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Eu, mim e migo
Moda Tendências
19/10/09, 10:33
Em parceria com Super Interessante - Por L.M.

Os especialistas advertem que olhamos cada vez mais para o nosso umbigo, que a sociedade dos nossos dias está a engordar o ego dos jovens até níveis nunca vistos. Analisámos as consequências desse crescente individualismo
Maria Antonieta ficou na História como estereótipo do egocentrismo dos aristocratas. Filha do imperador Francisco I, passou a infância em Viena, rodeada de atenções. Segundo narram as crónicas, só se interessava por roupas e por cuidar de si própria desde criança. Em 1770, quando tinha 14 anos, casou com Luís XVI de França; a partir daí foi considerada uma das damas mais belas da Europa. Tudo o que fazia era elogiado. O político britânico Horace Walpole escreveu: "Há quem diga que a rainha não acompanha o ritmo quando dança, mas sem dúvida é o ritmo que está errado."
Essa fama de mimada valeu-lhe a inimizade dos franceses na época pré-revolucionária, quando se tornou conhecida a frase mais célebre da nobre austríaca. Dizem que um ministro lhe transmitiu: "Majestade, o povo queixa-se." "E por que razão se queixa?", perguntou. "Majestade, porque não há pão e as pessoas passam fome." "Pois que comam bolos", teria respondido a rainha.
Esta e outras histórias espicaçaram, definitivamente, o ódio popular durante a Revolução Francesa. Maria Antonieta foi morta na guilhotina a 16 de Outubro de 1793, meses depois da execução do rei. Contam que as suas últimas palavras foram: "Desculpe, monsieur, foi sem querer." Parece que tinha pisado o carrasco enquanto subia ao cadafalso. Os historiadores modernos pensam que estes relatos são apócrifos. De facto, muitas destas histórias já eram narradas antes, sendo atribuídas a outras personagens.
A famosa rainha transformou-se na principal representante de um certo tipo de figura: os meninos malcriados e egocêntricos que acabam por se tornar adultos malcriados e egocêntricos.
Em 1995, dois séculos depois da execução de Maria Antonieta, um rapazinho inglês, Tom Hadfield, criou o portal Soccernet usando o computador dos pais. A empresa chegou a ser avaliada em 40 milhões de dólares.
O principal problema é que ninguém sabia que o inflexível director não passava de uma criança. Quando tinha de negociar através da Internet, o pequeno Tom tinha dificuldade em compreender certas palavras, pelo que pediu à mãe para lhe comprar um dicionário. Todavia, isso não impediu que os seus concorrentes o considerassem um "tubarão" no mundo dos negócios: o seu estilo narcisista e egocêntrico transformou-o num rival extremamente competitivo.
Hoje, o menino-prodígio é um exemplo para milhões de jovens de todo o mundo que procuram copiar o seu êxito. Ao contrário da rainha narcisista, a avaliação moral de que é alvo é muito positiva. Temos vindo a assistir, ultimamente, a uma hipertrofia do Eu. Podemos verificar o fenómeno diariamente pela grande quantidade de frases que reflectem essa tendência. Expressões do género "quero sentir-me realizado", "é preciso ser autêntico", "tenho crises de identidade" ou "quero encontrar-me a mim mesmo" são moedas de uso corrente. A auto suficiência que invadiu a nossa linguagem também tem consequências a nível social.
Jovens encantados por existirem
Um dos principais estudiosos do fenómeno é Jean Twenge, professora da San Diego State University (EUA). O seu livro "Generation Me" procura definir os jovens nascidos depois de 1970 nos EUA. Segundo a psicóloga, tratam-se de pessoas prepotentes e arrogantes, encantadas por se terem conhecido.
De facto, Jean Twenge descobre neles a marca de uma educação destinada a potenciar a auto-estima, predominante nas salas de aulas norte-americanas durante os anos 70.
A autora recorda um exemplo clássico, o jogo do círculo mágico: todos os dias, um aluno era "o maior menino" e o resto da classe, sentada em seu redor, tinha de enumerar as suas qualidades. No entender de Jean Twenge e de outros autores, essa "inundação" do ego não está muito longe da educação que Maria Antonieta recebeu. De acordo com os psicólogos evolutivos, nos primeiros anos de vida somos incapazes de ver as coisas do ponto de vista do outro.
As crianças podem dizer que têm um irmão, mas esse irmão não os tem. É a idade em que acordam os pais porque já estão acordados, mas detestam que lhes façam o mesmo. Pouco a pouco, amadurecemos. A endoculturação (isto é, a transmissão da norma através de pais, amigos ou irmãos) encarregar-se-á de canalizar os excessos. Se a nossa auto-suficiência não se tornar adaptativa, continuaremos a olhar para o umbigo.
Caso contrário, iremos manter a nossa atitude egoísta. Segundo Jean Twenge, a actual sociedade norte-americana (e, paulatinamente, a europeia) reforça continuamente a importância do ego, o que produz crianças tirânicas, - fenómeno sobre o qual já foram escritas muitas obras - e adultos completamente ególatras.
Um fenómeno que vem de longe
Evidentemente, o fenómeno não é novo. De acordo com o psicólogo Roy Baumeister, da Universidade do Estado da Florida, o aparecimento do cristianismo, o Renascimento e a Reforma protestante, o Iluminismo, o movimento romântico e, finalmente, o impacto do capitalismo abriram caminho ao individualismo.
Há mais de cem anos Oscar Wilde afirmava que "amar-se a si próprio é o princípio de um romance para toda a vida". Baumeister diz que todas essas mudanças históricas dotaram o homem de quatro factores que possiblilitaram a actual sociedade egocêntrica.
Em primeiro lugar, o autoconhecimento: a prática da confissão cristã, introduzida no século XIII, é um exemplo de fenómeno colectivo que transformou a psicologia individual.
Em segundo lugar, a mudança nos critérios que usamos para nos definirmos: a partir do século XVII, a identidade deixa de ser associada à linhagem familiar.
Em seguida, surge o tipo de relações que se estabelecem entre o indivíduo e a sociedade; a rebeldia romântica, por exemplo, aumentou a percepção de um Eu em conflito com o mundo. Por último, surgiu a necessidade de auto-realização, fomentada a partir da eclosão do capitalismo.
Com efeito, o aspecto económico é fundamental para se poder entender a Geração Eu, pois a ênfase colocada nos recursos individuais demonstrou ser eficaz num mundo laboral competitivo.
Isso poderia explicar, por exemplo, os dados reunidos por Joshua Foster, professor de psicologia na Universidade do Sul do Alabama e autor do teste NPI (Narcissistic Personality Inventory), para avaliar o nível de auto-suficiência.
Nos últimos estudos que efectuou, os adolescentes norte-americanos obtinham as pontuações mais elevadas. Além disso, estamos perante uma tendência em alta, pois as referidas classificações aumentaram 25 por cento desde o começo da década de 1990, quando Foster iniciou os seus estudos.
O investigador recorda que esse incremento esteve directamente relacionado com a revitalização da economia norte-americana. Talvez por isso, gurus da economia como Jim Collins, professor da Stanford Business School, recomendam que sejam seleccionadas pessoas com um NPI elevado para ocupar cargos executivos.
"Por detrás de todo o grande êxito económico actual está uma pessoa narcisista e auto-suficiente", argumenta.
Desencadearam a crise?
Edward Roberts, professor da MIT Sloan School of Management, chegou à conclusão de que as empresas procuram a confiança em si próprio. Os integrantes da Geração Eu não conhecem o receio de cometer erros. Não temem, por exemplo, desobedecer a ordens dos superiores.
Sonham em tornar-se o fundador do próximo Google. Por isso, encaram os processos de selecção como uma oportunidade para escolher a empresa; não é a companhia que os está a testar a eles.
E, embora se enganem frequentes vezes, quando acertam podem tornar-se milionários. Casos como os de Bill Gates (Microsoft), Jeff Bezos (Amazon) ou Sergey Brin (Google) são paradigmáticos.
No entanto, Roberts faz parte de um grupo de economistas que não estão convencidos de que as vantagens pessoais dessa ousadia revertam para a sociedade.
Num artigo recente, interrogava-se sobre até que ponto a actual crise económica não teria sido causada pelos petulantes membros da Geração Eu.
Outros investigadores sublinham que essa cultura tende a esquercer os benefícios de uma perspectiva mais comunitária.
Um exemplo recente é o livro "Choice - True Believers and Charismatic Cults", de Janja Lalich, socióloga e professora da Universidade do Estado da Califórnia. Esta investigadora opõe-se à demonização dos colectivos humanos que as pessoas tendem a associar a termos como "seitas", "bandos de rua" ou "hooligans". Lalich argumenta que a manipulação, a violência física, a privação de sono ou a utilização de técnicas de controlo mental constituem uma excepção na formação dos grupos.
O mais habitual é basearem-se em relações pessoais e acordos entre membros e líderes.
De facto, a adesão processa-se através de uma escolha pessoal: acreditamos que nos irá trazer algo para melhorar a nossa vida. Lalich também rejeita a ideia de que aqueles que pertencem a colectivos o fazem por carências emocionais.
Pelo contrário: segundo a socióloga, a inteligência, a curiosidade, a força mental e o idealismo costumam ser requisitos para pertencer às sociedades que estudou.
Na sua opinião, estas pessoas caracterizam-se pelo compromisso e por possuírem uma elevada sensibilidade social e política.


 

Condensado de "Eu, mim e Migo", Super Interessante nº138, Outubro 2009
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