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Casas de Futuro
Moda Tendências
20/07/09, 10:24
Por J.M.D./I. J. - Em parceria com Superinteressante

A nova moda em matéria de arquitectura sustentável é a das casas autónomas, que geram a sua própria energia e consomem dez vezes menos do que as normais. Os habitantes pagam facturas irrisórias.
Josep María Adell, arquitecto e professor catedrático da Universidade Politécnica de Madrid (UPM), desliga a luz da sala onde trabalha e acende um projector que começa a mostrar diapositivos do protótipo de casa sustentável B&W. Estamos na Escola Técnica Superior de Arquitectura da UPM, rodeados pela equipa de perto de 30 arquitectos,
engenheiros e especialistas em design que, dirigidos por Adell e com o patrocínio do Ministério da Habitação espanhol, vai participar no concurso Solar Decathlon 2009, que se realizará no próximo Outono em Washington (Estados Unidos). A casa que vão apresentar dispõe de um telhado de painéis solares móveis e não precisa de estar ligada à rede eléctrica para obter energia. "É muito competitiva e abastece-se a si própria, porque não está condicionada pela orientação. Só temos de encontrar um promotor que esteja disposto a construí-la e vendê-la por cerca de 150 mil euros."
A verdade é que, em Espanha, a presença deste tipo de ecomoradias que geram os recursos que consomem é quase insignificante.
"As que existem são um pouco hippies e não têm nada a ver com aquelas casas bonitas e auto-suficientes do Norte da Europa", comentam algumas das pessoas que ouvimos.
As populações isoladas e sem acesso à rede eléctrica são as que começaram a instalar tecnologias como a solar para se auto-abastecer, segundo a revista espanhola Ecohabitar. Há mais de dez anos que a associação SEBA, com sede em Gerona, contribui para resolver o défice de electrificação no meio rural ao promover o recurso a energias renováveis. O seu porta-voz, Jaume Serrasoles, explica o rápido crescimento deste tipo de soluções: "Somos já 500 associados com energia solar fotovoltaica instalada. A associação faz a gestão dos apoios, oferece a manutenção e dá formação aos utilizadores."
A iniciativa poderá ser o gérmen de futuros projectos para casas auto-suficientes, que ainda estão no papel, embora Espanha já disponha dos meios necessários para começar a desenvolvê-los.
"Construímos edifícios de escritórios verdes cuja tecnologia pode ser extrapolada para as habitações", revela José António Ferrer, responsável pelo Grupo de Avaliação Energética na Construção do Centro de Investigações Energéticas, Meio-ambientais e Tecnológicas (CIEMAT).
Por sua vez, Vicente Guallart, do Instituto de Arquitectura Avançada da Catalunha (IAAC), está convencido de que "essas casas não são uma utopia; veremos as primeiras daqui a pouco tempo, talvez dentro de três anos".
Fontes do Ministério da Habitação espanhol dizem que a construção deste tipo de casas ainda está em fase embrionária em todo o mundo. Porém, naquele país, diferentes organismos e empresas estão a lançar mãos à obra para conseguir reduzir os prazos. O estúdio de design D-Earle, de Fuengirola (Málaga), já apresentou a Eco-House, um projecto com telhados de painéis solares, sistema de aproveitamento da água da chuva e aquecimento por chão radiante com recurso à energia solar.
 
Um investimento muito rentável
De igual modo, o IAAC concebeu uma habitação de consumo zero para o certame Solar
Europe, que irá decorrer em Espanha em 2010: terá cem metros quadrados e será auto-personalizável através do conceito FabLab, que o IAAC está a desenvolver em colaboração com o Instituto Tecnológico do Massachusetts (MIT). A filosofia FabLab implica que "qualquer pessoa possa fabricar qualquer coisa em qualquer parte do mundo, incluindo casas", explica Guallart.
Um dos máximos expoentes na concepção e construção deste tipo de casas é a arquitecta alemã Petra Jebens-Zirkel, residente precisamente em Huesca, também em Espanha. A melhor publicidade que faz é a do seu exemplo, pois tanto a sua casa como o estúdio ficam no meio do campo, onde geram a sua própria energia. Explica-nos que já foi responsável pela construção de cerca de 80 casas "mais ou menos auto-suficientes". Uma das habitações ergue-se em Vilafranca del Penedès (Barcelona), e Jebens descreve-a deste modo: "Os painéis fotovoltaicos produzem a electricidade; se houver excedente, é vendido à companhia de electricidade. A água da chuva é recolhida, armazenada e purificada. O WC funciona a seco, e a água do chuveiro, da máquina de lavar e das casas de banho é reutilizada através de um circuito fechado." O proprietário, Antoni Mestres, reconhece que ter uma casa assim "implica um regresso ao que os nossos avós faziam, ser um pouco mais lógicos e racionais": "Trata-se de reduzir os consumos o máximo possível. A minha casa é bioclimatizada e feita com materiais da região, tem o mesmo conforto de uma casa normal mas utiliza tecnologias mais consentâneas com a Natureza", afirma com orgulho.
Jebens pertence à associação Passivhaus de casas passivas, que gastam menos de dez
quilowatts-hora por metro quadrado, quando a média numa habitação normal ultrapassa os cem.
Toni Solanas, arquitecto e presidente da Arquitectura e Sustentibilidade (AuS), que depende da Ordem dos Arquitectos da Catalunha (COAC), refere que este tipo de moradias já foi construído na Alemanha e insiste na sua elevada rentabilidade: "Trata-se de um investimento de futuro numa sociedade que pensa a curto prazo."
Existe a possibilidade de vender a energia excedente, e todos os especialistas concordam que o preço dos painéis solares pode ser amortizado em menos de dez anos. Jebens explica que foram instalados cerca de dez metros quadrados de painéis com uma potência de um quilowatt e que alimentam o estúdio e a casa. O melhor de tudo é que não sabe o que é receber uma factura de electricidade.
A partir da agora, a possibilidade de serem construídas mais ecocasas não depende apenas de uma mudança de mentalidade na população como, também, da legislação. A União
Europeia já impôs, por exemplo, que seja colocado à disposição dos utilizadores dos edifícios um certificado com informação objectiva sobre as suas características construtivas, de modo a que se possa avaliar e comparar a sua eficiência energética, com o objectivo de favorecer a promoção da sustentabilidade e da racionalidade dos consumos.

 
Novas regras em Portugal

 
Em Portugal, houve também regras novas que entraram em vigor no início deste ano. Uma diz respeito ao referido certificado de eficiência energética, que passou a ser obrigatório para quem quiser vender ou arrendar casa.
Esse documento, que se torna necessário sempre que for efectuada qualquer transacção com o imóvel, tem de ser passado por um técnico reconhecido pela Agência para a Energia e, em alguns casos, pode chegar a custar 200 euros. O certificado contém diversas informações sobre o imóvel. Quantifica o desempenho energético de um edifício, apartamento ou moradia através de nove classificações que vão de A+ (alta eficiência) a G (baixa eficiência).
O mínimo exigido para novas construções é B-. Além da classificação energética da habitação, o documento também inclui sugestões para a tornar mais eficiente em termos energéticos, o que fará, certamente, baixar a factura de electricidade de quem lá vive.
Essa não será, porém, a única vantagem de ter uma casa energeticamente eficiente: as mais bem classificadas (com A ou A+) terão também direito a usufruir de benefícios fiscais em sede de IRS: uma dedução majorada em 10%. Por outro lado, se o proprietário do imóvel incluir energias renováveis, 30% desse valor será dedutível à colecta no IRS.
Em Portugal, a falta de experiência, a procura incipiente e as hesitações dos investidores são factores apontados para a fraca expressão do aproveitamento da geotermia. No entanto, segundo Carlos Bicudo, administrador da Sociedade Geotérmica dos Açores (Sogeo), em
Portugal Continental a utilização de recursos geotérmicos de baixa temperatura em unidades hoteleiras para aquecimento ambiental e águas domésticas tem conduzido a uma redução apreciável da factura energética dos promotores desses projectos.
Verifica-se o oposto nos Açores, onde o seu contributo é bastante expressivo, estimando-se que, com a conclusão dos projectos em desenvolvimento, a geotermia contribua, em
2012, com 38% no conjunto das fontes de produção do arquipélago, segundo o portal
Ambiente Online. "Olhando o futuro e considerando a tendência do aumento do preço do petróleo, a expansão do aproveitamento da energia geotérmica encontrará uma oportunidade muito favorável", considerou o responsável, sublinhando porém que, no caso dos usos directos, "dependerá do lado da procura que se organizem projectos economicamente viáveis, uma vez que a oferta excede largamente a procura".

 

 

 

Condensado de "Casas de Futuro", Super Interessante nº135, Julho 2009

 
 

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