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Ele faz a diferença
Moda Tendências
15/07/10, 11:02
Por Samuel Alemão, Fotos Filipe Pombo/AFFP - Em parceria com Gingko

No caos da guerra civil da Libéria um homem conseguiu provar que o ditador Charles Taylor beneficiava da venda ilegal de madeira da rica floresta do país. Silas Siakor ganhou reconhecimento internacional pela
coragem em denunciá-lo. Em entrevista à GINGKO, diz que o fez não apenas pelas árvores, mas sobretudo pelas pessoas.
Silas Siakor conheceu, desde cedo, a importância de optimizar recursos. Originário de uma modesta família da região central da Libéria, sentia o esforço que os pais faziam para sustentar uma prole de oito crianças. Agora, aos 40 anos e distinguido internacionalmente pelo seu activismo ambiental, sublinha à GINGKO a necessidade de o mundo conjugar a preservação do meio natural e a sustentabilidade económica com o respeito pelos direitos humanos.
É nas pessoas que este homem discreto e de trato fácil pensa sempre. Os africanos ansiosos por um sinal de esperança, e fartos do adiamento do sonho prometido aquando da libertação da alçada colonial, olham hoje para pessoas como ele. Fala-se de uma nova cidadania no continente. Silas é um activista no sentido mais notável da palavra. Mexe-se para que as coisas boas aconteçam. E elas acontecem mesmo.
O ditador Charles Taylor, responsável por um regime de terror que, entre 1997 e 2003, conduziu o país ao caos social e económico, caiu em parte devido ao trabalho corajoso de Silas Siakor. Ele ajudou a reunir provas que levaram Taylor a ser acusado por crimes contra a Humanidade. Ele conseguiu demonstrar que o presidente beneficiava financeiramente do comércio de madeira resultante do abate ilegal de árvores da rica floresta liberiana. Trabalho meticuloso e perigoso, com o risco da própria vida e que o obrigou a sair do país.
Mais do que tudo, havia que denunciar os inúmeros abusos sobre as populações. Taylor, que desde 1999 foi pivô de uma sangrenta guerra civil em várias frentes e envolveu-se também no feroz conflito da vizinha Serra Leoa, acabou por resignar em Agosto de 2003 após muitas pressões internacionais. Também nesse ano foi decretado um embargo internacional ao comércio de madeiras liberianas.
Herói verde
Quando o tirano saiu de cena já Silas Kpanan' Ayoung Siakor era uma personalidade na constelação global dos que lutam por um mundo melhor sem esperar que sejam as grandes instituições a fazê-lo. Em 2002 foi distinguido com o Prémio Whitley, patrocinado pelo casal de filantropos Sting - sim, o cantor - e sua mulher, Trudie Styler.
 Seguiram-se o Goldman Environmental Prize, em 2006, e o reconhecimento pela revista Time como um dos "heróis ambientais" do ano passado. Nesta condição viaja por todo o mundo envergando a bandeira do desenvolvimento sustentável. Conceito que ele se esforça por que não seja apenas expressão bem intencionada. "Pode ser interpretada de diferentes formas, em diferentes contextos. Na Europa, quando as pessoas falam de desenvolvimento sustentável falam sobre salvar as árvores, poupar energia, conduzir carros híbridos. No nosso contexto tem mais a ver com o ir ao encontro das necessidades humanas, usando os recursos naturais", explicou à GINGKO.
Espaço ao diálogo
Mais do que a transferência cega de dinheiro e de tecnologia, o que Silas defende é a existência de um espaço onde as pessoas se sentem, dialoguem e levantem questões como "quais são as nossas necessidades? Quais são as nossas prioridades? De que tipo de apoio precisamos realmente?". E isso, na maioria dos países africanos, "tem a ver com o mais básico que vocês têm na Europa, como comida, abrigo, educação, saúde", salienta Silas Siakor.
Não se trata apenas de fornecer tais serviços agora, mas de "garantir a sua continuação no futuro, permitindo que as pessoas tenham uma visão sobre o tema e a possam exprimir, clarificando o que desejam para o futuro da sua comunidade. Isso é determinante", afirma. Uma convicção resultante do que ele considera ser uma grande inabilidade dos estados ocidentais para perceberem a forma como devem apoiar os países necessitados. O que, muitas vezes, resulta em fracasso. "É necessário ouvir as pessoas primeiro, e não pensar que sabemos o que é bom para elas", aconselha.
Convém relembrar os rudimentos da democracia. Mesmo aos que julgam ter todos os argumentos para dela darem lições. "As pessoas desejam fazer parte do sistema de tomada de decisões, isso é algo universal, não apenas de África. No fundo, querem que as preocupações fundamentais do seu quotidiano sejam colocadas no topo das agendas dos líderes políticos", diz este homem que se lembra bem de como, em criança e na adolescência, eram resolvidas as situações de privação em sua casa, na pequena cidade de Gbarnga. Com rigor e sabedoria. Se a mãe cultivava o zelo na gestão adequada dos recursos, fossem eles a água, a comida ou as horas de televisão dos filhos, o pai tinha o seu estilo. "Nunca tinha medo de falar a verdade às pessoas. Se não gostava de uma decisão que estava a ser tomada e que prejudicava alguém não tinha qualquer problema em dizê-lo", recorda Silas. Ouvia primeiro e, feito o seu juízo, tomava a decisão que lhe parecia mais justa. Numa certa altura ele achou necessário aumentar a dimensão da habitação, pois havia pouco espaço para uma família tão grande. Mas fazer obras tinha implicações na alimentação e educação. O dinheiro não chegava para tudo. Então o pai de Silas Siakor perguntou: "Queremos mais espaço em casa ou mais comida na mesa?". As opiniões eram muito diversas. Ele ouviu todas as pessoas e decidiu aumentar a casa, não tanto como alguns queriam, mas ainda assim o suficiente para criar mais espaço.
São esses ensinamentos que Silas deseja ver aplicados na construção de sociedades mais justas, conjugando questões ambientais, económicas e de direitos humanos. Os três elementos não podem ser dissociáveis, defende. É essa mesma postura que norteia a actividade do Instituto do Desenvolvimento Sustentável da Libéria, por si criado em 2001, depois de se despedir do emprego que tinha como funcionário local das Nações Unidas. Uma função que tentava conciliar com os estudos e o voluntariado para uma organização não governamental dedicada às questões ambientais.
Plano de ataque
Concentrado num só objectivo, dedicou-
-se então à sua cruzada pessoal: a denúncia do saque que estava a acontecer na floresta liberiana, a maior e mais rica a nível de biodiversidade da África Ocidental. "Quanto mais falávamos sobre ambiente e direitos humanos tornavam-se mais evidentes as enormes perdas em termos económicos, a derrota das comunidades, a derrota do Estado", recorda. O desafio era fazer chegar essa informação, de forma credível, aos fóruns internacionais.
Entrou em acção a inteligência e perspicácia de Silas. "Como precisávamos de provas para demonstrar o que pretendíamos denunciar, tínhamos de encontrar e identificar ‘insiders', pessoas que estivessem dentro dessas companhias madeireiras e que nos pudessem fornecer informações fidedignas", lembra. Foram escolhidos como informadores os que trabalhavam com o processamento de dados nessas empresas, os que lidavam com a informação dos movimentos de cargas e descargas das companhias de navegação.
Silas estava na primeira linha para garantir que os denunciantes podiam confiar. "Estávamos já a divulgar informação que era muito importante, e confidencial, sem revelarmos as nossas fontes.
Por causa disso, eles ganharam confiança no nosso trabalho", explica. "Estas pessoas estavam desesperadas por pôr a informação cá fora porque não concordavam com o que se passava".
Denúncia como arma
A rápida destruição dos recursos naturais do pequeno país - primeira nação independente de África, criada em 1847 pelos Estados Unidos que compraram o território no continente negro para instalar os ex-escravos que quisessem regressar às origens - era um dado abertamente comentado entre a população. Silas tomou conhecimento da situação em 1997, pouco depois de Taylor chegar ao poder. Colaborava então na newsletter de uma ONG. "Isso colocou-me em contacto muito próximo e frequente com pessoas das áreas rurais. Então, comecei a documentar-me sobre os problemas ambientais em locais onde o corte de madeiras estava a acontecer", rememora.
Taylor, curiosamente também originário da cidade de Gbarnga, estava a beneficiar do tráfego de madeiras para pagar a guerra que alimentava desde 1989. E as pessoas sofriam as consequências. "À medida que me fui inteirando da situação, tornaram-se claros a magnitude e o peso dos problemas que os indivíduos enfrentavam", diz. Os abusos dos direitos humanos eram indiscriminados e as companhias de madeiras que operavam nessas áreas estavam a organizar as suas próprias milícias armadas, que saíam para aterrorizar os aldeões.
Havia que denunciar. "Tornou-se claro para mim que não poderíamos falar nos assuntos ambientais e, simultaneamente, ignorar o que se passava ao nível dos direitos humanos. Essa foi a base para juntar os dois temas e enfrentar ambos de igual forma", conta. Silas passou à acção. Em Setembro de 2002 a instituição por si criada publicou um relatório em que inventariava os negócios que estavam a ser feitos com a pilhagem da floresta liberiana.
Foi uma peça determinante para desacreditar, ainda mais, Charles Taylor perante os olhos do mundo. Silas sentiu-se gratificado pelo elogio mundial dos seus esforços. Nada mau para alguém que, em miúdo, apenas comia uma vez por dia e aos dez anos apanhava lenha e a vendia aos vizinhos para ter dinheiro para comprar o almoço na escola.
Um pormenor: Silas votou a favor do aumento da casa onde vivia.

www.gingko.pt


 

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