O bailarino, actor e coreógrafo belga Wim Vandekeybus (n. 1963) - director da companhia Última Vez, que fundou em 1987 - está de regresso a Portugal, apresentando-se no Teatro Municipal de Almada, pela primeira vez, com a sua peça "nieuwZwart" (O novo preto), estreada no ano passado.
A coreografia desenha um mundo à beira do caos, projectando-o através de uma confluência extremamente inventiva de linguagens artísticas, sendo interpretada por sete bailarinos que trabalham com Vandekeybus pela primeira vez.
A obra baseia-se num poema de Peter Verhelst, belíssimo lamento existencial que evoca a solidão da viagem e dos elementos naturais que a rodeiam (recitado em cena por Kylie Walters).
Criada por Maruo Pawlowski - que a interpreta com o grupo de rock belga dEUS -, a banda sonora de "nieuwZwart" integra música de Jim Morrison (American prayer), David Bowie e Siouxsie, The Banshees e Bauhaus.
"Um regresso a algo de real no movimento, a que outros mais tarde chamaram dança", eis a definição, sucinta e algo provocadora, que Wim Vandekeybus nos dá do seu próprio princípio básico de criação. Provocadora por recusar a palavra que mais obviamente descreveria o seu trabalho.
Ao ser entrevistado, costuma pôr em questão conceitos como "dança" ou "coreografia", preferindo usar palavras ligadas ao teatro; descreve-se como "encenador" e chama "peças" às suas performances.
A propósito de "7 for a Secret never to be told" (1997), declarou, ao ser entrevistado por um jornal alemão: "Interessa- -me menos a dança pura do que aquilo que pode ser expresso pela dança". Porquê este problema com o vocabulário da dança? Tal cepticismo relacionar-se-á, indubitavelmente, com o facto de Vandekeybus não possuir qualquer formação específica em dança. Quando selecciona os seus bailarinos, a formação ou a experiência de dança não são os critérios mais importantes (se bem que, ao longo dos anos, dançarinos formados e profissionais tenham integrado o grupo Última Vez). Seja como for, é óbvio que a linguagem de dança de Vandekeybus não se desenvolveu inicialmente dentro de um diálogo com as tradições moderna e clássica da dança, ou como uma reacção contra estas. Vandekeybus vai buscar inspiração a outras áreas: a sua familiaridade com animais, a luta-dança estilizada do tango, o esforço físico, o risco físico, o mundo bizarro e mágico de escritores como Paul Bowles, Italo Calvino, Milorad Pavió, Julio Cortázar...
As performances de Vandekeybus são uma dramatização do perigo, do risco a que o corpo se entrega. O bailarino força o seu corpo até aos limites do perigo, e para além destes: aqui, terá de confiar nas suas reacções instintivas ou nas dos outros corpos em palco.
A catástrofe é algo que não podemos prever nem racionalizar. Num momento, não se passa nada; no momento seguinte, ocorre a catástrofe.