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Construir o futuro
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24/06/10, 11:58
Texto Sara Raquel Silva, Fotos Filipe Pombo/AFFP

É altura de repensar a forma como construímos e vivemos no interior dos nossos edifícios. É que a sua construção e manutenção gera metade dos resíduos produzidos a nível mundial, e implica grandes gastos energéticos e emissões de CO2. 
É frequente pensar-se que apenas a indústria e a circulação automóvel são responsáveis pelo total das emissões de CO2 na atmosfera. Esta ideia não é, de todo, correcta. O facto de actualmente todos dormirmos e trabalharmos (ou seja, vivermos grande parte do dia) sob um tecto é, também, altamente poluente. Segundo a Agenda 21, redigida em 2005 pelo Internacional Council for Research and Innovation in Building and Construction (CIB), nas maiores cidades do mundo, a construção de edifícios consome 50% dos recursos naturais do planeta. Nos países industrializados as emissões de CO2 atingem em média os 30% do total emitido. O sector da construção é, assim, um dos que mais contribuem para aumentar a nossa pegada ecológica que, só em Portugal, segundo dados da Quercus, é de 3,7 a 5,8 hectares por habitante. Significa isto que se todas as nações se comportassem de igual forma, seriam necessários 2,5 planetas! Sem apelar ao regresso às cavernas, existe alguma saída?
"Existe. A arquitectura sustentável", responde Filipe Francisco, arquitecto com atelier no Porto. Autor de várias habitações, entre outros projectos "amigos do ambiente" (veja www.ecocriacoes.pt), é peremptório: "Há que despertar consciências para a mudança inevitável do modelo de crescimento linear para um modelo circular, assemelhando-se com a metabólica da biosfera. Os recursos naturais são limitados e têm o seu tempo bem definido". Na sua opinião, com a ajuda de disciplinas como a geobiologia, o ecodesign ou o bioclimatismo, a arquitectura terá de pensar no planeta como um grande organismo vivo, com regras bem claras e definidas; compreender os seus ciclos naturais, interpretá-los e imitá-los.
Lívia Tirone (www.construcaosustentavel.pt) concorda, mas vai mais longe. Pensa que, mais do que falar em arquitectura sustentável, há que falar em construção sustentável. Responsável pela emblemática Torre Verde, no Parque das Nações, em Lisboa, esta arquitecta pioneira em Portugal na arte de "construir verde" e autora do livro Construção Sustentável - Soluções Eficientes Hoje são a Nossa Riqueza de Amanhã defende que "o acto de projectar tem de envolver todas as especialidades relevantes, desde os primeiros esboços até ao projecto de execução e ao manual de operação do edifício".
Tirone e Francisco estão empenhados em criar edifícios que proporcionem o máximo de conforto com o mínimo de impacto ambiental. Como? Trazendo para o interior dos edifícios todas as qualidades do clima local, utilizando materiais locais, ecológicos e reciclados, valorizando a iluminação e ventilação natural, utilizando sistemas solares activos e passivos, sistemas de armazenamento de águas pluviais e tratamento de águas residuais domésticas, para a diminuição do consumo energético. Isto sem esquecer a aposta na melhoria do comportamento térmico de cada edifício - questão descurada nas últimas décadas -, que optimiza o desempenho energético do edifício através de uma correcta orientação espacial (a Sul), isolamento térmico exterior aplicado de forma contínua nas paredes, utilização de vidros duplos, caixilharia de qualidade e sistemas de sombreamento exterior para evitar ganhos excessivos de calor. 
Há quem pense que construir verde é mais dispendioso. Mas vários estudos negam-no. Segundo o Costing Sustainability, "How much does it cost to achieve BREEAM and EcoHomes ratings" (Reino Unido, 2004), em alguns casos a adopção de estratégias avançadas de sustentabilidade podem até reduzir custos. "Ainda que o preço de implementação de sistemas ambientalmente sustentáveis gere um custo  5% superior ao de um edifício convencional, a sua utilização pode representar uma economia de 30% de recursos, durante o uso e ocupação do imóvel", diz Filipe Francisco. Deixou de haver espaço para desculpas do foro financeiro.
A lei, em Portugal, também já está mais a favor dos que pretendem construir ou viver em ambientes mais ecológicos.
Desde Janeiro deste ano, e à semelhança dos restantes países da União Europeia, só se pode vender ou arrendar imóveis com um certificado em que está quantificado o desempenho energético dos edifícios e garantida a qualidade do ar interior (com classificações que vão de A a G). Assim todos podemos escolher o melhor local onde viver.
NOVAS CIDADES VELHAS
Projectar de forma sustentável não se resume a pensar no edifício como um projecto com baixo impacto ambiental. Há que conjecturá-lo também como um objecto social, ao serviço dos que o habitam. Lívia Tirone propõe que sempre que possível haja nos edifícios espaços de convívio, como, por exemplo, coberturas verdes, espaços interiores comuns, que promovem o contacto entre vizinhos, e espaços públicos ao nível da rua (lojas, equipamentos...), que promovem o contacto também com o público. Trata-se de uma forma de atenuar o perene problema das grandes cidades: o isolamento.
A arquitecta é defensora acérrima da criação de cidades compactas e multifuncionais com enfoque na reabilitação das cidades existentes que têm essas características. Aquelas que estão organizadas de forma a que em dez minutos os cidadãos possam ter acesso aos transportes públicos, zonas comerciais, espaços verdes, escolas e cuidados de saúde, entre outros serviços, servem melhor os cidadãos. Nem mais nem menos do que a estrutura apresentada pelas nossas velhas urbes.
Susana Barros, arquitecta do atelier Utopia, com vários edifícios sustentáveis no currículo (veja www.utopia.pt), é mais radical: "Não temos de inventar cidades novas", afirma. "Precisamos é de reciclar a cidade! Se as ruas são algo estreitas, óptimo. Usamos menos o automóvel e protegemos o ambiente". Susana ouve muitas vezes dizer que o restauro nos centros urbanos é mais caro que a construção nova na periferia, mas questiona: "Se tomarmos em atenção os custos dos transportes e da poluição gerada nas deslocações entre os subúrbios e o centro, certamente que chegaremos a outros resultados". Por outro lado, alerta: "Segundo dados do INE, de 2001, em Lisboa, por exemplo, existiam mais de 40.000 fogos abandonados! Fará sentido construir? Para mim, não. Mais que tudo é preciso levar a natureza para a cidade, e não a cidade para a natureza..."
Aline Delgado, arquitecta e antiga colaboradora da Quercus na área da arquitectura sustentável, corrobora: "Temos até agora seguido um ciclo aberto. A construção extrai da natureza os materiais de que precisa para edificar, como brita, areia e água; lança, na mesma natureza, os resíduos da produção de outros materiais de construção, à semelhança do cimento e tintas; e, no fim, os produtos resultantes da demolição, de que são exemplo os entulhos".
Defende a adopção de um conjunto de vários ciclos fechados, em que se prevê a reutilização dos edifícios existentes; a reutilização de componentes do edifício (desconstrução) ou a reutilização dos materiais de construção noutros edifícios, em aterros ou estradas.
A célebre política dos três "r" aplicada ao parque urbano. Porque mais sustentável do que construir é, por vezes, reduzir, reutilizar e reciclar.

 
FAÇA VOCÊ MESMO UMA CASA SUSTENTÁVEL
O Sol é a nossa maior fonte de energia. Tire dele o melhor proveito, escolhendo uma casa maioritariamente orientada a Sul, de modo a minimizar as necessidades de aquecimento durante a estação de Inverno. 
Sempre que necessária a iluminação artificial, opte por lâmpadas de muito baixo consumo (ópticas LED - light emiting diodes) e por iluminação localizada.
Prefira, sempre que possível, electrodomésticos de classe A. São mais eficientes no que respeita ao consumo de energia. Mas compre o tamanho adequado às suas necessidades, porque um frigorífico vazio, mesmo de Classe A++, consome muita energia para arrefecer ar cada vez que abre a porta.
As caixilharias com corte térmico e o vidro duplo são os mais indicados do ponto de vista de conservação de energia. Deverá ainda optar por caixilharias com grelhas de ventilação em pelo menos dois vãos de cada casa - preferivelmente com orientação solar oposta -, para assegurar a renovação do ar e a qualidade do ar interior.
Opte por torneiras monocomando e de regulação do fluxo de água.
Verifique se os autoclismos são providos de dispositivos de dupla descarga. Se não são coloque uma ou duas garrafas de água, cheias, dentro do depósito. Poderá  poupar até 3 litros de água por descarga.
Opte sempre por um depósito de resíduos domésticos com pelo menos três divisões, para facilitar a reciclagem.
http://www.gingko.pt/

 

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