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Dois filmes, um só mito: Coco Chanel
Moda Tendências
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06/04/09, 10:53
Carolina de Almeida

Quase 100 anos depois da abertura da primeira loja Chanel, o mundo da sétima arte faz um hino à visionária, com duas longas-metragens. A criadora rompeu com os cânones de moda no início do séc. XX e elevou o estilo feminino a um nível ultra-inovador que perdura até hoje


A "minha vida é a história - e muitas vezes o drama - da mulher solitária, das suas misérias, da sua grandeza e do combate inigualável e apaixonado que ela deve travar contra ela mesma, contra os homens, contra as seduções, as fraquezas e os perigos que surgem de todo o lado". A frase é de Gabrielle Coco Chanel que, com o seu carácter peculiar e visão à frente do seu tempo, criou uma legião de fãs em todas as áreas, e não apenas na moda. Entre eles a realizadora francesa Anne Fontaine. "Não foi especialmente a moda que me interessou, mas os traços de personalidade daquela mulher excepcional", explica.
Ainda em jovem, Anne Fontaine teve a sorte de conhecer Lilou Marquand, a colaboradora mais próxima de mademoiselle Chanel durante a última fase da sua vida. Ouviu muitas histórias sobre esta personagem mítica e leu vários livros, incluindo "L'Allure de Chanel", de Paul Morand, "um dos autores que melhor soube traduzir a personalidade incrível" da designer francesa, segundo a realizadora.
Muitos anos mais tarde, uma conversa casual com os produtores de "Haut et Court", Carole Scotta e Caroline Benjo, levou-a de novo ao universo Chanel. Estes incitaram-na a desenvolver um projecto sobre a vida da personagem. Assim surgiu a ideia de "Coco Avant Chanel", um filme inspirado no romance "L'Irregulier ou mon Itinéraire Chanel" (da editora da Vogue France nos anos 50 e 60, Édmonde Charles Rouxécrit), que incide sobre a infância, juventude e os primeiros passos de Chanel, quando ainda era conhecida pelo nome de cantora de cabaré - Coco. A longa-metragem estreia dia 22 de Abril nas salas de cinema francesas, não tendo sido ainda divulgada a data para Portugal.
Audrey Tautou, a actriz que ficou conhecida com "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain", surge no papel de mademoiselle Coco, escolha que não levantou dúvidas à realizadora. "Audrey encarna muito naturalmente essa androginia que naquela época não existia e que ilustra de maneira indispensável a forma como Coco Chanel inventou o seu estilo", explica. Da parte de Tautou, também não houve hesitações: "qualquer mulher que deseja traçar um destino para ela própria poderá identificar-se com os primeiros anos de Chanel. Isto é o que garante a modernidade do filme".
As parecenças da jovem actriz com a designer francesa não são apenas trabalho de caracterização. A actriz partilha com Coco características que a realizadora identificou desde logo, como a silhueta, "a densidade do olhar" e "a graça e subtileza". Não foi por acaso que a marca Chanel escolheu Andrey Tautou para o novo rosto do perfume Chanel nº5, pondo fim ao reinado de Nicole Kidman. A campanha publicitária será lançada dia 5 de Maio, 88 anos depois de Coco Chanel ter lançado o perfume. A marca mantém, assim, o espírito supersticioso da designer, que considerava que o 5 era o seu número da sorte.
Dois dos principais homens da vida de Chanel serão representados por Benoît Poelvoorde (no papel de Ettienne Balsan, que a ajudou a abrir a sua primeira loja, em Paris) e Alessandro Nivola (Arthur "Boy" Chapel, um dos grandes amores da sua vida).
Além destes, houve uma terceira figura masculina de grande importância na vida de Coco Chanel  - o compositor russo Igor Stravinsky. E é precisamente sobre ele que incide o outro filme sobre a lendária estilista, também a estrear este mês em França. Adaptado do romance "Coco et Igor", de Chris Greenhalgh, o filme "Coco Chanel et Igor Stravinsky", de Jan Kounen, conta a relação amorosa entre Coco e o compositor, interpretados pela francesa Anna Mouglalis, rosto do perfume Chanel Allure há seis anos, e o dinamarquês Mads Mikkelsen, que desempenhou o papel de vilão no filme de James Bond "Casino Royale".
A longa-metragem, que não pretende ser um biopic, segundo o realizador, foca sobretudo seis semanas particulares da vida de Coco e Stravinsky, autor do ballet "Le Sacre du Printemps", que revolucionou Paris em 1913 com a mesma intensidade com que instaurou as bases da música clássica contemporânea.
E, como não podia deixar de ser, Karl Lagerfeld, director criativo das linhas de alta costura e prêt-a-porter da marca Cha-nel desde 1983, criou dois modelos para o filme, que incluem um vestido de noite para as cenas rodadas no histórico Théâtre des Champs-Élysées, onde estreou a peça de Stravinsky. O criador alemão também prestou homenagem à designer com um pequeno filme mudo, com a modelo Edita Vilkeviciute no papel de Grabrielle Coco; e que foi apresentado durante o desfile da colecção pre-fall da marca, denominado Paris-Moscow, em Dezembro de 2008 na capital russa.

 

 

Visionária e intemporal

Gabrielle Bonheur Chanel (1883- 1971) nasceu em Saumur, França. Detentora de uma vida algo misteriosa, sabe-se que em 1910 abriu uma loja de chapéus em Paris. Três anos mais tarde abriu uma boutique em Deauville, e em 1915 outra em Biarritz.

Inovadora e de forte personalidade, mademoiselle Chanel, que vestia as suas criações, mudou radicalmente o vestuário feminino, ao qual juntou peças que pertenciam exclusivamente ao guarda-roupa masculino, como as calças, o cardigan, e o sweater. Leves, fluidas e confortáveis, as suas roupas libertaram o corpo da mulher e criaram um estilo do qual não faziam parte as incómodas peças da época, como o espartilho. Propôs o arquétipo da mulher-garçonne - cabelo curto, peito plano e figura esguia, e adoptou tecidos mais baratos como o jersey, que até aí era apenas usado para roupa interior.

Chanel participou activamente na vida cultural e artística da sua época, desenhando figurinos para peças de Jean Cocteau e convivendo com figuras emblemáticas como Salvador Dalí.

Em 1929 abriu uma boutique na Rua Cambon, em Paris, fechando o seu atelier dez anos mais tarde devido à 2ª Guerra Mundial. Em 1954, com 71 anos, reabre a Maison Chanel, retomando o trabalho com grande êxito.

Muitas das suas mais famosas criações, como o tradicional fato de saia e casaco, adornado com um colar de pérolas e uma carteira de corrente dourada, ou o little black dress, perduram até aos nossos dias como clássicos de elegância e distinção.

Fonte: ModaLisboa

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