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Crítica do OJE: Herdade do Perdigão
Gourmet
07/04/10, 10:33
Por Rui Falcão

Estamos no Alto Alentejo, na Herdade do Perdigão, a poucos quilómetros de Monforte, na estreita estrada municipal que une Monforte a Arronches, a menos de meia hora de Portalegre, em terras raianas, não muito longe da fronteira com a província espanhola da Extremadura.
Nesta paisagem campestre e bucólica, aqui e ali desassossegada pelo retinir dos chocalhos das vacas que pastam ao longe, não passa vivalma. Ao longe, a Serra de São Mamede marca a linha do horizonte com o seu recorte nobre e imponente, enquanto em redor descobrimos um mar de terras acidentadas e montanhosas. Olhamos à volta e, apesar de partirmos de um ponto de vista privilegiado, só avistamos sobreiros, pasto e infinitos afloramentos graníticos, para além das vinhas que enxameiam a Herdade do Perdigão. Nenhuma outra vinha aparece na linha do horizonte.
Nada de mais natural, esta é uma região sem grandes tradições na vinha e no vinho. Na verdade, são poucos os produtores na região, e os dedos de uma mão chegam e sobejam quando nos entretemos a contar os produtores referenciados. Chegar à Herdade do Perdigão, conhecer a sua história e dos seus mentores, descobrir os vinhos que aqui se produzem, é uma aventura simultaneamente deliciosa e original. Porque tudo é diferente na Herdade do Perdigão, dos solos ao clima, da história aos vinhos, das vinhas à paisagem. O argumento é digno de uma adaptação cinematográfica, com uma paisagem cativante a acompanhar as voltas e reviravoltas de um enredo inesperado. Afinal, estamos numa região sem grandes tradições no vinho, quase deserta de produtores... mas acabamos por descobrir vinhas velhas com mais de trinta anos de vida! Vinhas velhas habituadas a um clima ameno, a verões frescos e secos, a temperaturas muito mais suaves que as regiões de Estremoz ou Borba, sitas a pouco mais de 20 quilómetros de distância! Vinhas protegidas pelas serranias locais, quase imunes às chuvas tradicionais do equinócio.
Vinhas que foram pertença original de Alfredo Saramago, vendidas posteriormente a João Lourenço (actualmente proprietário de Altas Quintas). Mais tarde, a Herdade do Perdigão foi adquirida por Carlos Gonçalves, que, tal como a propriedade que hoje comanda, tem um passado rico e imprevisto, ligado à indústria informática. Foi o fundador, dono e principal impulsionador da empresa Datacomp, líder em equipamentos de leitura óptica, com fábricas e filiais em vários países europeus. Empresa afamada por ter sido adquirida, em 50% do capital, pela Sociedade Lusa de Negócios (SLN), entidade directamente ligada ao famigerado Banco Português de Negócios (BPN). Pouco demorou até Carlos Gonçalves vender a posição restante, encontrando-se, subitamente, quando ainda andava pelo início da casa dos "quarentas", na estranha circunstância de estar pré jubilado.
Desde sempre apaixonado pelo vinho, e impedido contratualmente de desenvolver novos projectos na área informática, pouco demorou até se decidir a realizar o sonho de toda uma vida, fazer o seu vinho. Sempre soube que o projecto teria que ser no Alentejo... mas ainda não sabia onde. Procurou herdades, quintas, montes desocupados, espaços onde começar do zero, num projecto perfeitamente intimista onde pudesse concretizar os seus sonhos e as suas convicções. Quando descobriu o primeiro lugar a que poderia facilmente chamar casa... percebeu que lhe faltava algo essencial, as imprescindíveis licenças para plantar vinha. Descobriu então que sem esse documento milagroso o projecto iria quedar eternamente adiado, sem datas nem prazos prováveis de conclusão. Mudou rapidamente de estratégia e começou então a procurar herdades com vinha implantada, com uma estrutura já montada, com garantias de produção. Como sempre tinha privilegiado os vinhos mais frescos e elegantes, decidiu centrar a pesquisa no Alto Alentejo... até o dia em que arribou à Herdade do Perdigão. Nem hesitou! Descobriu uma herdade mediana na dimensão, com cerca de 70 hectares, perfeita para as suas ambições. Porém, acima de tudo, descobriu uma herdade já com vinha implantada, com 25 hectares de vinhas já maduras, coisa rara por estas paragens. Foi tiro e queda!
A amizade antiga com Paulo Laureano assegurou-lhe, desde logo, a sua colaboração prestimosa como enólogo consultor. Curiosamente, foi aqui, na Herdade do Perdigão, que Paulo Laureano assinou os seus primeiros vinhos como consultor. Hoje, a Herdade do Perdigão conta com a colaboração a tempo inteiro de David Patrício, enólogo residente que assegura a condução integral do projecto. São cerca de 60 hectares, capazes de produzir quase 800.000 garrafas, divididas por inúmeras famílias e linhagens. Até um espumante é feito aqui em casa, seguindo a benesse do clima fresco e a paixão de Carlos Gonçalves por este estilo de vinho. E tudo é feito dentro de portas, espumantização incluída! Os vinhos, esses, são igualmente frescos como o clima, vinhos sérios e austeros, muito ao estilo dos vinhos que Carlos Gonçalves valoriza.

 

Para comentar este artigo ou sugerir temas para futuros artigos contacte o autor por falcao@ruifalcao.com

 

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