29/09/09, 10:01 Em parceria com Super Interessante - Por A.P.S.
Geólogos e peritos informáticos trabalham juntos no aperfeiçoamento de novas tecnologias que possam explorar de forma inédita o interior da Terra e detectar a tempo a chegada de um sismo.
Os habitantes da região italiana de Abruzos tiveram a infelicidade de comprovar que vivem no coração de um dos lugares mais turbulentos da Terra em termos geológicos. A Itália, à semelhança da Califórnia, está a ser dilacerada por continentes que se deslocam. O terramoto de 6 de Abril, que ceifou 296 vidas, fez crescer o interesse pela detecção e pelo estudo dos sismos através de tecnologias cada vez mais inovadoras. A empresa norte-americana Digital Element, por exemplo, está a ajudar o Centro Sismológico Euro-Mediterrâneo (EMSC) a identificar rapidamente os locais atingidos por um tremor de terra. Quando esta se agita, as pessoas utilizam os seus computadores para ir às páginas dos centros sismológicos locais e averiguar a causa. Com base nessa informação, a Digital Element elabora felt maps (uma espécie de mapas do que foi sentido) em menos de dez minutos, enquanto reunir dados de um sismógrafo demora várias horas. "Medir a intensidade de um sismo o mais depressa possível é decisivo para determinar o impacto nos centros populacionais próximos e nas suas infra-estruturas", explica Remy Bossu, secretário-geral do EMSC. E acrescenta: "As povoações em que há um aumento das pessoas a consultar a Internet são localizadas de imediato. Além disso, o sistema pode cartografar as áreas afectadas, pois registam uma ausência quase total de internautas."
Detectados pela internet
Por sua vez, Elizabeth Cochran, da Universidade da Califórnia, e Jesse Lawrence, da Universidade de Stanford (Estados Unidos), querem transformar milhares de computadores portáteis em sismógrafos caseiros. A sua ideia é aproveitar os acelerómetros, os sensores de movimento que muitos destes aparelhos incorporam para proteger o disco rígido na eventualidade de uma queda. Cochran e Lawrence esperam convencer milhares de utilizadores a agirem como uma enorme rede de detectores sismológicos. Dado que a Internet é muito mais veloz do que as ondas sísmicas, o alerta deveria chegar cerca de 20 segundos antes do tremor de terra atingir o local, o que permitiria que as pessoas pudessem, pelo menos, abandonar as casas. É nesta ideia que se baseia a rede Quake Catcher Network (http://qcn.stanford.edu). A pessoa inscreve-se de forma gratuita, descarrega um programa e o seu computador fica ligado a milhares de outros, ao estilo do famoso projecto SETI@home, que se destina a procurar inteligência extraterrestre. O sistema foi concebido para poder distinguir se as vibrações no computador são causadas pelo utilizador ou por um sismo. Embora já conte com milhares de subscritores, existe um problema: poderá passar bastante tempo antes de a iniciativa poder realmente prever o abalo. Os últimos avanços não só permitem esperar que se possa agir na prevenção de catástrofes como, também, melhorar os nossos conhecimentos sobre as entranhas do planeta. Até agora, o único aspecto positivo dos terramotos era que as violentas ondas sísmicas proporcionavam dados sobre a estrutura profunda da Terra. Para os geólogos, é como ver uma ecografia médica do interior terrestre. Quando não havia sismos, os peritos simulavam-nos, tradicionalmente com recurso a ferramentas muito ruidosas: explosivos, espingardas de ar comprimido, lança-granadas... Porém, recentemente, descobriu-se que o planeta é sulcado por vibrações muito mais plácidas, previsíveis e constantes. Esse zumbido persistente não provém de uma única fonte, mas de uma combinação de trepidações, como as produzidas pelas ondas, pelo vento sobre as estruturas geológicas ou pelo eco de antigos sismos. Provêm de várias direcções ao mesmo tempo e ressaltam constantemente no interior da Terra, como bolas de borracha. Aos olhos do leigo que observa um sismógrafo, essa música de fundo surge desenhada em forma de vales e picos aleatórios. A tecnologia também poderia ajudar a detectar as etapas que antecedem uma erupção vulcânica, mas os sismólogos consideram que, nos próximos anos, o verdadeiro valor da tomografia de sons ambientais será elaborar mapas tridimensionais de elevada resolução da crosta terrestre. Nos Estados Unidos, foram feitas as cartografias mais detalhadas que se conhecem graças a um projecto chamado USArray, que incorpora 400 sismógrafos portáteis. O dispositivo revelou mais processos do que estruturas, e é aí que reside o seu valor para muitos especialistas.
Condensado de "Não Tremas!", Super Interessante nº137, Setembro 2009
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