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Hortas para todos
Moda Tendências
21/10/10, 11:14
Por Cláudia Ferreira Henriques, Fotos Filipe Pombo/AFFP - Em parceria com Gingko

Se cada um de nós fizer a sua parte, todos ganham. A Horta da Formiga - Centro de Compostagem Caseira é o contributo da Lipor para um mundo mais verde. Junte-se ao movimento.
"Quem nos viu e quem nos vê", exclama Benedita Chaves, coordenadora do Departamento de Valorização Orgânica da Lipor. O motivo de orgulho é a Horta da Formiga, criada em 2002 pela entidade responsável pela gestão, valorização e tratamento dos resíduos urbanos de oito municípios do Norte. A sua missão é educar e sensibilizar a população, promovendo a compostagem caseira, agricultura biológica e contacto com a Natureza. "Queremos ser úteis a quem nos procura. Quando todos souberem o que é a compostagem caseira e grande parte da população a praticar, teremos cumprido o nosso objectivo", assume a responsável.
O projecto tem crescido a bom ritmo e hoje engloba os programas Horta-à-Porta, hortas biológicas do Grande Porto, Terra à Terra, projecto de compostagem caseira e Horta na Escola, projecto de compostagem e agricultura biológica em meio escolar. "Começou com um pequeno projecto de demonstração, visitas para as escolas e curso de agricultura biológica. Hoje, fazemos mais de 100 cursos anuais em áreas tão variadas como a poda de árvores de fruto e o aproveitamento de sobras alimentares", diz com regozijo.
Um dos projectos mais visíveis da Horta da Formiga é o Horta-à-Porta que, desde 2003, permite a criação de hortas biológicas, iniciativa que envolve autarquias, juntas de freguesia e a Lipor. Os actuais 409 talhões de, no mínimo, 25 m2 distribuem-se por 14 hortas. As mais de 1800 inscrições comprovam o êxito da iniciativa. "As pessoas que vivem nas cidades necessitam de contacto com a natureza. Queremos devolver esse hábito, incentivando boas práticas agrícolas e proporcionando uma espécie de terapia ocupacional", esclarece Ana Lopes, responsável pelo projecto. Um apelo sentido por Humberto Rebelo, 68 anos, a viver na Maia. "A terra liberta-me. Trabalhá-la é apaixonante. Quando comecei a pensar na reforma, decidi ocupar o tempo e sentir-me útil. Tinha ouvido falar do projecto Horta-à-Porta, informei-me e percebi que era o que procurava", conta. E recorda: "Sou natural de Vila Real. Os meus pais tinham um quintal onde eu e a minha irmã adorávamos brincar. Quando eu e a minha mulher viemos para o Porto, a nova casa também tinha um pequeno quintal, ao qual me dediquei com prazer. Ao domingo, era preciso chamar--me várias vezes, porque ficava lá horas esquecido". Humberto visita duas a três vezes por semana o seu talhão na Horta da Quinta da Gruta, na Maia, para cuidar do alho francês, ervilhas, alface, favas, couve-roxa. Um passatempo que dá frutos. "No ano passado, colhi 15 quilos de feijão, que dividi pelos filhos. É fantástico ir à horta apanhar um repolho para a sopa. O aroma e o sabor são completamente diferentes", garante. O balanço de dois anos como agricultor é positivo. "A horta ajuda a matar saudades do passado. Conhecemos pessoas muito diferentes com quem criamos fortes laços de amizade. Oferecemos e trocamos produtos quando a colheita é boa, conversamos, mostramos as nossas plantações. É um mundo à parte". 
DAR E RECEBER
Mas, como funciona o Horta-à-Porta? "É necessário que uma autarquia ou junta de freguesia nos ceda terreno. As entidades estabelecem um protocolo, criam-se as hortas e os interessados inscrevem-se por telefone ou no site", explica Ana Lopes. "A atribuição de talhões é feita por ordem de inscrição e em função das condicionantes da horta, definidas pelo proprietário. Por exemplo, se é só para residentes na freguesia ou no município". O acordo entre o futuro agricultor e a Lipor, válido por um ano, estabelece direitos e deveres dos participantes. "É proibido utilizar químicos e a violação da regra dita expulsão imediata. Os vizinhos são os maiores polícias. Se desconfiam de algo irregular na horta do lado, avisam-nos. Até enviam fotografias", revela Cristina Ferreira, uma das formadoras que dão apoio no projecto.
No ano passado, houve novidades no Horta-à-Porta com a criação das hortas de subsistência. "Os bens cultivados nestas hortas podem ser comercializados numa banca do mercado municipal cedida pela autarquia e, assim, complementar o orçamento familiar.
Há uma horta na Maia e outra em Rates. Esta última insere-se num bairro social, onde existia o terreno, e destina-se exclusivamente aos moradores. Foi a própria junta de freguesia que nos procurou para ajudarmos na sua criação. Estamos em processo de formação dos novos agricultores", esclarece Cristina. Um projecto de responsabilidade social com impacto directo na vida dos munícipes. A primeira horta social foi inaugurada em Novembro passado, na Maia. "Inscreveram-se pessoas comuns, da classe média, que, por infelicidade, da vida se viram numa situação económica complicada".
Não são só as hortas que ocupam o tempo de Ana Lopes. A engenheira química também é gestora do projecto Terra-à-Terra. "Através da compostagem caseira, queremos reduzir os resíduos orgânicos das habitações na área de intervenção da Lipor", informa. A iniciativa envolve oito municípios: Espinho, Gondomar, Maia, Matosinhos, Porto, Póvoa de Varzim, Valongo e Vila do Conde. "Já distribuímos 2500 compostores. A meta são 10 mil". Para participar, basta ter mais de 18 anos e residência com jardim. Sem custo para quem se inscreve, tem como única contrapartida a frequência de uma formação de três horas. "Depois do curso, entregamos o compostor à pessoa, que terá de mantê-lo activo ao longo de um ano. Fazemos visitas de acompanhamento e, se tudo estiver em ordem no final desse período, cedemo-lo a título definitivo", conta a técnica.
SEMEAR HOJE PARA COLHER AMANHÃ
A pensar no futuro e na mudança de comportamentos, desde 2004 que a Horta da Formiga leva a horta à escola. "A grande missão é estimular a comunidade escolar para boas práticas ambientais. Queremos que o que ensinamos hoje às crianças crie adultos mais conscientes. Simultaneamente, sensibilizamos pais e famílias", afirma Joana Santos, que está na gestão do projecto há dois anos. Na prática, trata-se de ajudar as instituições de ensino a instalar um compostor e uma horta biológica. "As escolas inscrevem-se, querem trabalhar connosco e empenham-se", salienta. Não faltam indicadores do sucesso da medida. "No ano lectivo passado, colaborámos com 42 escolas de todos os níveis escolares das oito autarquias". A recompensa chega no dia--a-dia e através de pequenos episódios. Ainda hoje Emília Machado, responsável pelas visitas escolares, sorri quando recorda a admiração de um grupo de crianças que visitou a Horta da Formiga. "Ficaram surpreendidos quando viram que os morangos cresciam numa planta rasteira e não numa árvore. Foi engraçado ver a sensação de prazer quando os colheram e comeram", recorda.
Acreditando que faz a diferença, a Horta da Formiga revê-se nas características do insecto que lhe dá nome. "A formiga tem a ver connosco. Anda por todo o lado e trabalha muito no Verão, para ter frutos no Inverno. É preventiva", resume Benedita Chaves. Também a Horta da Formiga semeia hoje para colher amanhã. Por um mundo melhor.
www.gingko.pt
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