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Montepio
Entusiastas da passarada
Moda Tendências
25/02/10, 13:51
Texto de Teresa Violante e fotos de Paulo Castanheira/AFFP - em parceria com Gingko

De binóculos em riste, os birdwatchers passam horas a observar aves, alheios aos ponteiros do relógio. E aquilo que começa como passatempo muitas vezes torna-se paixão e estilo de vida.
Perante o diagnóstico de melanoma e apenas seis meses de vida a norte--americana Phoebe Snetsinger fez o inesperado: aproveitou todo o tempo de que dispunha para observar aves. E assim, quando em 1999, dezoito anos após o prognóstico de cancro, morreu num acidente de viação, Snetsinger, autora de "Birding on Borrowed Time", era a pessoa que observara mais espécies de aves no mundo, ultrapassando as oito mil.
A actividade de birdwatching não é nova. Há muito que conquistou adeptos em todo o mundo, especialmente nos países anglo-saxónicos. Não há números oficiais, mas estima-se que a comunidade internacional de praticantes ascenda a 80 milhões. Em Portugal há um interesse crescente. Criado em 2008, o portal avesdeportugal.info teve mais de 250 mil pageviews nos primeiros nove meses de funcionamento e, em 15 anos, a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) passou de 200 para 2.500 sócios.
Mescla de gosto pessoal e estilo de vida, a observação de aves é muito mais do que andar de binóculos pelo campo a ver passarinhos. "É algo que faz parte da minha vida a um nível muito profundo", diz Gonçalo Elias, birdwatcher e engenheiro electrotécnico no sector das telecomunicações, autor e co-autor de cinco livros, dinamizador do site avesportugal.info e organizador de saídas de campo.
Aos 15 anos acompanhava o tio que ia "ver pássaros" e aos poucos começou a interessar-se pelas aves. "No dia 22 de Dezembro de 1987, inaugurei oficialmente a minha lista. Desde então nunca mais deixei de anotar tudo o que observo no campo". Já tirou notas de cerca de 1.500 espécies. "Parece muito, mas representa apenas 15% das espécies de aves existentes no mundo". A maior parte delas foram vistas no continente africano.
"Já andei pela Europa, da tundra árctica às ilhas do Mediterrâneo, dos Balcãs às montanhas dos Alpes". Na sua última viagem foi até à Etiópia, "um dos melhores do continente africano em termos avifaunísticos". Sem ambições de ter uma "longa lista", confessa que gostaria de ir à Austrália e à Patagónia.
A vontade de ver novas aves leva os birdwatchers a visitar lugares que de outra forma não conheceriam, em Portugal ou no estrangeiro. "Em grande parte por causa desta actividade, posso orgulhar-
-me de já ter visitado todos os concelhos de Portugal continental e quase todos os das ilhas", afirma Gonçalo Elias.     
Por paixão e profissão
Também Rita Ferreira, bióloga, descobre o país a reboque da sua paixão pelas aves. A actividade já a levou a Espanha, mas ainda tem muito por explorar no território nacional.
"Em duas semanas é possível ver cerca de 200 espécies de aves", aponta Domingos Leitão, coordenador do programa rural da SPEA. Em Portugal existem espécies endémicas como o priolo, que apenas se avista numa parte da ilha de São Miguel, ou o pombo da Madeira, freira-da-
-Madeira e freira do Bugio, presentes em exclusivo na ilha madeirense.
No Continente "não temos espécies endémicas, mas algumas só podem ser vistas cá e em Espanha, como a pega-azul, o charneco, o estorninho-preto ou a águia-
-imperial". Factores que tornam o país atractivo aos olhos da comunidade internacional de birdwatchers.
"Há muitos bons locais para observação de espécies em Portugal", corrobora Rita Ferreira. Tantos que é difícil apontar o seu preferido. "Por trabalhar directamente com a águia de bonelli tenho um carinho especial por esta espécie". Assim, não é de estranhar que Rita frequente várias vezes a região do Tejo Internacional, muito procurada por aves de rapina.  
O interesse da bióloga pelas aves começou como actividade de lazer, mas com o passar do tempo tornou-se, simultaneamente, paixão e trabalho. "Desde criança que gosto muito de animais e de observá--los em estado selvagem. O interesse surgiu quando entrei na universidade, motivada por alguns amigos", recorda. A formação académica dotou-a de uma perspectiva científica que só aumentou o seu interesse pela avifauna.
"A forma como se adaptaram aos vários tipos de habitat permitiu-lhes adquirir uma diversidade fantástica, conferindo-
-lhes diversas formas, tamanhos e cores. É assistir à evolução em acção", afirma entusiasmada. E cada saída para o campo, sozinha ou acompanhada, é única. "Temos quase a garantia de que vamos ver qualquer coisa e o desafio de as identificar, quer pela observação directa quer pelo canto".    
De olhar a ver
Pedro Coelho, vice-presidente dos CTT, é outro aficionado da observação de aves. Tudo começou numa viagem de férias ao Brasil há 20 anos, quando, por curiosidade, comprou no aeroporto o guia The Birds of the World. De volta a Portugal, aprofundou o interesse. "Quase todos os anos passava algumas horas nos sapais de Vila Real de Santo António e Castro Marim a olhar as aves. Não sabia se o que via era um borrelho ou um pilrito. Já tinha experiência de olhar, não tinha experiência de ver", conclui. O guia de aves ajudou-o a descodificar as espécies, mas a vontade de saber mais levou-o a frequentar um curso de observação de aves na SPEA.
"Apercebi-me de que é um estímulo interessantíssimo para quem viaja. É um valor acrescentado". As suas férias não são planeadas de acordo com as potencialidades de avifauna do destino - "tenho de negociar com a minha mulher; não tenho o direito de a obrigar a ir para um sítio só de aves" -, no entanto, assim que lá chega, Pedro Coelho procura de imediato lugares onde dar uso aos binóculos e ao telescópio.
Há dois anos regressou com a família ao Kruger Park e deliciou-se com diversas espécies que não integram a famosa lista dos big five.
"Vi aves sensacionais numa época em que nem é a melhor para observá-las". Sem tempo para saídas de campo com regularidade, Pedro Coelho pratica birdwatching no dia-a-dia. Identifica os pássaros que visitam o jardim que rodeia o seu escritório (melro, rola-turca, pintassilgo, pardal doméstico, alvéola) e entre tacadas nos greens aproveita para admirar as espécies que por ali pairam.
"Os campos de golfe tornaram-se santuários de aves", observa.     
Como muitos outros birdwatchers, Gonçalo Elias, Rita Ferreira e Pedro Coelho não se limitam a observar e identificar espécies. A paixão pela avifauna e a consciência ambiental leva-os a contribuir, através de acções de sensibilização ou voluntariado, para a preservação da natureza. É que as aves são representativas da biodiversidade dos ecossistemas e servem de indicador de desenvolvimento sustentável.   
www.gingko.pt

 

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