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Crítica restaurante: A Ferrugem que encanta
Gourmet
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12/10/11, 10:55
Por Vicente Themudo de Castro

Depois de duas tentativas falhadas, a primeira pela minha fraca capacidade de me orientar sem GPS e a segunda por um infortúnio pessoal, finalmente, e quando menos esperava, fui visitar um espaço que tantos elogios já mereceu dos seus visitantes.
E apesar de já conhecer a comida (em feiras e congressos), os proprietários e cozinheiros, nunca os tinha visto a trabalhar no seu habitat natural.
Eram sensivelmente 22 horas quando olhei pela primeira vez para o edifício, um antigo estábulo do início do séc. XVIII. Suspense quebrado e expectativas cumpridas, pois era exactamente o que imaginara: uma fantástica e bem executada recuperação de um edifício em ruínas, traduzindo-se num palco único e perfeito para a arte da gastronomia.
Ultrapassadas as portas de vidro, regozijo com o espaço: um pé-direito altíssimo, paredes de pedra, apenas escondidas por alguns quadros, uma garrafeira repleta de néctares (lusos), uma lareira que nos dias frios deve ser o alvo das reservas e um tecto em madeira cativante.
Dei início ao meu trabalho de investigação gastronómica. As opções dividiam-se em três momentos: o primeiro mais inspirado nas entradas, o segundo nos principais e o terceiro nos que adoçam a boca. Pode-se escolher o menu de Outono (€28), optando por um prato por momento, degustação em 4 momentos (€32) e em 6 momentos (€40), com o complemento de vinhos, sendo €15 e €20 respectivamente.
Dispensei o pastel de nata de bacalhau que tanta fama dá à casa, pois, apesar de gostar e achar incrível, é tempo de ver o que mais se confecciona na cozinha da Dalila e do Renato.
O primeiro a chegar foi o cumprimento do chefe, composto por um caldo verde e a broa de milho tostada com azeite. Bom, mas era apenas para abrir o palato, pelo que mantenho a ânsia por algo mais interessante.
Chega então o Crocante de alheira de caça, puré de maçã reineta e compota agridoce de tomate-cereja, um best-seller segundo a casa. Compreendo, pois tem tudo para agradar - a crocância da massa, os sabores fortes do enchido, o ácido da maçã e o adocicado da compota. Gostei!
Caso sério foram as Lascas de bacalhau com azeite transmontano e coral de azeitona, legumes salteados e crocante de pão com chouriço, que além de aromas fortes e atractivos, tinha uma apresentação que apelava ao uso do garfo. O nível aumentou e a vontade de continuar também.
Chega agora à mesa a cabidela de polvo. Basicamente, polvo acompanhado por um arroz feito na tinta de choco, dando ares a cabidela. Neste, o octópode estava tenro e saboroso e a mistura invulgar do arroz pintado dava um gosto único.
Ainda houve tempo para um lombo de veado, terra de cogumelos, puré de frutos, flores e frutos silvestres, apelidado internamente de Floresta de Outono. Gostei. Carne no ponto correcto, texturas diferentes que elevavam o nível sensorial e uma mistura de sabores a terra e agridoces diferentes e bem conjugados.
Terminei com dois doces, a Pêra Rocha do Oeste em geleia de Porto vintage sobre tarte de queijo fresco e o Tributo ao "abade de priscos" numa mousse de Outono, ambos na toada dos anteriores, boa execução técnica, alma e inovação.
Os vinhos foram todos a copo e estavam todos disponíveis na carta: comecei no Afros Vinhão, passei pelo Soalheiro Alvarinho e Cottas Reserva e terminei com o Porto Andresen Branco 20 anos e o DSF Colecção Privada Moscatel Roxo 2001 para os doces.
Referencie-se que a carta é bem elaborada, bem dotada e a preços adequados, longe da exploração que vemos por este país fora.
Fiquei apaixonado pela cozinha da Dalila e do Renato, que conseguiram em 2006 realizar o sonho de abrir o "Ferrugem" e que certamente vão ser os responsáveis de muitos e agradáveis sonhos gastronómicos de quem visita a sua casa.
Aqui transpira carinho, paixão e o saber e sai-se com o estômago cheio, a alma contente e a pensar já na próxima visita.
 
Detalhes
Restaurante Ferrugem
Rua das Pedrinhas, 32
4770-379 Portela - Vila Nova de Famalicão
N 41º27'41,8'', W 8º26'53,6''
+351 252 911 700
www.ferrugem.pt
Horário: Encerra aos domingos ao jantar
e segundas o dia todo. Aberto das 12h00
às 14h30 e das 20h00 às 22h30
Preço médio: €35
Tipo de Cozinha: Criativa portuguesa
contemporânea
Cartões: Todos
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