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Montepio
Crítica do OJE: Filipa Pato
Gourmet
24/02/10, 12:27

Suceder a Luís Pato, um dos maiores vultos do Portugal vinícola, uma referência, um nome sonante e de personalidade tão forte, não deve ser tarefa fácil.
 Quando a fasquia é colocada tão alto, quando as expectativas de um apelido são tão elevadas, a tensão e a ansiedade provocadas podem revelar-se demasiado elevadas. Aparentemente, tal não é o caso de Filipa Pato, uma produtora séria, original e consistente, que em pouco tempo conseguiu provar que tem capacidades e qualidades mais que suficientes para poder brilhar sozinha. E como brilha! Entrou de mansinho, sem gritaria e sem precisar de levantar grandes ondas, sem dar especial relevo ao forte apelido, para, em pouco tempo, conseguir firmar uma reputação invejável, dentro e fora de portas!
Formou-se em química, seguindo à risca as pisadas do pai, tendo encetado o seu tirocínio no coração da velha Europa, embrenhando-se na lógica e classicismo do modelo europeu... para logo de seguida aventurar-se na aprendizagem das emoções e do sentido prático típicos dos países do novo mundo. Foram quase três anos passados entre Bordéus, Argentina e Austrália, completando de forma coerente a sua formação bairradina e beirã. Filipa Pato gosta de acentuar a perspectiva beirã, porque as Beiras são e serão a sua vocação natural, numa aliança natural entre os melhores valores da Bairrada e Dão. Do velho mundo herdou o respeito pela vinha, pelo terroir, pelas vinhas velhas, pelos solos, pelas tradições, na procura de uma autenticidade que consiga transmitir a identidade única do berço do vinho. Do novo mundo colheu um mundo infindável de ensinamentos práticos, materializados em novos conceitos e novas abordagens, num abrir de olhos para os perigos potenciais da palavra tradição, na procura de novos caminhos e na tentativa de questionar cada passo que dá. Mas também colheu a visão de um marketing inteligente que sustente a transmissão dos valores e crenças do produtor.
A fórmula que maquinou para comunicar os seus vinhos é notável na autenticidade e simplicidade. Aos seus primeiros vinhos, ainda no início da sua carreira autónoma, chamou-lhes "Ensaios", na versão branco e tinto, um nome extraordinário na sobriedade, honestidade e capacidade de síntese. Está tudo dito e a percepção é imediata. Depois veio o "Espumante 3b", um espumante singular, um caso de sucesso espantoso, que hoje representa um dos seus maiores sucessos empresariais.
Poucos anos depois, fruto de uma maioridade crescente, surgiram os Lokal Sílex e Calcário, a expressão directa de cada um dos solos e terroir. Finalmente, e para rematar o quadro, criou uma sociedade, em parceria com o sommellier, e seu marido, William Wouters, a empresa "Vinhos Doidos" que comercializa dois vinhos, o "Bossa" e o "Nossa", dedicados prioritariamente para o importante mercado brasileiro. O "Nossa" é o branco mais sério e ambicioso, o único dos dois que é comercializado em Portugal.
Filipa Pato sempre quis fazer vinhos diferentes, seguir vias alternativas, criar coisas suas, evidenciando a independência feroz que a singulariza. Os seus vinhos são tão diferentes e pessoais que nunca foram concorrentes dos vinhos do pai. Faz os seus vinhos de acordo com a sua maneira de ser, de acordo com a sua sensibilidade, fugindo a todas as catalogações. Começou a andança sem vinhas e assim continua.
Mas agora já não esconde a vontade de resgatar uma vinha na Bairrada, de ter uma raiz, uma base, de ter a sua vinha. Por ora, mantém algumas vinhas alugadas no Dão e continua a comprar uvas de muitas parcelas dispersas por entre os campos da Bairrada e do Dão, apostando na diversidade e na valorização dos melhores sítios de cada região. É, e sempre foi, uma apologista e crente fiel da complementaridade entre as duas regiões.
Hoje, depois de inúmeras experiências e ensaios, confessa já conseguir reconhecer algumas das melhores vinhas de cada região, o potencial de cada local, as canduras e proveitos das duas regiões.
E esse conhecimento, esse enriquecimento pessoal, é bem visível nos vinhos que têm nascido nos últimos três anos. Os vinhos surgem a cada colheita mais sensatos e maduros, mais sérios e profundos, mais adultos, melhor definidos nos objectivos. Mas o que mais impressiona nos vinhos de Filipa Pato é essa mistura rara entre elegância e sobriedade, entre dimensão e austeridade.
São vinhos profundamente jovens no espírito mas surpreendentemente maduros e moderados no trato. Uma combinação feliz entre irreverência e maturidade. São assim os vinhos de Filipa Pato!
Para comentar este artigo ou sugerir temas para futuros artigos contacte o autor por falcao@ruifalcao.com
1  Comentários
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COMENTÁRIOS
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comentário26/02/10, 12:03
Interessante. Ser crítico deve ser giro. Eu não sei se conseguia. No entanto,este fim-de-semana, vou afinar o meu paladar e partir para a Feira do Fumeiro de Trancoso.Venham dar uma vista de olhos, tudo em www.susitour.blogspot.com! Cumprimentos Olho de Turista
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