usado). Isto não significa que os Portulanos, ou roteiros dos portos, não continuassem a ser usados, pelo menos até ao século XVII.
Além disso, vários destes roteiros foram passados a gravura e publicados ao longo do século XVI, sendo Lucas Janszoon Waghenaer quem primeiro teve a ideia de compilar uma série de cartas numa só obra. Embora algumas tenham sido produzidos desde 1583, como esta que se encontra à venda no Antiquário do Chiado, foram apenas editadas no ano seguinte, na casa de Plantin Moretus, em Antuérpia. Os irmãos Jan e Baptista Doeticum foram os responsáveis pela abertura das gravuras, muitas delas pintadas, numa tradição que vem da habitual iluminação destas obras consideradas quase preciosas. A compilação de Waghenaer acrescentava ainda algumas indicações escritas importantes para a navegação, como os níveis de profundidade, os locais de ancoragem, os rochedos e outros obstáculos que poderiam por em perigo as embarcações. A tudo isto, juntava os detalhes pictóricos que representavam as terras, com as montanhas, as cidades, os castelos e, no mar, as belas naus, os monstros marinhos, peixes e baleias, bem como as ricas cartelas, espécie de molduras de enrolamentos, imitando trabalhos de couro. Estas cartelas funcionavam como uma marca dos gravadores de Antuérpia e divulgaram-se de tal forma, nos últimos anos do século XVI, que se transformaram em verdadeiros ornamentos, constando em todas as formas das artes decorativas: do mobiliário às decorações parietais e arquitectónicas, da joalharia à ourivesaria e mesmo ao vestuário, todos os criadores incluíram nas suas obras, pelo menos em Portugal, este tipo de adorno.
A peça do Antiquário do Chiado é a prova clara de que cada antiguidade contém em si um discurso, aparentemente insondável. O deleite, o gozo, proveniente da descoberta deste "mistério", não tem preço.