Como um simples site norte-americano consegue unir milhares de beneméritos e ajudar, através de microcrédito conferido online, milhares de pessoas carenciadas mas com espírito empreendedor. Tudo à distância de 25 dólares e um clique.
Quando, em 2005, Matt e Jessica Flannery anunciaram a ideia de criar um site com o objectivo de reunir gente interessada em prestar micro-empréstimos a populações carenciadas em África e na América Latina todos os amigos foram unânimes: "Não vai funcionar". Mas, passados quatro anos, o casal californiano provou que as boas ideias, quando bem implantadas, têm tudo para singrar. O Kiva (
http://www.kiva.org/), classificado pela revista
Time como um dos sites mais
hip do momento, já ajudou cerca 200 mil pessoas a melhorar as condições de vida, em 48 países. Tudo com o uso de apenas duas ferramentas: um computador e um cartão de crédito.
O projecto surgiu após uma viagem de Jessica a África, onde coordenou uma pesquisa sobre o impacto de pequenas doações para as pessoas abrirem ou ampliarem pequenos negócios. No outro lado do planeta, a jovem americana chegou às seguintes conclusões: os mais pobres têm forte espírito empreendedor e são excelentes pagadores no que toca ao micro-crédito; as histórias de superação pessoal têm inacreditável poder para envolver investidores; com a ajuda da Internet é possível multiplicar exponencialmente o número de financiadores individuais. Mais: ficou encantada com o continente. Matt, o marido, é que preferia ficar a viver em São Francisco, pelo que logo se apressou a encontrar uma solução de compromisso. O casal passa parte do ano nos Estados Unidos, e parte em países menos desenvolvidos a verificar o funcionamento do projecto. "Hoje penso que o Kiva resultou da nossa vontade de salvar o casamento", brinca.
Círculo virtuoso
Kiva mistura a ousadia empresarial do Google com a boa vontade de Bono, vocalista dos U2, entre outros filantropos. Com ele, os Flannery conseguiram ligar duas tendências sócio-económicas (as redes sociais e microfinanças), casando a disciplina dos mercados com o espírito de caridade. "Hoje as pessoas estão cansadas e já não acreditam na publicidade", afirma Tiago Silvério Marques, especialista em Web 2.0 e fundador da empresa Marketing de Peso, especialista em consultoria de marketing para obesos. Precisam de se identificar com quem lhes aconselha um produto. "Logo, estas redes sociais online, em que a comunicação é feita ‘de boca à orelha', têm muito mais hipóteses de êxito e um poder crescente". A responsabilidade acaba por ser partilhada e melhor direccionada entre pessoas com interesses em comum. "Veja-se o que aconteceu com a MyBO, que juntou 1,5 milhões de membros, recolheu 400 milhões de dólares e assim financiou a campanha de Barak Obama", lembra Tiago Silvério Marques.
O Kiva é também popular porque o seu modus operandi é de extrema simplicidade. Tal como no Facebook, os empresários interessados em contrair um empréstimo inscrevem o seu perfil na página da Internet, com fotos e dados pessoais. Só que, em vez de referirem os filmes ou músicas preferidos, descrevem a sua área de negócio, a quantia de que precisam para desenvolver o seu projecto, e em quanto tempo a poderão pagar. Aí, potenciais financiadores em qualquer parte do mundo escolhem os perfis que mais lhes agradam. Cada um pode emprestar o total pedido pelo empresário ou apenas uma parte (25 dólares no mínimo), que será complementada por outros beneméritos. O dinheiro é inicialmente transferido para os fundos do Kiva que, por sua vez, o envia para uma instituição de microfinanças do país mutuário. No prazo estabelecido para o pagamento do empréstimo os credores recebem o dinheiro de volta, sem juros nem correcção monetária. Idealmente o indivíduo financiador reemprestará o seu dinheiro quando este é reembolsado, gerando-se assim um círculo virtuoso.
Segundo Luís Rochartre, secretário-geral do Conselho Nacional para o Desenvolvimento Sustentável, "a grande vantagem do Kiva sobre as instituições de microcrédito tradicionais é ter uma rede muito mais ampla que multiplica a possibilidade de os pequenos empresários conseguirem ajuda. Além de permitir aos financiadores escolher o projecto e a pessoa em que apostar, e aproximar qualquer indivíduo interessado de realidades até aí desconhecidas".
É fácil e dá milhões
Uma das razões do sucesso do site é o alto grau de confiabilidade e transparência das operações. Para garantir a segurança do empréstimo o Kiva mantém parceria com instituições de microcrédito que actuam nos países em que opera. Cabe a esses parceiros seleccionar empresários idóneos e redigir relatórios periódicos sobre o negócio financiado, permitindo ao credor acompanhar pela Internet todo o processo. Desse modo desaparece a figura do intermediário tradicional, em geral entidades que, apesar de receberem quantias avultadas, estão interessadas em perpetuar a sua existência à conta da falta de cumprimento das obrigações por parte dos pequenos empresários.
"Há ainda que ressalvar o baixo risco deste tipo de transacção", sublinha Luís Rochartre. "Ao nível do microcrédito são poucos os empréstimos que ficam por pagar". Os números fornecidos pelo site confirmam-no: 98,5% dos investidores cumprem religiosamente os contratos.
Mas, se não cobra juros, como é que o Kiva se mantém? Os Flannery encontraram a solução. Embora os tomadores dos empréstimos devolvam o dinheiro em parcelas mensais, os financiadores só recebem o total do valor quando a dívida é totalmente amortizada - em média no espaço de um ano. Durante esse período os recursos são depositados numa conta a prazo e os rendimentos são usados para financiar as operações do site. Por outro lado, é pedida aos beneficiários do projecto uma contribuição voluntária cada vez que contraem um empréstimo. As ofertas rodam, em média, 8% do total requerido. Resultado: por cada milhão de dólares angariados, são obtidos cerca de 80.000 dólares para pagar à equipa do Kiva - cerca de 30 pessoas sediadas em São Francisco. É fácil e dá milhões.
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