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Montepio
Lar, doce escritório
Moda Tendências
25/03/10, 10:29
Texto Rita Duarte e fotos Paulo Castanheira/AFFP

Voip, wireless, broadband, são alguns dos palavrões que mudaram os hábitos sociais e de trabalho. São eles que nos permitem contactar um cliente nos antípodas e trabalhar em qualquer lugar. Funcionar fora da empresa é cada vez mais fácil.
Ouve-se uma forte buzinadela vinda do carro do lado. O condutor que segue na sua frente esbraceja: "Tem pressa? Também eu! Passe por cima!". A cena repete-se todos os dias. Faça chuva ou faça sol, mais de metade dos portugueses faz diariamente o mesmo trajecto de casa para o trabalho e do trabalho para casa.
Em carro próprio ou em transportes públicos, engrossam as filas de trânsito, causam engarrafamentos, poluem a atmosfera, zangam-se, gritam, buzinam, e perdem qualidade de vida. Gastam tempo e dinheiro.
"Se em Lisboa, por exemplo, 10% das pessoas não entrassem no centro da cidade ou o fizessem a horas diferentes, muito se pouparia". Quem o afirma é Miguel Reynolds Brandão, CEO da TELEMANutenção, empresa de venda de serviços de apoio à gestão e marketing de empresas. O responsável percebeu, há mais de 16 anos, que o segredo está em utilizar uma rede de profissionais independentes a operar em regime de teletrabalho.
Menos trânsito, mais trabalho
Fazendo contas, baseado em dados fornecidos pelo The Intergovernamental Panel of Climate Change (IPCC), uma comissão científica coordenada pela Organização Meteorológica Mundial e pelo programa para o Ambiente das Nações Unidas, Miguel Brandão facilmente demonstra que basta retirar 50 mil pessoas das estradas da capital para poupar mais de 220 milhões de euros por ano. "Desde 1993 que somos pioneiros a nível mundial no uso do modelo de teletrabalho". Ou seja, a usar as vantagens das tecnologias para desenvolver funções à distância, o que não se reduz à habitação. "É-me indiferente se a pessoa que colabora comigo está na empresa ou em casa, desde que cumpra os objectivos que lhe foram propostos", enfatiza Brandão.
Susana Torrão, jornalista, concorda: "Tenho apenas de entregar os textos a tempo e horas. Não importa se os fiz no fim-de-semana, à noite, ou na praia". Depois de 15 anos a trabalhar por conta de outrem, decidiu, em 2006, lançar-se sozinha no mundo freelancer. E do teletrabalho, já que o seu escritório e a sua casa têm a mesma morada. Quatro anos passados pode fazer um balanço. "Apesar de haver maior liberdade, para funcionar é preciso adquirir estratégias importantes. Nunca me levanto depois das oito da manhã, faço uma pausa para almoço e esforço-me por não trabalhar à noite, para reservar tempo para mim", esclarece. As novas tecnologias permitem-lhe fazer quase todo o trabalho sem sair da cadeira. "Longe vai o tempo em que trabalhava numa empresa, colaborava ocasionalmente com outras publicações, e precisava de atravessar a cidade com uma disquete debaixo do braço para descarregar o trabalho".
Maravilhas tecnológicas
Hoje a Internet resolve muitos problemas: permite enviar textos, pesquisar temas e fazer contactos com pessoas e empresas, estejam elas na mesma rua ou do outro lado do mundo. O sistema Voip (Voice Over Internet Protocol) permite estabelecer comunicações a longa distância a custo zero, ou a custo mais reduzido relativamente aos sistemas tradicionais. E o investimento que as operadoras têm feito na banda larga (broadband) permite aos usuários desfrutar de serviços completos de multimédia, podendo assistir a entrevistas, notícias, filmes, etc. "Muitas vezes, enquanto almoço ou espero por uma reunião, aproveito para ouvir palestras ou aulas de temas diversos de algumas das Universidades mais prestigiadas do mundo. Já me aconteceu querer assistir a uma mas, por indisponibilidade, inscrevi--me no site da organização e acompanhei as apresentações que mais me interessavam. Posso estar num sítio qualquer e, ao mesmo tempo, manter-me actualizado sobre todos os temas que me interessam", diz Miguel Reynolds Brandão.
Foi precisamente a evolução da tecnologia que levou à alteração de hábitos sociais e de trabalho e permitiu a profissionais, como Lara Vasconcellos, realizar uma mudança radical na vida. "Sou completamente a favor do teletrabalho", confessa. Aos 36 anos decidiu dedicar mais tempo aos filhos, à família e à carreira. Saiu da empresa onde trabalhava, inscreveu-se num mestrado em Museologia no ISCTE e iniciou uma actividade por conta própria na área da comunicação institucional e publicitária. "Não estava tempo nenhum com os meus filhos. Agora vou levá-los e buscá-los à escola, e até acompanho as aulas de natação. Trabalho durante o dia e à noite, depois das minhas aulas. É só preciso ter organização e não entrar em pânico no caso de as coisas não correrem exactamente como o planeado".
"Segundo o artigo 233º do Código de Trabalho, o teletrabalho é uma forma de trabalho à distância que junta dois elementos: a possibilidade de o empregador receber o trabalho de forma remota; e o recurso a tecnologias de informação e comunicação" observa Glória Rebelo, investigadora, professora universitária e autora do livro Teletrabalho e Privacidade: Contributos e Desafios para o Direito do Trabalho.
Telecentros locais
Há exemplos internacionais de sucesso. Em países como a Suécia foram colocados telecentros ao serviço de populações locais. Dotados das mais avançadas tecnologias de informação, constituem um nível intermédio entre o trabalho no escritório tradicional e o trabalho em casa. Sem necessidade de fazer grandes investimentos, pelo menos numa primeira fase, os indivíduos podem iniciar empresas ou, simplesmente, continuar a trabalhar na sua área de interesse mais perto de casa. Em Lisboa, o Espaço Ávila - Business Center funciona nesta lógica. Fundado em 2004 e parceiro em Portugal do e-Office, rede internacional de centros de negócio, presta serviços telefónicos personalizados, arrenda escritórios, salas para acções de formação e ainda, em regime de parceria, dá apoio jurídico, de contabilidade, consultoria fiscal e webdesign. "Na sua maioria, os nossos clientes, 42%, são teletrabalhadores", garante Carlos Gonçalves, responsável pelo Espaço Ávila. "Procuram-nos profissionais que trabalham nas instalações dos clientes, empresas start-up, a quem damos apoio na fase inicial do negócio, que pretendem abrir filiais em Lisboa, ou que subcontratam serviços administrativos".
Há inúmeras vantagens. Mas "para o trabalhador pode trazer também desvantagens, como a confusão entre o que é a vida privada e a profissional", adverte Glória Rebelo. "No entanto, a protecção laboral, relativamente a outra forma de contratação, é a mesma", afirma. "Aliás, em 2003 houve a preocupação dos legisladores em salvaguardarem eventuais problemas de descriminação do teletrabalhador face aos seus colegas a trabalhar no local, ou no que diz respeito à sua privacidade. O trabalho suplementar e sua fiscalização também são aspectos a considerar".
Em 2006, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, 45,4% dos agregados familiares portugueses possuíam computador e, destes, 35,2% tinham acesso à Internet. Os dados do Barómetro de Telecomunicações para o trimestre de Maio de 2008 indicam que 2,6 milhões de portugueses utilizam um telemóvel de terceira geração, que permite realizar vídeo--chamadas.
Case Study
Apesar das limitações, verifica-se que, em Portugal, há interesse pelas novas tecnologias e facilidade no acesso às mesmas. Porém, não há ainda muita vontade da parte dos empregadores e dos colaboradores em aderir ao teletrabalho.
Como exemplo destaca-se o caso da Microsoft, case study nesta área, já que tem um sistema de avaliação por objectivos que permite o trabalho a partir de casa. "A Microsoft oferece aos colaboradores uma infra-estrutura de comunicações de banda larga que eles utilizam e lhes permite usufruir de um ambiente de trabalho muito aproximado ao do escritório", informa Patrícia Tavares, relações públicas da subsidiária portuguesa. No entanto, quando há cerca de três anos tentaram implementar um programa de teletrabalho (em exclusivo) não receberam qualquer candidatura. Patrícia avança uma explicação: "Apesar das muitas vantagens, apresenta um óbice importante para uma cultura de empresa como a da Microsoft: a privação do convívio diário com os demais e o trabalho em equipa. Adicionalmente, a facilidade de trabalhar a partir de casa não cria na organização a necessidade de deslocalizar em permanência o posto de trabalho para a residência".
Um relatório editado em 2000, intitulado "Estudo do Teletrabalho em Portugal", inserido no programa PESSOA, revela que "as empresas portuguesas não estão tão despertas para o potencial activo do teletrabalho como para o passivo - isto é, é mais visto como uma forma de reduzir custos do que de melhorar a qualidade e produtividade dos produtos e serviços".
Adianta ainda que "a principal desvantagem apontada pelos empresários será a ‘maior dificuldade em controlar e supervisionar os teletrabalhadores', o que revela o ‘receio que os responsáveis têm de perder o controlo sobre os seus subordinados e de não serem capazes de gerir eficazmente à distância'".
A tecnologia anda à velocidade da luz. Se o propósito é facilitar a vida a pessoas e empresas, é necessário que as mentalidades também acelerem.
Talvez, depois, se entre numa agradável velocidade de cruzeiro.

www.gingko.pt

 

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