Dê uma alfinetada nos problemas! Saúde Beleza 30/12/08, 15:47Zoe Strimpel, City AM Quando os banhos e as chávenas de chá falham, será que a apuncultura pode ajudar a dormir bem à noite? Estou deitada de costas com a camisa para cima enquanto um ex-corrector de seguros da Lloyds espeta agulhas na pele da minha barriga. Claro que estou retraída, mas faço figas na esperança de que, ao contrário de tudo o resto, a acupunctura me faça dormir melhor. Antigamente considerada o reino de hippies e excêntricos, a medicina chinesa tem vindo a ganhar terreno. A acupunctura (que conta com várias escolas), os medicamentos herbais e as massagens dos pontos de pressão estão por todo o lado e são procurados por todos, desde mãezinhas com dores nas costas a executivos com problemas de raiva. Mas será que podem ajudar uma velhota de 26 anos que não consegue dormir à noite? Normalmente, os praticantes das medicinas ocidental e oriental não se entendem muito bem. O doutor Geoff Earnshaw, co-director da Clínica Rood Lane, em Bishopsgate, Londres, diz que "se for um médico chinês, trabalha segundo as linhas e os meridianos energéticos. Não é que esteja errado, mas a medicina ocidental ainda não adoptou verdadeiramente esse conceito", no entanto já reconheceu os efeitos da acupunctura na dor. "Mas racionalizámos a questão, dizendo que afecta a condução nervosa. Sabemos que, quando estimulamos um nervo, o cérebro pode ficar confuso e desligar o sinal da dor. Trata-se de confundir e interferir com o nervo". Uma das afirmações mais recentes e (cada vez mais) proeminentes dos acupuncturistas é a eficácia nas desordens do sono. São colocadas agulhas em pontos-chave que supostamente se relacionam com órgãos (como tornozelos e pulsos). O funcionamento de um órgão-alvo, como os rins, parece deficiente de uma forma que a medicina ocidental provavelmente não detecta. Por exemplo, um rim preguiçoso pode perturbar o equilíbrio e o sistema do organismo, sobretudo por não funcionar em harmonia com os restantes órgãos. Na medicina chinesa o rim representa a água (surpresa, surpresa) enquanto o coração representa o fogo. Água e fogo a mais no organismo perturba o seu todo e pode deixá-lo sonolento ou incapaz de dormir.
Problemas relacionados Isto pode soar um tanto irreal ou pouco provável, mas a verdade é que a medicina ocidental tende a ignorar o lado holístico das coisas e muitas vezes não vê o corpo como um todo, com problemas relacionados entre si. E portanto, sendo eu uma abominável dorminhoca, resolvi experimentar. Procurei a ajuda de Gary Minns, da Barbican Acupuncture, um negócio que Minns abriu depois de sair da Lloyds e receber formação no TCM (Traditional Chinese Medicine). No final de quatro sessões, o nosso objectivo era melhorar a qualidade do meu sono e talvez outras funções possivelmente relacionadas, como a digestão. Há anos que tenho problemas em dormir. Levo horas a adormecer e nem sempre consigo fazê-lo. Frequentemente, e especialmente quando partilho a cama com alguém, o meu sono é tão dramático que me sabe a uma sesta durante um voo nocturno, em vez de um sono revigorante. Ás vezes porque a minha mente não se desliga e outras porque se perde numa vigília inútil. Conheço todas as ajudas para adormecer. Beber algo quente antes de ir para a cama, não fazer nada muito exigente ou cerebralmente excitante mesmo antes de me deitar, não comer tarde demais, evitar substâncias estimulantes, não fazer sestas, guardar o quarto para dormir e não para trabalhar, etc. Nada disso funciona comigo. Já adormeci logo a seguir a treinar ou a um jantar pesado, e já fracassei completamente em adormecer depois de um banho quente e um chá de menta. Antes do mais, Gary Minns passou meia hora a falar-me do meu corpo. "A sua queixa principal são as insónias", diz ele, "mas eu também estou interessado em coisas mais periféricas, como suores nocturnos, a sede que costuma ter e se é habitual irritar-se com facilidade. Todos estes pormenores ajudam a identificar o verdadeiro problema subjacente". Contei a Minns que tinha suores nocturnos (houve uma altura em que acordava encharcada e tinha de colocar uma toalha por cima dos lençóis). Tenho sempre muita sede e sou conhecida por ser respondona e agressiva, especialmente com quem me telefona em momentos inoportunos. Depois de medir o meu pulso "preguiçoso", Minns diagnosticou uma "deficiência no yin do coração e dos rins (água)". É um desequilíbrio em que existe demasiado calor e muito pouca água no corpo. Por outras palavras, estava em sobreaquecimento. Na TCM, explica Gary Minns, "o coração e os rins constituem um par de opostos que interagem continuamente. A água do rim é transformada em vapor pelo fogo do coração, podendo assim alcançar e nutrir todas as partes do corpo. Entretanto, a água dos rins acalma suavemente e controla o fogo do coração. No seu caso, o lado da água (yin) está ligeiramente em falta, pelo que o fogo anda um pouco descontrolado e interfere com o seu sono (chamado de "deficiência de calor").
Reproduzir a natureza Se isto lhe parece difícil de acreditar, Gerad Kite, director de outra clínica de acupunctura que colabora com a Clínica do Sono de Londres, em Harley Street, tem uma visão semelhante. "Os nossos corpos imitam a natureza", diz ele. Acredita que os órgãos estão relacionados com os cinco elementos (fogo, água, madeira, terra e metal). O rim representa a água porque regula o fluxo e a qualidade da mesma no nosso organismo. O coração é o fogo porque bombeia o sangue, responsável pela manutenção da temperatura, tal como o sol controla a temperatura da Terra. Diz que "nos tornámos muito espertos, mas a medicina ocidental baseava-se nos humores quentes, frios, húmidos e secos. Agora passa-se o mesmo com as drogas, que aquecem e arrefecem. Os anti-inflamatórios são refrigerantes. A artrite representa calor a mais e os medicamentos adequados estimulam a função renal". Quando o organismo "tem algum problema, a primeira coisa afectada é o sono". Gary Minns optou por um tratamento de agulhas e remédios de ervas, destinados a equilibrar e a acalmar o meu sistema. Quando o meu corpo estivesse mais feliz, começaria a dormir melhor. Deitei-me de costas e ali fiquei com agulhas espetadas nos tornozelos, pulsos, barriga e testa, durante 15 minutos. Cada ponto está relacionado com um órgão ou uma função. O xinshu, por exemplo, tem uma estreita ligação com o coração e o shenshu dirige-se aos rins. Virei-me e lá vieram novamente as agulhas nas costas, nas pernas, pulsos e tornozelos.
Jojoba selvagem Na opinião de Gary Minns, quando se trata de uma coisa tão sistémica como as insónias, as ervas podem desempenhar um papel quase tão importante como as agulhas. Fez-me uma receita à medida baseada numa fórmula chinesa clássica chamada Tianwang buxim dan. Cada cápsula continha jojoba selvagem, angélica chinesa (um tipo de espargos), dedaleira chinesa e uma coisa chamada poria. Devia tomar 12 por dia. É muito poder ervanário. E funcionou? O meu fogo acalmou e as minhas águas subiram? É certo que depois de cada sessão me senti mais calma e revigorada e o meu sono melhorou depois da segunda semana. Comecei a adormecer mais depressa, apesar de a qualidade do sono continuar desigual, variando entre um descanso adequadamente revigorante (quando dormia sozinha) e um vazio exaustivo (quando partilhava a cama). Não notei uma melhoria drástica na minha digestão, como seria de esperar devido às ervas. Talvez o corpo ocidental moderno não seja receptivo à jojoba. Concluindo, as ligeiras melhorias relacionadas com o período do tratamento podem de facto significar que, se tivesse continuado, acabaria eventualmente por dormir como um bebé, mas é impossível afirmá-lo com certeza, uma vez que as mudanças são ligeiras e difíceis de medir. Correndo o risco de parecer uma desmancha-prazeres cínica (e cansada demais), devo citar novamente Geoff Earnshaw. "O efeito placebo é sobejamente conhecido. Cerca de 20% da eficácia de qualquer tratamento é efeito placebo". É difícil apostar numa coisa mais concreta. Mas este é apenas o meu caso. As pessoas garantem o poder das agulhas. Vale a pena ir a uma consulta - não vá ser uma delas.
Como funciona a acupunctura O objectivo da acupunctura é regular e reforçar o fluxo de energia "vital" chamado Qi, bem como a circulação sanguínea. Existem cerca de 2.000 pontos de acupunctura ao longo do corpo, segundo linhas chamadas meridianos de energia. A estimulação destes pontos alivia as obstruções no fluxo energético, o que permite ao corpo continuar a funcionar de forma adequada. A acupunctura estimula certas partes reactivas do sistema nervoso, gerando a sensação de alfinetada e despoletando reacções bioquímicas que supostamente reforçam a cura. Para problemas como dores de costas e SPM, a medicina ocidental reconhece que a acupunctura é uma boa ajuda na modulação dos sinais nervosos.
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