Educação: A crescer numa redoma Moda Tendências 11/03/10, 10:36Texto Sara Raquel Silva, Ilustração Rachel Caiano - Em parceria com Gingko Aprenderam a andar entre móveis acolchoados, nunca subiram a uma árvore ou apanharam um transporte público sozinhos. Como serão no futuro estas crianças que nunca aprenderam a voar longe do ninho? Quando João Pires observa as traquinices dos seus três filhos juntamente com a trupe de vizinhos no quintal da sua casa em Évora recorda-se dos tempos em que ele e os vizinhos de Benfica, em Lisboa, se reuniam para brincar. Sem medo dos joelhos invariavelmente esfolados, de uma ou outra cabeça partida, de eventuais raptores e de todo um mundo de perigos que, tanto aos seus olhos como aos dos pais, eram tidos em conta mas relativizados. Volta e meia até vai ao café e deixa-os entregues à inesgotável imaginação e energia da infância. Tem, no entanto, noção de que, no seu núcleo de amigos, poucos serão os que proporcionam aos filhos tamanha liberdade. "Que é, do meu ponto de vista, a melhor forma de lhes dar defesas", explica o geógrafo de 38 anos. "Só experienciando os perigos, devidamente calculados, é que os miúdos aprendem a proteger-se", afirma o mesmo. Rosário Castro, 41 anos, mãe de uma menina com 9 meses e do Gustavo, de 8 anos, concorda. Só não consegue passar do pensamento à prática. "Não largo os meus filhos por um instante que seja; quero sempre saber onde e com quem estão", diz. "Em Lisboa, o Gustavo não sai à rua sem mim e, se deixo de o ver por instantes penso logo que alguém já o levou. No fundo gostava de tê-lo sempre por perto." De quando em quando deixa-o ir à piscina com o tio, pai de três crianças, mas, admite, "enquanto ele não volta para casa, estou com o coração nas mãos". No dia em que falou com a GINGKO, ponderava a ida do filho com os tios e primos passar férias no Algarve. "Sei que lhe faria bem e que ele também precisa de espaço, mas eu não vou ficar descansada. Não é que não confie na minha família, mas as crianças são muito difíceis de controlar". Ana Teresa Lúcio, gestora de marketing, 36 anos, é ainda mais radical. Não permite que as fotos das suas filhas, a Inês e a Teresa, de 3 e 5 anos, respectivamente, apareçam no site do colégio e, sempre que alguém está a fotografar ou filmar uma paisagem onde elas possam figurar protege-as, colocando-se à sua frente. Em casa, os copos e mesas são de vidro temperado, as portas têm protectores especiais que impedem as meninas de aceder às varandas e, para reforçar os níveis de segurança, optou por viver num condomínio fechado. Mais: apesar de ter a mesma empregada há oito anos, conhecer o seu local de residência e número de passaporte, só no ano passado foi capaz de lhe confiar a filha mais velha ao final do dia. Preferiu, até aí, que ela ficasse no jardim-escola à espera, ou pedir à avó que fosse buscá-la. PROTECÇÃO EXTREMA "As mudanças sociais que se deram em Portugal (problemas como o desemprego, a precariedade laboral, a quebra da confiança nas instituições, o aumento das desigualdades sociais e o custo de ter um filho) têm-se traduzido na redefinição e reconfiguração das estruturas e dinâmicas familiares", explica Paula Cristina Correia, docente do departamento de Ciências Médicas da Universidade da Beira Interior e directora do serviço de pedo-psiquiatria do Centro Hospitalar Cova da Beira. E uma das respostas dos pais a todas estas transformações tem sido a criação de uma redoma em volta dos filhos. "O que não é necessariamente benéfico para as crianças e a sua evolução enquanto indivíduos", defende Sofia Coelho, psicóloga clínica, cuja tese de licenciatura focou as doenças infantis. "Embora não se possa ser taxativo, as crianças superprotegidas tornam-se adultos ou muito agressivos, porque lidam mal com as frustrações que não conseguem digerir, ou tão medrosos que são incapazes de tomar decisões, pois estas sempre foram tomadas por terceiros". A dor faz parte da aprendizagem da vida. Ajuda as crianças a conhecerem os próprios limites. Quem o defende é João Appleton, avô de oito netos. Por ter crescido no seio de uma família numerosa e irrequieta, já viu tantos arranhões e nódoas negras que não se comove facilmente. Quando tem os netos à sua responsbilidade tem atenção a coisas básicas, como grandes desníveis no terreno, piscinas e varandas. "De resto, os pequenos incidentes são normais e incontornáveis, um ou outro dia acabam sempre por acontecer", observa. "É claro que me preocupo com a segurança, mas trata-se sobretudo de uma questão psicológica: manter a tranquilidade para não criar ansiedade nas crianças", justifica. "Por isso, deixo-os andar à vontade na horta ou descalços na relva, mesmo que corram o risco de serem picados por uma abelha. O contacto com a natureza é-lhes benéfico e qualquer farpa que eventualmente os magoe logo será retirada. Aliás, estas pequenas coisas só lhes fazem bem", afiança. Sofia não podia estar mais de acordo. Nada é tão nocivo para as crianças como a insegurança transmitida pelos pais, mesmo que inconscientemente. Já lhe passaram pelas mãos inúmeras crianças com um tipo de asma, a atípica, que se pensa ser espoletada por sentimentos como o medo. "Dá-se quando o organismo reage a algo que não lhe é familiar e acaba por atacar-se a si próprio", esclarece. MEDOS (IN) JUSTIFICADOS Embora temam os acidentes domésticos, o que mais assusta Rosário Castro e Ana Teresa Lúcio é a eventualidade de um rapto. Essa probabilidade existe, mas os números não são assustadores o suficiente para provocar as vagas de pânico que o caso Maddie só veio alimentar. Segundo o Instituto de Apoio à Criança, entre 2004 e 2005 foram denunciados 48 casos de desaparecimentos, mas apenas seis se revelaram efectivamente rapto por terceiros - os restantes casos trataram-se de fugas de casa de adolescentes e raptos parentais. Já no Reino Unido, por exemplo, a polícia registou 846 casos de sequestro. Valerá a pena confinar as crianças a quatro paredes em nome da segurança e limitá-las à solidão de um jogo de computador? Os pais entrevistados pela GINGKO garantiram organizar actividades e jogos entre os filhos e os amigos, pelo menos ao fim-de-semana, e controlar o visionamento de programas televisivos. Mas em 2005 a investigadora Sónia Carrilho concluiu, após 1.093 questionários feitos a alunos do 5º ao 9º ano de três escolas da região de Lisboa, que estas crianças e adolescentes gastavam em média mais de 80 minutos acima das 3,2 horas indicadas no relatório da Eurostat como a média portuguesa para a população em geral, em 2001. A utilização da Internet é também crescente. Segundo dados da Marktest, nos dez primeiros meses de 2005 mais de 197 mil crianças entre os 4 e os 14 anos acederam à Web a partir das suas casas. Entretenimentos solitários em que a criança corre o risco de ser, além de assediada, um mero receptor passivo de informação. "Isto leva-nos a reflectir sobre as competências precoces das crianças na utilização das tecnologias de informação, sobre a ausência destas competências por parte dos pais, e também sobre o desenvolvimento de problemas de saúde, como a obesidade infantil", evidencia Paula Cristina Correia. "Além de eventuais problemas no desenvolvimento da capacidade de comunicação", complementa Sofia Coelho. "É muito importante que as crianças brinquem umas com as outras. Que assumam aqueles típicos papéis de enfermeiro, pai, mãe ou médico, pois funcionam como uma preparação para a realidade; aí os miúdos podem constatar que o ‘outro' pode ter sentimentos parecidos com os seus". Desta forma, aprenderão não só a viver em sociedade mas com eles próprios, deixando aos poucos emergir a sua própria identidade. E a aprender a voar sem receio. Cuidar é... - Estar sempre presente na vida dos filhos, dedicando-lhes tempo suficiente e interessando-se pelo seu desenvolvimento. - Deixá-los escolher e não os recriminar pelas más opções. Experimentar é fundamental ao crescimento e um insucesso é o primeiro passo para um futuro feito de muitas vitórias. - Explicar que no mundo coexistem o bem e o mal e é necessário empenharmo-nos para atingir os nossos objectivos. Superproteger é... - Estar sempre presente na vida dos filhos, mas de forma abusiva, controlando-os, pressionando-os ou fazendo as suas tarefas. - Não permitir a escolha, indicando o caminho que deve ser percorrido em todas as situações. - Mostrar aos filhos o mundo como um manancial de perigos onde terá de estar sempre alerta ou o paraíso construído à imagem dos seus desejos e aspirações ![]() ![]() ![]() COMENTÁRIOS 1 Um artigo muito interessante e didáctico.
Parabéns.
Cumprimentos
Olho de Turista
Festeje o Dia do Pai em www.aldeiadaminhavida.blogspot.com! Olho de Turista 06/10/11, 09:56 Moda Lisboa é transfusionAno após ano, semestre após semestre, dividem-se as colecções e juntam-se estações (Primavera ao Verão e o Outono ao Inverno) e lançam-se tendências.06/09/11, 10:21 Vogue Fashion’s Night Out: Lisboa vai estar na ModaLisboa vai transformar-se, durante quatro dias, numa das 20 capitais da Moda Internacional, para a segunda edição do Vogue Fashion's Night Out.24/03/11, 10:37 “IMAGINE”é o tema do 28.º Portugal Fashion"Imaginação ao poder" proclamaram os estudantes em Maio de 1968.09/03/11, 10:59 ModaLisboa arranca amanhã com muito "LOVE""LOVE" é o mote para os 20 anos da ModaLisboa, que amanhã arranca a sua 36ª edição, no Pátio da Galé, no Terreiro do Paço, e no MUDE - Museu do design e da |