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Montepio
O poder social do design
Moda Tendências
02/09/10, 11:36
Em parceria com Gingko

Conheça projectos extraordinários de empresas, hospitais e ONG nos quais o design desempenha papel decisivo para a busca da felicidade. Sim, o design não se resume à estética.  Texto Diana de Nóbrega
Era uma vez uma princesa chamada Elise. Em menina, ela inventou uma ilha para onde fugia sempre que lhe apetecia. E então sonhava com areias douradas, palmeiras e rochas beijadas pelas ondas. Podia ser o início de um livro infantil, só que a ilha de Elise não se encontra nos livros, mas antes no Departamento de Psiquiatria Infantil e Juvenil do hospital Konigin Elisabeth Krankenhaus (KEK), em Berlim. Inaugurada em Outubro de 2009, resulta da parceria entre a instituição e a agência criativa alemã Dan Pearlman, especializada em branding, arquitectura e design. Médicos e arquitectos trabalharam lado a lado para criar um local de cura holística, certos de que ambientes e elementos subtis contribuem activamente para a recuperação dos doentes.
Agora que é  avó, Elise já não precisa de viver na ilha, e decidiu partilhá-la com todos os que chegam ao KEK. A história de Elise é contada às crianças e adolescentes quando chegam à ilha, ou melhor, ao hospital. E deu nome ao projecto que, após dez meses de trabalho, se tornou realidade. Cada sala foi pensada ao pormenor (forma, cor, materiais, luz), com o objectivo de promover uma atmosfera positiva, que transmita segurança e apele à cooperação. Na prática, que tire partido da imaginação das crianças e adolescentes para chegarem à cura.
O desafio da Ilha de Elise foi equilibrar as obrigações terapêuticas dos profissionais com as necessidades emocionais das crianças. Missão cumprida com sucesso, a avaliar pelas reacções positivas. Segundo os psiquiatras do KEK, os jovens estão relativamente calmos e com menores níveis de agressividade. "Os objectivos iniciais e os resultados observados agora encaixam perfeitamente", assegura Alexander Eberle, director do projecto. A influência das cores na alteração de estados de espírito já é conhecida. E, quando utilizada em ambiente clínico, frutifica numa infinidade de benefícios. Por exemplo, o verde promove o sentido de orientação e motiva, o laranja ajuda a curar, o azul reduz os níveis de stress.
A Ilha de Elise é um projecto delicado, sobretudo por envolver crianças com problemas cada vez mais comuns na sociedade: comportamentos depressivos, ansiedade, problemas alimentares e distúrbios psicológicos resultantes, muitas vezes, de abusos ou negligência. Estudos indicam o aparecimento crescente desses distúrbios em crianças cada vez mais novas. "O design de um ambiente terapêutico moderno, ‘pacient friendly', é prioridade no nosso conceito", explica o director do KEK, Rainer North. E acrescenta: "Esperamos ter criado um projecto de referência".
Afinal, está nas mãos de cada um de nós encontrar alternativas e soluções vencedoras. Arquitectos e designers constataram desde cedo que a perspectiva social do design pode adequar-se a outros cenários, em especial em ambientes relacionados com cura e desenvolvimento, como jardins de infância e instituições sociais. "As empresas deviam assumir em pleno a sua responsabilidade social. O design não se deve focar no parecer bem, mas em fazer bem", sublinha o director do projecto Ilha de Elise. 
Educação holística 
Os holandeses da i29, arquitectos de interiores premiados, comungam dessa opinião. No projecto para a nova escola pública Panta Rhei, em Amstelveen, Holanda, onde colaboraram com os arquitectos da Snelder, preocuparam-se especialmente com o equilíbrio entre liberdade e segurança no espaço escolar. Criaram diversos "open spaces" multifuncionais, mas procuraram também imprimir ao espaço uma identidade, para que os jovens se sentissem imediatamente acolhidos. O nome da escola, Panta Rhei, que significa "tudo está em movimento", serviu de ponto de partida para o projecto. A solução passou por cobrir a escola, dos solos de linóleo às peças de mobiliário, com poemas sobre a importância e os desafios da aprendizagem. O poeta Erikjan Harmens foi fundamental no processo, colaborando com os estudantes na elaboração de quadras com temas como insegurança e amizade. Os textos são abertos, deixando espaço para variadas interpretações. "Pensámos em estruturas e ritmos, e não em gosto ou estilo. Podemos olhar para esta questão como para a música, composta por harmonia e contraste", afirmam Jaspar Jansen e Jeroen Dellensen, os arquitectos da i29, nomeados pelos Great Indoors Awards para melhor atelier de arquitectura de interiores de 2009.
As escolas e os espaços infantis, durante anos relegados para segundo plano em nome da funcionalidade e contenção de custos, despertam agora interesse a arquitectos e designers de interiores, atentos às necessidades de quem os utiliza. E não raras vezes as soluções mais originais partem dos próprios estudantes. Os alunos de arquitectura da Universidade Técnica de Berlim, que compõem o atelier Baupiloten, criaram alguns dos espaços infantis mais interessantes da capital alemã. A frescura desses jovens trouxe nova visão ao conceito de "kindergarten" e aos jardins infantis temporários.
O projecto "Taka-Tuka Land", inspirado na história da Pipi das Meias-Altas, de Astrid Lindgren e concluído em Março de 2007, deu forma a um mundo de fantasia a partir da estrutura temporária de um jardim-de-infância. As crianças que agora o utilizam fizeram, com o apoio de professores, colagens, modelos e desenhos baseados na história da Pipi na Taka-Tuka Land, Terra dos Mares do Sul em português. Os pequenos criaram escorregas, espaços amplos, pontes, abrigos, carrosséis em forma de flor e tronos de conchas. Os estudantes do atelier Baupiloten observaram durante vários dias os horários e as formas de comunicação entre as crianças, e estruturaram o projecto a partir desses dados. O edifício principal representa a árvore de carvalho da Pipi que, na história original, continha uma fábrica de limonada. Então criaram um "percurso de limonada", estruturas multifuncionais onde os mais novos podem deslizar e explorar de maneiras que só eles conhecem. Grandes janelas permitem que o sol transforme os espaços em ambientes brilhantes graças a cristais aplicados nas janelas. Como não podia deixar de ser, o amarelo-limão é a cor dominante do projecto. Superfícies oblíquas criadas a partir de materiais reutilizados convidam as crianças a brincar e a nadar em piscinas de limonada. Resultado? Um projecto que se previa temporário e passou a definitivo. Os baixos custos de construção deveram-se à reciclagem do material e à renovação económica do edifício danificado. E as ideias das crianças que beneficiam do espaço - e que só elas percebem - estiveram sempre em primeiro lugar.
Futuro mais sustentável 
A pensar nos mais pequenos e no crescente enfraquecimento das relações familiares a designer de interiores francesa Matali Crasset criou a Maison des Petits. Centro de artes dirigido às famílias, em Paris, foi concebido para crianças até aos cinco anos, acompanhadas pelos pais. Ali há momentos de encontro e mediação em que as famílias se juntam para desenvolver práticas artísticas. É uma verdadeira guerra contra os fins-de-semana no centro comercial. A Maison des Petits dispõe de uma área de descoberta artística para os mais novos e um auditório para histórias infantis. Um projecto inovador que propõe novas formas de passar os momentos em família com a ajuda da arte.
O atelier Graft, com sede em Berlim e subsidiárias em Los Angeles e Beijing, concebeu um consultório de dentista para crianças capaz de fazer inveja a qualquer adulto. O ambiente branco e estéril que assusta os petizes foi substituído pelo azul num mundo subaquático que os incita à descoberta, conduzidos por uma onda gigante. A espera e o tratamento tornaram-se em experiências relaxantes. Mas este não é o projecto mais emblemático dos Graft na vertente do design como ferramenta de construção de um mundo melhor.
Em 2005 mais de 4.000 moradias de Nova Orleães foram destruídas pelo furacão Katrina. Dois anos depois, quando o actor Brad Pitt visitou a cidade, os bairros ainda estavam desertos e completamente destruídos. Então o actor fundou a organização Make It Right, com o objectivo de construir habitações sustentáveis e resistentes para as vítimas do desastre ambiental. Os arquitectos do atelier Graft são a sua mão direita nesta empreitada, desenvolvendo projectos sustentáveis, inovadores e resistentes a condições climatéricas extremas. A fundação Make It Right apoia-se na generosidade de aclamados arquitectos locais e internacionais, que doaram os seus projectos mais inovadores para moradias singulares e duplexes. Funciona à imagem de organizações não-governamentais globais, como a Architecture for Humanity, a Homeless World Cup ou o Instituto Bola Prá Frente, que assentam numa filosofia de prestação de serviços de design e arquitectura voluntários para a reconstrução de comunidades necessitadas um pouco por todo o globo.
As últimas atenções estão voltadas para o Haiti e para o Chile, em especial para as escolas destes países. "Para nós, nada é mais vital do que construir escolas temporárias ou permanentes. Além de levar um sentimento de normalidade às vidas das pessoas afectadas pelos terramotos, ajuda a recuperar comunidades que foram descontextualizadas", lê-se no website da organização Architecture for Humanity, onde também é possível fazer donativos.
Aos poucos, em hospitais, escolas, jardins de infância, no seio das famílias e comunidades, o design torna-se sustentável, solidário e promissor. Papel que não substitui os interesses tradicionais, mas abre novas perspectivas de actuação para um futuro mais sustentável. Exemplos internacionais perfeitamente replicáveis em Portugal. Para bem de todos.
www.gingko.pt

 

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