Saudações, uma prática universal - Prazer em Conhecer Moda Tendências 22/06/09, 10:54Por D.M. - Em Parceria com Super Interessante Até os inimigos mais figadais cumprem o ritual de exprimir reconhecimento mútuo. O vasto repertório das saudações humanas, presentes em todos os locais e em todas as épocas, constitui um expoente da nossa complexa natureza social Diariamente, abraçamos os amigos mais íntimos, beijamos os nossos familiares e apertamos a mão às pessoas conhecidas. À partida, poderiam parecer gestos banais, rituais praticamente despidos de conteúdo, mas, por detrás disso, há todo um mundo por descobrir. De facto, há muita literatura dedicada ao tema, e não apenas de carácter científico. Na imortal obra Vita Nuova, Dante Alighieri (1265-1321) estremecia de júbilo ou de tristeza pela saudação que a sua amada, Beatriz, lhe concedia ou negava alternadamente. Hoje, antropólogos, etnólogos e sociólogos investigam a origem e o significado primordial desses gestos protocolares, enquanto os psicólogos analisam a forma como os praticamos, para desvendar a nossa personalidade. O espanhol Ortega y Gasset (1883-1955) já tinha consagrado extensas páginas à saudação na sua obra El Hombre y la Gente, onde considerava que era inumana. "Faltam-lhe duas das características imprescindíveis de qualquer acção estritamente humana: ter origem intelectual no indivíduo que faz o gesto e nascer da sua vontade", argumentava. Temos de lhe dar razão, no sentido de que repetimos, de forma automática e maquinal, as expressões transmitidas pelos nossos pais, que as aprenderam, por sua vez, dos respectivos progenitores. Mais do que isso: de acordo com as descobertas de Charles Darwin, podemos afirmar que algumas das saudações que fazemos todos os dias (como outras expressões não-verbais) são consequência do nosso instinto animal. O austríaco Irenäus Eibl-Eibesfeldt, director do Instituto Ludwig Boltzmann para a Etologia Urbana, situado em Viena, verificou que algumas saudações são universais. Actos como o de erguer a mão para cumprimentar o próximo podem ser encontrados em quase todas as culturas. Além disso, os especialistas consideram que muitas destas manifestações não passam de resquícios de arcaicos padrões de apaziguamento entre hominídeos, ou seja, destinados a evitar agressões. Flora Davis interroga-se, na obra A Comunicação Não-Verbal, "se não estaremos, a um nível inconsciente profundo, a manter a precaução física dos nossos antepassados primatas". A antropóloga Jane Goodall comprovou isso mesmo: os chimpanzés abraçam-se, fazem vénias e apertam mesmo as mãos. Todavia, ao contrário dos outros primatas, a evolução social e cultural do Homem acabou por modificar alguns desses padrões ao longo dos séculos. Na era das grandes civilizações do mundo antigo, os subordinados ainda tinham de se ajoelhar no chão e beijar a mão da pessoa de categoria superior. Depois, essa reverência tornou-se mais suave, mas a essência não mudou. Até há poucos séculos, o homem de categoria inferior ainda tinha de descobrir a cabeça e inclinar o tronco, enquanto as mulheres flectiam ambos os joelhos. Peter Collet, professor de Psicologia Experimental em Oxford, assinala que se tratava de um gesto assimétrico, pois o senhor não respondia com qualquer movimento ao obséquio de que era alvo. Em muitas das saudações contemporâneas, é possível vislumbrar sinais inequívocos de hábitos antigos de culturas caracterizadas por rígidas distinções sociais. Os cidadãos dos países orientais inclinam acentuadamente a cabeça e juntam as palmas das mãos, um costume que poderia remontar, segundo Spencer, aos tempos em que o escravo entregava as mãos ao amo. Na Sicília, é ainda costume "beijar as mãos", embora apenas em palavras: não é habitual a locução ser acompanhada do acto físico. Além disso, o vocábulo italiano ciao provém de uma expressão do dialecto veneziano que significa "sou teu escravo", enquanto se utiliza, em muitos estados da Europa Central e de Leste, em especial na Áustria, a palavra em latim servus, "sou teu servo".
Desejamos saúde ao próximo Nas saudações entre iguais, a linguagem não-verbal costuma também ser acompanhada de palavras rituais. Em algumas culturas, trata-se de mensagens de paz. Os islâmicos dizem salaam aleikum, os judeus, shalom aleichem, e antigamente, nos meios eclesiásticos dos países católicos, utilizava-se a expressão latina pax vobiscum. As três frases significam "a paz seja contigo ou convosco" e possuem um acentuado cariz religioso. Na cultura clássica, preferia-se fazer votos para que o próximo tivesse vida longa e felicidade, um costume que perdurou até aos nossos dias: o grego khaíre quer dizer "desejo-te alegria", e o próprio verbo "saudar" faz referência aos votos de boa saúde. Por outro lado, expressões como "bom-dia"e "boa-noite" partilham a mesma filosofia. Segundo Ortega y Gasset, trata-se de locuções que tinham, primitivamente, um sentido mágico. Quanto aos gestos físicos dedicados a pessoas do mesmo nível, o repertório histórico é extenso. Graças aos textos do grego Heródoto, "pai" da História e da etnografia, sabemos que os persas da mesma classe social se saudavam com um beijo na boca. Em contrapartida, no Antigo Egipto, os homens costumavam tocar no joelho, ou mesmo no chão, com as costas da mão direita. Na obra A Liturgia do Gesto, a pedagoga Hélène Lubienska de Lenval (1892-1972) recorda que esse hábito foi retomado no mundo bizantino, depois no mundo cristão oriental e, finalmente, converteu-se num rito, designado por "metânia", que continua a ser utilizado pela Igreja Ortodoxa. Na Europa medieval, as pessoas de estatuto semelhante costumavam beijar-se na face e dar a mão, embora os homens também tirassem o chapéu e as mulheres simulassem uma vénia. Beijos reservados ao sexo A demonstração de afecto que implica uma maior proximidade física tem também uma Origem antiga: o beijo. Todavia, transformou-se num ritual de boas-vindas muito depois e apenas em algumas regiões do mundo. Assim, muitos países do Extremo Oriente consideram-no como algo exclusivo do acto sexual. Por fim, há as saudações com conotações políticas ou reivindicativas, das quais se destaca o punho cerrado dos partidos de esquerda europeus. Nos Estados Unidos, foi adoptado pelo Black Power, o movimento em prol dos direitos civis dos negros, como mostraram ao mundo os atletas norte-americanos Tommie Smith e John Carlos, medalhas de ouro e de bronze na final dos 200 metros dos Jogos Olímpicos do México, em 1968. As câmaras registaram o desafio mudo quando subiram ao pódio, o qual lhes valeu a expulsão da cidade olímpica. Há várias hipóteses quanto à origem desta saudação, mas talvez a mais sugestiva seja a que afirma que se trata de um símbolo, pois os dedos, como os oprimidos, são fracos quando estão isolados, mas têm grande força quando se juntam. No outro extremo do arco ideológico, encontramos o braço estendido, de sinistra memória. O responsável pela sua instauração moderna foi Benito Mussolini, que proibiu, ao chegar ao poder, o aperto de mão (considerava-o "um gesto burguês"), a fim de ser substituído pela saudação romana, "mais higiénica, mais bela e mais prática". Foi de imediato importada pela Espanha de Franco e pela Alemanha de Hitler, acabando por também ser usada pela Mocidade Portuguesa. O sociólogo Tilman Allert, da Universidade de Frankfurt, assegura que a saudação nazi tinha uma capacidade de persuasão extraordinária, pois conseguia transmitir "a fé no poder messiânico do Führer". Não devemos subestimar o poder destes gestos.
Condensado de "Saudações, uma prática universal - Prazer em Conhecer", Super Interessante nº134, Junho 2009
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