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Montepio
MAMÃ, ESTOU GORDO
Saúde Beleza
07/01/10, 11:01
Texto de Teresa Violante e ilustrações de Rachel Caiano

Erros alimentares e falta de exercício físico são as principais causas de uma epidemia crescente: a obesidade infantil. É urgente alterar hábitos e comportamentos familiares.
Quando Alexandra Lages vê a filha Beatriz, de 8 anos, correr para o quarto depois de ter pedido uma bolacha, já sabe que o melhor é ir verificar quantas tirou. O mais certo é que, em vez de uma, tenha quatro ou cinco na mão. Beatriz não consegue resistir-lhes. Por isso, é raro haver doces lá em casa, mesmo dietéticos ou sem açúcar. "Tivemos de ser drásticos", diz. Seguida por uma dietista desde os 3 anos, quando pesava 25,5 quilos, Beatriz interiorizou a dieta. Ou quase. Afinal, é uma criança.
Excesso de peso e obesidade são a nova epidemia das crianças. Portugal apresenta dos piores cenários do Velho Continente. "Em crianças em idade pré-escolar, entre os 3 e os 5 anos, mais de duas em cada dez têm excesso de peso", indica Francisco George, director-geral da Saúde. Os números agravam-se com o avançar da idade. Entre os 7 e os 9 anos "encontramos mais de três crianças em cada dez com excesso de peso. Podemos dizer que 30% das crianças têm excesso de peso, das quais 10% são obesas. Em cada dez crianças uma será obesa", conclui.
EPIDEMIA DO SÉCULO XXI
O problema é sério e tem de ser combatido. A obesidade está a crescer em Portugal, como demonstra o último Inquérito Nacional de Saúde (2005/ 2006). Em relação a 1998/99, a percentagem de jovens obesos, dos 18 aos 24 anos, aumentou 33,9% entre os homens e 25% entre as mulheres. A obesidade triplicou em vários países europeus desde 1980 e estima-se que em 2025 metade da população mundial será obesa. Mas a realidade portuguesa não é tão crítica como a de outros países. "Podemos comparar e aprender com as experiências norte--americanas a fim de evitar que a nossa população venha a ter níveis tão elevados de prevalência de obesidade", diz Francisco George. Há um longo caminho a percorrer. Desde logo, a obesidade não é, por muitos, encarada como doença. Em especial nas crianças. "Uma criança tem gripe ou diarreia e os pais preocupam-se e tratam de curá-la. Se está gordinha, há tendência para desvalorizar", alerta Eduarda Alves, dietista no Hospital São Francisco de Xavier em Lisboa, co-autora, com Ariane Brand, do livro "Como devo alimentar o meu filho" (Editorial Presença). A trabalhar no hospital e na Clínica dos Alimentos no Cacém, nota, porém, que os pais "já estão mais sensibilizados. Há uns anos não valorizavam a realidade; havia a ideia de que gordura é formosura." E não é, em especial quando se fala de crianças.
DOENÇAS DE ADULTOS
Excesso de peso e obesidade têm consequências físicas e psicológicas na criança. O corpo está a crescer e o peso a mais é nefasto para o desenvolvimento. "Antes não se falava de crianças com diabetes tipo 2, que aparece nos adultos a partir dos 40, 50 anos. Agora há crianças gordinhas com esse tipo de diabetes. Quando fazem alimentação adequada, deixam de tê-la. Há crianças com artrose por causa do peso, ou hipertensão arterial", aponta a especialista. Beatriz Lages, por exemplo, aos 8 anos tem celulite. Marcas de um peso excessivo para o corpo e para a idade.
"Há muita ciência na área da nutrição, e as mensagens são simples e claras", diz João Breda, coordenador da Plataforma Contra a Obesidade, lançada pelo Ministério da Saúde com outros parceiros. E enumera: "Comer mais vezes sopa, mais peixe, pelo menos 400 gramas de fruta e vegetais por dia, fazer várias refeições diárias, reduzir nas gorduras preferindo sempre o azeite, comer com parcimónia no dia-a-      -dia".
A escola tem um papel importante na alimentação das crianças. No final de 2006 a Direcção-Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular distribuiu nas escolas o livro "Educação Alimentar em Meio Escolar - referencial para uma oferta alimentar saudável", um guia de alimentos salutares que cantinas e buffets devem oferecer aos alunos.
"Ainda tem problemas e pode melhorar, sobretudo nas vending machines e nos produtos disponíveis nos bares e nas ementas escolares, mas o Ministério da Educação tem trabalhado bem e temos feito progressos", afirma João Breda.
GERIR IMPULSOS
Todos os dias crianças e jovens são assaltados por mensagens publicitárias ferozes num combate desigual. "A estrutura cerebral que nos defende de impulsos só está concluída aos 23 anos", avança Henrique Lopes, professor da Universidade Católica Portuguesa e investigador em Comportamento do Consumidor. Na infância, o cérebro ainda não dispõe de mecanismos de defesa contra o impulso de compra, pelo que o impacte publicitário é muito grande. As crianças querem todos os brinquedos, todas as guloseimas. As agências publicitárias não respeitam a maturação do cérebro. "Muitos anúncios para crianças são anúncios para adultos com linguagem infantil", acusa.
Para ajudar as crianças a descodificar mensagens publicitárias surgiu o Media Smart, programa de literacia para publicidade destinado a alunos do 1.º e 2.º ciclos. É coordenado por Roberto Carneiro, antigo ministro da Educação, com a colaboração de entidades tão diversas como o Instituto do Consumidor e a Confederação Nacional das Associações de Pais.
Na altura das compras as prateleiras do supermercado tentam os apetites. É difícil escolher produtos saudáveis por entre tanta oferta. O selo Selecção Positiva, lançado pela Plataforma Contra a Obesidade, dá uma ajuda. A garantia de qualidade do alimento depende de critérios definidos por uma comissão científica independente presidida pela endocrinologista Isabel do Carmo.
A par da mudança de hábitos alimentares é necessário aumentar a prática desportiva. A maioria das crianças exercita-se apenas nas aulas de Educação Física. "É preciso voltar a andar de trotineta, triciclo, bicicleta, em vez de estar frente a um ecrã", frisa Francisco George. A televisão e o computador são os grandes culpados do sedentarismo de crianças e adolescentes. "Uma criança não deve passar mais do que duas horas frente a um ecrã", aconselha João Breda.
OBJECTIVO: BEM-ESTAR
As metas traçadas por pais, filhos e profissionais de saúde devem ser pouco ambiciosas, recomenda o coordenador da Plataforma Contra a Obesidade. "Desde que as crianças não engordem é muito bom. São sempre objectivos modestos, baseados no crescimento feliz dos miúdos. Isso é o mais importante", enfatiza.
Aos primeiros sinais de emagrecimento as crianças reagem. A auto-estima aumenta, ficam mais vaidosos - podem vestir a roupa de que mais gostam - e têm melhor rendimento na escola.
"O insucesso escolar das crianças obesas não diz respeito a um défice cognitivo, mas a uma inibição intelectual", esclarece João Mendes Ferreira, psicólogo clínico, que além de clínica privada exerce em meio escolar. Reacções da mente humana que importa resolver. "Se atentamos apenas à sintomatologia, ignoramos a natureza profunda das perturbações".
O tratamento do excesso de peso deve passar por equipas multidisciplinares. "A intervenção psicoterapêutica não complica, simplifica", enfatiza o psicólogo clínico. Componentes várias que se entrelaçam com um objectivo único: promover o bem-estar da criança.

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