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Montepio
Oman. Luxuosamente, no sultanato de Oman
Travel&Safaris
12/01/12, 17:57

Há pouco mais de quatro décadas, quando o Sultão Sayyed Qaboos bin Said se tornou soberano do Oman, conquistando o poder ao seu próprio pai, este sultanado, numa ponta da Península Arábica, mesmo em frente ao Irão e ao Paquistão, pouco mais era que um imenso deserto, escassamente povoado por tribos que não se entendiam entre si. Praticamente não havia estradas e o asfalto limitava-se a algumas artérias em Muscate e em Salalah, a capital e a principal cidade no sul, quase encostada ao Yemén. Hoje, todo este país é recortado por excelentes estradas de asfalto e para quem sonha com o luxo das mil e uma noites das Arábias, uma visita por este sultanado torna isso realidade...
Nos anos 50 do século passado, quando se iniciou a prospecção petrolífera em terras omanis, os pesquisadores tiveram de enfrentar sobretudo duas enormes dificuldades: a absoluta falta de vias de comunicação, e as frequentes investidas das tribos do deserto, que mais do que fazer vítimas, pilhavam os acampamentos, destruíam equipamentos preciosos e desmoralizavam os trabalhadores. Em boa verdade, as lutas internas quase sempre caracterizaram a história deste território - com uma área cerca de três vezes superior à de Portugal - num dos recantos da Península Arábica, quase à boca do apertado Estreito de Ormuz e mesmo em frente do Irão e do Paquistão. Entre meados dos século XVIII e finais do século XIX, Oman teve uma presença dominante que se estendeu por toda a costa oriental africana até Moçambique, prosperando imenso com o tráfico de escravos, que eram capturados nos interior do continente e depois concentrados e vendidos na ilha de Zanzibar, para onde o Sultão se transferiu. Todavia, em 1891 o país perdeu as suas colónias e tornou-se num protectorado britânico, somente recuperando a independência em 1971, após a tomada do poder por parte do actual Sultão Sayyed Qaboos bin Said, que logrou estender o seu domínio às cinco regiões e três províncias, trocando então a antiga designação de Muscate e Oman pela actual, de Sultanado de Oman.

Nestes quarenta anos de governação, o sultão modernizou o seu país sem, todavia, cair da tentação de o descaracterizar, como sucedeu nos vizinhos Emirados Árabes Unidos, nomeadamente com os Emirados de Abu Dhabi e Dubai. Ao contrário destas duas cidades, cujos enormes arranha-céus e urbanizações de luxos em ilhas artificiais são tão imponentes que se tornaram, por si mesmas, nas maiores atracções turísticas, em Oman o turismo atraí pelo exotismo da cultura Árabe, não obstante todas as influências que a região sofreu ao longo dos séculos sob domínio dos Persas e dos Otomanos, assim como dos europeus - primeiro com os portugueses, mais tarde com a coroa britânica. Quando o navegador português Afonso de Albuquerque conquistou Muscate, em 1507, encantou-se pelo seu excelente porto natural, dominando uma passagem estratégica no Golfo de Oman, mas também pela própria cidade, encaixada entre o mar e grandes montanhas. Implacáveis, os portugueses asseguraram o domínio desta praça massacrando toda a população local, mas a permanência lusitana, que durou quase século e meio, não foi pacífica. Por diversas vezes ocorreram ataques a Muscate, que em 1552, e de 1581 a 1588 chegou mesmo a ser ocupada pelos turcos. Ao reconquistarem pela segunda vez a cidade, os portugueses decidiram melhorar as suas defesas, construindo dois fortes gémeos no cimo dos morros que rodeiam a apertada baía que serve de porto de abrigo. Estas duas fortalezas eram os fortes de São João e do Almirante, que em 23 de Janeiro de 1650 caíram definitivamente nas mãos das forças do Imã de Oman, considerando-se que foi essa a data da fundação do actual sultanado. De facto, foi aí que começou a expansão omani até à costa oriental de África, perseguindo os portugueses até que em 1698, depois de um cerco de dois anos a Mombaça, conseguiram limitar a nossa presença apenas a Moçambique. Contudo, o império omani acabou por ruir mais cedo que o português e se logo no final do século XIX perdeu todos os territórios de Zanzibar e da costa africana - nomeadamente as actuais costas da Tanzânia e do Quénia - para os britânicos e os alemães, em 1958 perderia o enclave de Gwadar, na costa do lado oriental do golfo, que foi então integrado no Paquistão, na província do Baluchistão, junto à fronteira costeira com o Irão. Os dois antigos fortes portugueses de Muscate ainda continuam a ser sentinelas atentas à navegação que entra na porto da capital omani, mas ao mesmo tempo que o sultão promoveu a sua recuperação, nos anos 80, também destruíu a antiga muralha portuguesa da cidade, que deu lugar a uma nova muralha, incacterística, que separa a parte mais nobre, onde se situam os palácios reais, das áreas de Muttrah, a oeste, e de Ruwi, a leste. Aterramos a meio da noite em Muscate e cruzamos toda a capital silenciosamente, até chegarmos, 40 minutos depois, aquele que é considerado um dos resorts mais exclusivos de Oman, o incrível Barr Al Jissah Resort & SPA, da prestigiada cadeia Shangri-La's. Esta unidade, rodeada por jardins floridos e luxuriantes, e encaixada entre as montanhas e as águas tranquilas do Golfo de Oman, ocupa toda a baía que lhe dá o nome, dispersando-se por três hoteis que embora ligados entre si, são perfeitamente distintos: o Al Waha, o Al Bandar e o Al Husn, nomes que traduzidos para português significam o oásis, a cidade e o castelo. O motorista conduz-nos para este último, o mais mais luxuoso do conjunto, dominando uma das pontas da baía, onde todos os quartos são amplas suítes, com pelo menos 53 metros quadrados de área útil interior, a que se junta uma varanda ou um terraço, sobre o mar, uns virados para a praia privativa, exclusiva dos hóspedes do Al Husn, outros orientados para a enorme piscina, que vista desde o átrio de entrada parece fundir-se com as águas do golfo. Cinco estrelas não chegam para classificar o serviço e as limusinas que o hotel dispõe para transportar os seus hóspedes são, desde logo, o primeiro sinal do mais absoluto luxo. Contudo, dispensámos o Bentley Flying Spur do Shangri-La's e o motorista elegantemente fardado a rigor com um traje árabe. Afinal, à nossa espera, para uma breve aventura à descoberta do Sultanado de Oman, tínhamos o novíssimo Bentley Continental GT. Apenas 20 anos antes, o nosso programa seria impossível com um automóvel assim; para irmos de Muscate até Nizwa, capital de uma das cinco regiões, a norte e para o interior, necessitariamos de um bom veículo de todo-o-terreno e de um suporte logístico mínimo, pois sempre seriam cerca de três centenas de quilómetros duros e exigentes. Agora, o percurso que antes implicava pelo menos dois dias de condução desgastante, com um acampamento no deserto pelo meio, não tarda senão uma manhã... Deixamos Muscate pela auto-estrada que se dirige para norte, passando ao lado do aeroporto da capital. Não tarda a concluirmos que a via está repleta de radares de controlo de velocidade e pensamos no desperdício que é não podermos tirar partido das impressionantes capacidades do novo Continental GT. O motor de 6,0 litros com 12 cilindros em W rende 575 cavalos de potência e permite atingir uma velocidade máxima real de 318 km/hora, assim como acelerar dos 0 aos 100 km/h em apenas 4,3 segundos. É menos do que um fósforo a acender! Embora tivessemos auto-estrada directa para Nizwa, optamos por tomar um "atalho" mais revirado, desviando-nos por estradas secundárias e desérticas, entre as montanhas. Durante um bom par de horas, não vimos mais ninguém e concentramo-nos em desfrutar deste Bentley, sentindo-nos nós próprios sultões no dia de estreia de um brinquedo novo. Para além da rapidez impressionante, a que corresponde uma suspensão não menos impressionante e uma capacidade de travagem como só um carro capaz destas performances necessita, este puro Grand Tourer da lendária marca britânica oferece um requinte e conforto que o tornam num dos automóveis mais luxuosos que o dinheiro pode comprar. Decididamente, fomos conduzí-lo num dos seus "habitats naturais" preferidos, ou o mercado do Médio Oriente não fosse um daqueles onde os modelos da Bentley têm mais procura? Tudo a bordo é de uma elegância consensual. E todos os detalhes contam. Desde os novos bancos, com costas menos volumosas, para oferecer um pouco mais espaço aos lugares posteriores, até ao relógio Breitling incrustado na consola central, passando pelas aplicações em raiz de madeira genuína, pelos estofos em couro de mais elevada qualidade, pelos interruptores em aço escovado... O equipamento, claro, vem ao encontro do que esperamos num modelo de luxo. Mas, o melhor som é o ruído rouco, abafado, mas possante que se ouve quando pisamos forte no acelerador. Em Nizwa, estacionamos junto à cidadela e quando passamos as portas da muralha já há vários curiosos a espreitar em redor do Continental GT verde escuro, como manda a tradição britânica para os seus desportivos mais nobres. Esta pequena cidade interior já cresceu para fora das suas muralhas, mas o mercado continua a ser feito intra-muros, o que assegura uma grande animação todas as manhãs. Pela hora do almoço, o centro histórico esvazia-se e quando regressámos ao estacionamento não se via vivalma na rua. Retomámos a marcha para Muscate, prosseguindo por estradas recortadas entre vales amplos e montanhas imponentes. Ao fim da tarde, quando voltámos a entrar na capital, o trânsito estava caótico. A cidade estava mais movimentada que nunca, pelo que deixámos para outro dia a visita aos seus pontos mais fortes. O imenso souk, em Muttrah, a baía entre as antigas fortalezas portuguesas, onde o enorme iate do sultão sobressaía entre os navios atracados no porto, e até a mesquita construída em honra do soberano, ocupam-nos uma jornada, sem darmos pelo tempo a passar. Num país com 1700 quilómetros de costa, que vai desde o Golfo de Oman ao Mar Arábico e ao Oceano Indíco, é difícil resistir a ir até à praia. A estrada costeira, em direcção ao sul, revelou-nos algumas praias lindas, por entre falésias que se tingem de amarelo quando o sol está no auge, para ao cair do dia começarem a escurecer lentamente até ganharem uma tonalidade avermelhada, mesmo antes do sol desaparecer por trás das montanhas. Terminámos esta breve aventura por terras de Oman recatadamente na praia... reservada à nossa suite do Al Husn, degustando um belo jantar ao som da suave ondulação do mar, enquanto em Portugal o Inverno estava no auge. Haverá maior luxo do que uns dias assim?    

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