Cruzar as informações obtidas de diversas fontes em tempo real pode ajudar a melhorar o trânsito nas grandes cidades e a procurar alternativas mais rápidas, menos poluentes ou mais seguras
A Cidade Digital
Possuir uma espécie de "co-piloto" que informa, em tempo real e de graça, qual o percurso mais rápido e seguro, a melhor opção de transporte e até um caminho menos poluído vai ser possível, numa primeira fase, em Lisboa e no Porto, através de um sistema dinâmico integrado com dados heterogéneos de mobilidade para auxiliar o cidadão. Esta é uma das possibilidades decorrentes do projecto denominado City Motion. Uma inovação que pode revolucionar o trânsito nas grandes cidades do mundo e que envolve, entre outros, cinco investigadores portugueses.
Trata-se de um projecto inicialmente proposto por Francisco Câmara Pereira, investigado da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), em parceria com colegas seus e ainda outros do MIT e da Faculdade de Engenharia da Universidade do
Porto. Começado em 2007, no âmbito do programa MIT Portugal e coordenado por Carlos
Lisboa Bento, também investigador da FCTUC, o objectivo do projecto City Motion é centralizar todas as bases de dados da cidade numa única interface de utilização prática.
Fundir dados de várias origens
A equipa, constituída por cinco investigadores portugueses, outros tantos do MIT e cerca de uma dezena de alunos de doutoramento, explica que, "actualmente, os cidadãos utilizam serviços dispersos de auxílio à mobilidade, como o GPS associado a mapas, os telemóveis e outros, mas alguns deles são serviços autistas, que não comunicam entre si".
O City Motion, pelo contrário, faz a fusão da informação fornecida por operadoras de telemóveis, sensores das estradas e dados de gestão de frotas dos autocarros, do metro e dos comboios, entre outros, disponibilizando uma plataforma de dados fiável e segura, que permite depois criar vários serviços de mobilidade dirigidos ao cidadão, ao urbanista ou ao gestor de sistemas de transporte. Em suma, antes da escolha de um trajecto, o utilizador poderá consultar dados sobre as estradas, a ocorrência de acidentes, os trajectos e horários dos transportes públicos e os congestionamentos de via.
Porém, o projecto pretende ir mais longe. Terá capacidade de previsão e, quando o utilizador perguntar se a estrada x é a melhor opção, o sistema analisa os vários cenários possíveis e cria uma solução com base na previsão feita; por exemplo: "será a melhor opção até às 11 horas, porque, a partir daí, vai estar congestionada nos dois sentidos" ou "opte pela via y, porque é muito mais segura e menos poluída".
Os investigadores estão a criar duas ferramentas: um planeador de rotas multimodal
(um sistema informático gratuito a que qualquer cidadão pode aceder) e um sistema de apoio ao decisor político que mostra a dinâmica da cidade, ou seja, o comportamento diário e a evolução do espaço urbano, para, caso seja necessário e adequado, os decisores poderem adoptar medidas de prevenção e correcção.
Identificar padrões de mobilidade
Assim, encontrar uma estrada em obras quando menos espera, enfrentar uma longa fila de trânsito imprevista que põe em causa todos os horários, esperar por um transporte público que não chega porque avariou e circular por uma zona altamente insegura são algumas das inúmeras contrariedades que vão poder ser evitadas.
De facto, o autor do projecto salienta: "Já não é só o tempo e o espaço que inquietam o cidadão. A segurança é uma grande preocupação actual. O sistema em desenvolvimento permitirá a construção de serviços simples que informem o utilizador para não circular em zonas complicadas, como, por exemplo, vias associadas à prática de car-jacking."
Também para os planeadores de transportes públicos o City Motion será um óptimo indicador: "Permite-nos identificar padrões de mobilidade. Por exemplo, quais são os locais para onde as pessoas se dirigem, a que horas, que trajectos usam. Isto pode dar indicações que permitam aos meios de transportes adequarem-se mais àquelas que são as características da mobilidade da população."
Para o coordenador dos trabalhos, "o City Motion está desenhado no sentido de ser uma plataforma que fornece informação sobre a cidade e sobre a mobilidade urbana a serviços que serão implementados por cima dessa plataforma".
Esses serviços podem ser aplicações desenvolvidas para o planeador urbanístico, para a empresa de transportes urbanos ou para o utente dos serviços, o que revela uma grande flexibilidade e a possibilidade até de os serviços que são construídos por cima da plataforma assumirem uma forma colaborativa no seu desenvolvimento.
Carlos Bento Lisboa refere que é possível fazer uma analogia com o que acontece, por exemplo, com a Apple em relação ao iPhone: "A Apple desenvolveu o iStore, uma plataforma de disponibilização de aplicações que fornece a infra-estrutura para o desenvolvimento e comercialização de aplicações para o iPhone.
Imagine-se que isto é o correspondente ao nosso CityMotion. Entretanto, os vários produtores independentes criam aplicações para o iPhone que submetem para ser colocadas à venda no iStore, o equivalente ao que poderá acontecer com os serviços de mobilidade que sejam construídos por cima do City Motion."
Contudo, a equipa não vai ficar à espera de que surjam essas aplicações criadas por terceiros, como explica o seu coordenador: "No âmbito do próprio City Motion, vamos desenvolver alguns serviços que, no essencial, exemplificam o que pode ser feito a partir da plataforma, realçando as suas potencialidades."
E não se ficam por aqui. O professor garante que, "em termos de investigação, há vários aspectos a serem trabalhados pelos participantes: técnicas de fusão de dados de mobilidade, algoritmos de análise de dados específicos, visualização de dados e eventos sobre o espaço urbano, modelação e simulação da dinâmica de mobilidade, entre muitos outros que visam optimizar o sistema".
Para efectuar um trabalho desta natureza, é necessário recorrer a várias tecnologias e criar novas, nomeadamente algoritmos de fusão e análise de dados, redes de sensores, computação ubíqua, arquitecturas de redes de comunicação e todo o know-how acumulado na área dos sistemas de transportes inteligentes.
Condensado de "A cidade digital"", Super Interessante nº134, Junho 2009
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