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Montepio
Mestre da beleza pura
Moda Tendências
07/09/09, 10:20
Por Carolina de Almeida

Inimiga das "modas" e dos caprichos sazonais, Madeleine Vionnet procurou fazer da alta-costura um hino à beleza feminina eterna e imutável. O Museu de Artes Decorativas de Paris presta-lhe a primeira homenagem com uma retrospectiva.

"A arte de vestir pede tempo e paciência". A sábia frase é de Madeleine Vionnet (1876-1975), uma das maiores estilistas de alta-costura francesas do início do século XX. Muitas vezes apelidada de "artista de moda", foi pioneira na arte do corte em viés e do drapeado e uma revolucionária da estética feminina da época. Ousou afastar o corpete do guarda-roupa das parisienses sem, no entanto, retirar beleza aos vestidos. Madeleine Vionnet deixou assim um grande contributo na evolução da emancipação do corpo da mulher, entretanto mais livre nos movimentos e mais próximo da beleza purista. "Madeleine Vionnet, purista da moda" é precisamente o nome da exposição que o museu parisiense apresenta até 31 de Janeiro de 2010. Trata-se da primeira retrospectiva dedicada à criadora francesa, uma viagem pelos 27 anos de existência da casa Vionnet, através de 130 modelos, desde 1912 a 1939.
Distribuída por dois andares, a exposição mostra, no primeiro piso, as criações da estilista até aos anos 20. Aqui pode ver-se as principais características que iriam marcar a sua carreira - a estrutura e o décor das roupas.
Vionnet leva o requinte ao extremo, com o único objectivo de conseguir a pureza absoluta das linhas. Cumpre a missão com um forte domínio das propriedades intrínsecas do têxtil, do corte das roupas e da maneira como são colocadas sobre o corpo. "Todos os dias instalava-me no meu atelier, diante do pequeno manequim de madeira que me acompanhou toda a vida, e aí drapeava, harmonizava, fazia e desfazia...até estar satisfeita", contava numa entrevista feita por Pamela Golbin, comissária da exposição e conservadora-chefe das colecções de moda e têxtil do museu.
O segundo andar leva-nos até aos modelos projectados pela estilista na década de 30, percorrendo a história ano a ano. Vitrinas temáticas exploram o trabalho de Vionnet destacando algumas das suas particularidades, como é o caso das franjas, a introdução das formas geométricas e a etiqueta com o nome da sua griffe.
O cenário da exposição é assinado por Andrée Putman, figura incontornável do design contemporâneo, autora do primeiro hotel-boutique, o Morgans Hotel (Nova Iorque). "Criar um ambiente para os vestidos de Madeleine Vionnet foi um trabalho emocionante. Como encontrar o toque perfeito para as suas criações, extremamente complexas e minimalistas ao mesmo tempo?", questiona a designer francesa. A solução que encontrou foi utilizar os elementos em que a própria estilista se apoiou no seu trabalho. "Seleccionamos três materiais simples e eficazes: lacado preto, a luz e espelhos, que nos permitem um mise en abîme de todas as costuras dos vestidos de Madeleine Vionnet. Reflexos, espelhos e transparências foram os meios subtis encontrados para colocar os seus modelos num conjunto simples", explica Andrée Putman. Afinal, esta é uma ideia que a própria estilista seguiu toda a vida, através da "complexa mistura entre aparente simplicidade e loucura de detalhes".

A primeira costureira conceptual
Madeleine Vionnet era uma mulher à frente da sua época. A sua carreira foi marcada pela constante procura pela liberdade, visível nas criações e na sua própria história. "Nasci independente, não pude nunca pertencer a ninguém, nem mesmo a um marido", conta.
As criações da estilista francesa apresentam uma forte inspiração nas civilizações da Antiguidade Clássica, sobretudo a Grécia Antiga. Vionnet tenta reinventar um drapeado livre, reduzindo as costuras e os fechos das roupas. Com o corte em viés, que a artista sistematiza e generaliza no conjunto do vestido, o tecido cai, solto, ou enrola-se num drapeado, sem restringir os movimentos do corpo. "Na época [anos 20-30] utilizava-se o crepe da China apenas para ensaiar os vestidos; fui eu a primeira a fazer o corte em viés (...). O viés era macio, fácil, prometedor...", explica Vionnet.
A estrutura das suas peças é animada por motivos florais - com destaque para a rosa, sua preferida -, bordados, cortados ou entrançados nos materiais como o tule, a lã mas também a pele.
A gama de cores que utiliza é reduzida e pura. "Antes de tudo, a pureza das cores uniformes. O preto, o branco e depois os belos tons abertos, sinceros. Os azuis e os verdes, que iludem os olhos, os vermelhos que relembram os lábios, mas nunca cores mal definidas", declara.
Nas palavras de Pamela Golbin, Madeleine Vionnet surge como "a primeira costureira conceptual digna desse nome". As suas preocupações intelectuais assemelham-se às dos pintores puristas, como Amédée Ozenfant ou Le Corbusier. A precisão dos detalhes e a visão de beleza plástica do conjunto das roupas originam um método de trabalho exímio. Para chegar lá, "eis as quatro bases: proporções, movimento, equilíbrio, verdade", revela a estilista.

A história
Madeleine Vionnet nasceu em Loiret, no centro de França, em 1876. É "por acaso" que tropeça na arte da costura, "como acontece quase sempre", relembra Vionnet. Com 12 anos abandona a escola, apesar de ser uma aluna brilhante, para começar a aprender costura. "A minha professora achava que eu era brilhante e queria que continuasse os estudos. Mas essa não era a vontade do meu pai, que ouviu os conselhos de um amigo cuja mulher era costureira. Foi com ela que aprendi a costurar". Aos 18 anos parte para Inglaterra para aprender inglês e em 1896 começa a trabalhar no atelier de costura londrino Kate Reiley. De volta a Paris, passa pela prestigiosa casa de moda das irmãs Callot e, mais tarde, lidera a modernização da empresa de Jacques Doucet, que abandonou por não poder implementar as suas ideias inovadoras. De espírito avant-garde, Vionnet pede às manequins que desfilem sem corpete e descalças. "As vendedoras diziam dos meus modelos: ‘daqueles vestidos não falaremos'", conta.
Foi então que decidiu abrir o seu próprio atelier, em 1912, e dar largas à criatividade, sem restrições. Mas com a chegada da Primeira Guerra Mundial, Madeleine Vionnet viu-se obrigada a fechar portas em 1914, sem, no entanto, deixar morrer o sonho. Em 1918 reabre a maison Vionnet e o "sucesso foi como uma explosão", relembra a estilista. Na iminência da segunda Guerra Mundial, em 1939, as máquinas de costura dos seus ateliers voltam a parar. Com 63 anos, a missão estava cumprida. "Nunca me arrependi de nada", diz na entrevista que concedeu à comissária do museu, aos 98 anos, um ano antes de morrer.
Madeleine Vionnet foi a primeira criadora a ter consciência da necessidade da conservação do seu património, ao criar etiquetas com o nome da sua casa de moda.
Apesar de ser praticamente desconhecida pelo grande público, é considerada como uma das grandes da moda francesa, ao nível de Coco Chanel, por muitos pesos-pesados, como Karl Lagerfield ou Jean-Paul Gaultier, que reconheceram a enorme influência que teve na Alta-Costura.

 

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