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Montepio
Manual do viajante responsável
Moda Tendências
05/11/09, 10:11
Por Sara Raquel Silva - Ilustração: Rachel Caiano - Em parceria com Gingko

Em viagem desejamos que o impacto da nossa presença seja positivo sobre as pessoas que escolhemos conhecer. Mas por vezes contribuímos para a diluição da cultura e degradação do seu ambiente. Saiba como evitá-lo.

Há qualquer coisa de romântico no viajante. Quer seja aquele que, como Bruce Chatwin, atravessou a Patagónia descabelado e com banhos em falta, ou o pouco sóbrio Jack Kerouac à descoberta de uma América em transição. E, mesmo que até os espíritos mais tradicionais não lhes queiram seguir os passos, é quase certo que tenham sonhado em viajar. Até às Maldivas, às Bahamas ou, em caso de bolsos menos recheados, até Cabo Verde, Brasil ou República Dominicana. Para nadar em águas quentes, viver de marisco e frutos tropicais, adormecer ao som do desmanchar das ondas na areia, certos de que regressariam com uma experiência única no currículo. É legítimo. Dormir na estrada ou no deserto a céu aberto não é aliciante para a maioria. Mas convém não esquecer que ao optar por ficar em mega-resorts, ao preço da chuva, poucos serão autênticos viajantes; apenas turistas. E que o turismo, além de responsável por 6% a 7% das emissões de CO2 na atmosfera - o avião é um meio de transporte altamente poluente -, tem contribuído para o aprofundamento das desigualdades socioeconómicas entre os países mais desenvolvidos (os do Norte) e os mais pobres, normalmente os receptores (os do Sul), comprometendo em alguns casos as suas culturas, tradições e património natural.
E porquê? Porque o consumidor quando compra um pacote de férias não está a adquirir algo fisicamente palpável, mas sonhos e ilusões proporcionados por grandes operadores turísticos, concentrados em oferecer aos seus clientes um paraíso - mesmo que quimérico e a um preço simbólico - que a maioria nunca chega a conhecer. À custa muitas vezes de paisagens naturais únicas, que são transformadas em campos de golfe ou piscinas rodeadas de amplos relvados; dos salários abaixo da média dos profissionais ligados ao sector parcamente remunerados pelo seu trabalho; da cultura e tradições locais vítimas de alterações para fins comerciais, mero folclore para turista ver.
Com vista a minorar os efeitos deste fenómeno crescente a nível mundial, a em finais dos anos 80 organizações como a World Tourism Organization e a World Commission on Environment and Development começaram a apelar a advogar em favor de um turismo sustentável e responsável. Ambas as concepções defendem viagens para áreas que conservem a envolvente natural, melhorem as condições para o bem-estar dos locais e envolvam as autoridades na monitorização do impacte das visitas e da construção de grandes resorts.
Obviamente, é difícil a muitos países ditos em desenvolvimento resistir às propostas aliciantes de alguns grupos económicos. Não só pelas quantias envolvidas (segundo a Organização Mundial do Turismo só em 2003 a actividade movimentou mais de 500 milhões de dólares), mas também porque a curto prazo o turismo apresenta as suas vantagens: cria empregos e favorece o intercâmbio cultural.

 
Antes de partir deverá:
Escolher devidamente o hotel ou eco-resort. Em primeiro lugar investigar quais são as suas políticas face ao ambiente - por exemplo se tratam as águas residuais ou usam energias renováveis. Em segundo, tentar saber qual o seu empenho em desenvolver a comunidade onde se implantaram, perguntando pela percentagem de habitantes locais que trabalham na estrutura e, destes, quantos exercem funções com alguma responsabilidade, e se os guias contratados são da região.
Aprender algumas palavras e detalhes da cultura local. Se tratar as pessoas com respeito receberá o mesmo tipo de atenção.
Deslocar-se com o mínimo de bagagem, sobretudo embalagens. Os resíduos são particularmente difíceis de tratar em países em desenvolvimento.
Perguntar, caso viaje com um operador, quais os projectos sociais e ambientais que poderá visitar e eventualmente ajudar com bens que, por exemplo, possa transportar.

 
No país de destino:
Comprar apenas bens produzidos no país e contratar um guia local. Ele será a pessoa mais indicada para levá-lo a conhecer os costumes locais. Em última instância, a família dele será favorecida economicamente.
Resistir às peças de artesanato muitas vezes belíssimas, mas feitas a partir de espécies vegetais em extinção (ex: pau preto) ou que impliquem a morte, quase sempre ilegal, de animais (ex: marfim).
Utilizar transportes públicos, alugar bicicletas, ou se possível, andar a pé de modo a contribuir para o mínimo possível de emissões de CO2.
Ter sempre sem conta que cada cultura tem o seu próprio conceito de tempo e tradições. Não desespere se falta água quente no hotel. Pare de fazer comparações com o conforto que tem em casa ou noutros locais da Europa, caso viaje por África, América Latina ou Ásia. Senão, o melhor é mesmo não se dar ao incómodo de atravessar oceanos e sofrer de jet-lag. Por outro lado, antes de entrar em locais sagrados pergunte se tal é possível a estrangeiros. Em caso de dúvida, abstenha-se de experimentar.

 
Se cumprir todas estas indicações certamente terá um contacto mais estreito com as comunidades locais. Mas existe ainda outro modo de viajar, que, além de defender o ambiente, zela pela manutenção do património cultural e social das sociedades visitadas com mais afinco, recusando, por exemplo, a estadia dos viajantes em lugares estranhos às comunidades. Em Portugal é divulgado apenas pela associação Mó de Vida (www.modevida.com), que, não sendo uma agência de viagens, organiza, em conjunto com outras associações internacionais, enquanto não existir massa crítica em Portugal, expedições a países como o Brasil e a Nicarágua.
"Um dos nossos objectivos é fazer com que as pessoas invistam no local de destino e não no de origem", explica Carlos Gomes, um dos responsáveis pelo projecto. "Na maioria das vezes quem lucra com as viagens são os operadores, não quem vive no país visitado". Por outro lado, a Mó de Vida também acredita no envolvimento das comunidades locais na recepção ao viajante. "É o que estamos a desenvolver em Timor, em parceria com o CIDAC, incentivando as populações a construir as próprias unidades de alojamento e a dar a conhecer aquilo de que tinham vergonha - os seus alimentos tradicionais, à semelhança da mandioca e do arroz", avança Carlos. Pois é, quem viajar para este local certamente terá de esquecer o prego no prato.
"Não conseguimos concorrer com os preços dos charters para o Brasil quando viajamos para a Amazónia, por exemplo, mas proporcionamos aos interessados passeios no rio em canoas reais e não em cruzeiros, jantares a partir do peixe que pescaram com as comunidades locais e a estadia nas aldeias dos índios, tentando interferir o menos possível no seu quotidiano e sem encomendar espectáculos de folclore encenado".
O que faltará em mordomias sobrará com certeza em conhecimento.

 

 

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