Entrevista a António Belo “A MAPFRE vai estar atenta a oportunidades de consolidação” ![]() 22/03/11, 01:00 Crescer organicamente é a prioridade, mas António Belo garante que a MAPFRE está atenta a todas as oportunidades de aquisição no mercado segurador português. O administrador-delegado da MAPFRE em Portugal acredita também que os seguros não obrigatórios são uma área por explorar em Portugal e não vê outro caminho que não seja a subida de preços nos principais ramos. Estes anos de crise que temos vivido nos últimos tempos têm tido reflexo na performance da MAPFRE em Portugal? Naturalmente que tem tido reflexo. A MAPFRE não está imune ao processo de crise, ainda que continue a dizer que os nossos objectivos principais - sendo o crescimento e a rentabilidade - nos obrigam a ter um tipo de gestão suportada numa saudável exploração técnica que se traduza em bons níveis de rentabilidade para os nossos accionistas.
Como fechou o ano de 2010? Fechámos o ano com 170 milhões de euros de prémios Vida e Não Vida, o que traduz um crescimento superior a 20% na operação consolidada e um resultando antes de impostos na ordem dos 5,7 milhões de euros. Apesar de inferiores a 2009, estes valores continuam superiores às rentabilidades que o mercado apresenta.
As vendas em 2011 têm desafios acrescidos? Vamos manter o mesmo alinhamento. É evidente que no ano passado apresentámos um crescimento substancial fundamentalmente pelo lançamento da nova operação Vida - a MAPFRE Seguros de Vida Portugal. Antes tínhamos uma agência que consolidava em Espanha. Este ano esperamos melhorar, eventualmente com um crescimento não tão forte como o de 2010, mas com resultados substancialmente melhores.
Que ramos têm mais potencial de crescimento em 2011? Acreditamos que os seguros não obrigatórios são uma área por explorar em Portugal, sem descurar a importância dos negócios de Automóvel e de Acidentes de Trabalho, que pesam cerca de 70% do portefólio das carteiras das seguradoras em Portugal. E o negócio obrigatório necessariamente vai sentir os resultados do processo que estamos a viver em Portugal. Mas queremos apostar fortemente nos ramos não obrigatórios e que curiosamente são ramos que normalmente apresentam níveis de rendibilidade bastante diferentes daqueles que apresentam os ramos obrigatórios. É o caso dos Acidentes Pessoais, dos Multirriscos para pequenos comércios ou do negócio de transportes. Repare que o sector de exportações está a apresentar uma dinâmica muito interessante e curiosamente no ano passado foi um dos sectores que mais contribuiu para o crescimento de 1,3% do PIB. É um negócio importante mas é um ramo que tem pouca expressão no mercado português e normalmente apresenta boas rentabilidades.
Continuam sem entrar no ramo Doença. Nem estamos a pensar fazê-lo a curto prazo.
Porquê? Porque é um ramo que obriga à criação de uma infra-estrutura própria adequada àquele negócio, independentemente de existirem no mercado soluções que permitem dar externamente suporte à logística desse ramo. E tradicionalmente o histórico que tem apresentado é de fracos resultados. Por outro lado, está em cima da mesa a discussão de uma alteração substancial no projecto de saúde, que é o aparecimento da apólice do seguro vitalício e até isso estar convenientemente consensualizado e estabilizado, não me parece que seja a altura ideal para entrar nesse sector.
Mas não descarta a hipótese de entrar nesse mercado a médio prazo? Não. A médio prazo não descarto.
Sem parcerias com bancos e com benefícios fiscais mais reduzidos, o Ramo Vida está condenado a viver dias mais difíceis? Nós entendemos que não. Parece-nos que o Ramo Vida tem muito espaço para crescimento, fundamentalmente nas áreas que não são exactamente aquelas de cariz financeiro, que é o que tem suportado o grande desenvolvimento do negócio Vida em Portugal. Há operações no país que não estão exactamente suportadas na alavancagem que lhes é permitida pelo canal bancário e que conseguem ter uma composição do seu negócio muitíssimo mais interessante do que outras operações onde o cunho do produto financeiro é mais evidente. E sinceramente nós revemo-nos nesse tipo de posição. Há uma oportunidade, no momento que estamos a viver, para evidenciar diversos motivos pelos quais as pessoas devem ser levadas a adquirir produtos mais de previdência e não só de poupança. E as seguradoras têm de se posicionar aí. O canal tradicional tem uma oportunidade importante nas suas mãos. Até aqui este canal tem estado vocacionado para a distribuição de produtos Não Vida e com a degradação que se tem assistido nas remunerações, pela redução nas carteiras, os agentes têm uma excelente oportunidade de se envolverem mais neste negócio e obterem uma nova possibilidade de encaixe de rendimentos.
Como avalia o posicionamento dos portugueses face à poupança para a reforma? Acho que está a haver uma alteração substancial do posicionamento dos portugueses face à poupança para a reforma. Apesar de as seguradoras já explorarem produtos de reforma (PPR) desde há alguns anos a esta parte, eles eram colocados no mercado e também comprados pelo consumidor mais numa perspectiva de beneficio fiscal, do que propriamente de preocupação com a sua reforma em termos de futuro. Com tudo isto que está a acontecer acho que a sensibilidade que passa a existir nas pessoas está a mudar substancialmente. Todos estamos, de facto, a apercebermo-nos que aquelas reformas historicamente garantidas vão deixar de existir e naturalmente estamos mais predispostos a encontrar outras alternativas às que existem hoje para garantir o nosso futuro. Acho que há um espaço muito grande de crescimento.
No Ramo Não Vida, os seguros obrigatórios de Automóvel e Acidentes de Trabalho continuam a dinamizar intensos debates sobre o preço dos seguros. Este é apenas o reflexo de um mercado muito competitivo? A tendência é para se manter a forte concorrência, pelo facto de 70% do volume de negócios do mercado estar concentrado nestes dois ramos. As grandes oscilações que se encontram em termos de quota de mercado dependem das variações nestes dois ramos e naturalmente o contexto económico tem um impacto muito grande no comportamento destes dois negócios: no Automóvel pelas quebras que se estão a verificar na venda de automóveis, nos Acidentes de Trabalho pelo aumento do desemprego e pela redução das massas salariais. Ora, as seguradoras querem preservar as quotas de mercado, pelo que vão continuar a apresentar a forte competitividade que têm registado até aqui.
Sacrificando rentabilidades? Sim. No entanto acho que são já demasiado preocupantes os rácios de exploração técnica que as seguradoras estão a apresentar, muito evidenciados nos rácios combinados que são conhecidos. O rácio combinado das operações Não Vida é superior a 100%. Isso já começa a ser uma constante e com a quebra que se vive nos rendimentos financeiros resultante de toda esta envolvência em que nos encontramos, eu vejo muito difícil que efectivamente as seguradoras que não comecem a ter um alinhamento distinto ao nível da sua competitividade consigam inverter esta lógica. Para além disso há um problema estrutural do sector, que é a questão do elevado rácio de custos que o mesmo apresenta, comparativamente aos mercados europeus, e em que não havendo uma melhoria significativa da eficiência das operações sinceramente tenho dificuldade em prever qual vai ser o resultado do sector no final deste ano.
Em Acidentes de Trabalho, a nova lei reforçou a responsabilidade das seguradoras e aumentou as suas preocupações? Contrariamente àquilo que seria previsível, tendo em atenção o agravamento das responsabilidades das seguradoras, continua a assistir-se a uma concorrência muito forte no ramo, evidenciada também no rácio combinado superior a 108%. É um ramo em perda, que naturalmente deveria preocupar muito a gestão que está a ser feita neste negócio, porque é um ramo cujas responsabilidades que lhe estão associadas são enormes e a longo prazo.
Não há outro caminho senão a subida de preço? Acho que não há outro caminho. Volto a dizer que os ganhos de eficiência são fundamentais. Em alguns casos, as práticas que continuam a ser assumidas não estarão a contribuir em nada para um equilíbrio destes ramos a curto prazo.
Internacionalmente, a MAPFRE conquistou grandes empresas com o projecto Global Risks. Que impacto teve em Portugal? Foi muito importante ao nível da visibilidade da nossa empresa cá em Portugal. Num curto espaço de tempo passámos a estar presentes nos principais grupos empresariais portugueses. No PSI20, e excluindo o sector bancário, estamos na maioria dos grupos empresariais ali representados, e portanto tem dado um contributo muito importante ao desenvolvimento da nossa operação em Portugal.
Sendo um projecto para grandes empresas, está limitado em Portugal? No mercado português, o seu crescimento tem alguns condicionalismos porque o MAPFRE Global Risks é dirigido efectivamente a empresa com volumes de facturação superiores a 500 milhões de euros. Mas além de estarmos a trabalhar em operações em Portugal, estamos também a dar suporte à internacionalização de empresas portuguesas noutros mercados.
Crescer em Portugal é apenas possível organicamente ou há intenção de crescer por aquisições? A MAPFRE não vai abdicar de estar atenta às oportunidades que possam surgir no mercado. E acreditamos que em Portugal há espaço para consolidação. Mas não vamos comprar por comprar. Se as oportunidades que surgirem forem oportunidades em que nos revejamos, que possam acrescentar valor à operação que já temos, estaremos interessados em avaliar, estudar e eventualmente tentar concretizar. Agora, naturalmente que o nosso objectivo principal é continuar o crescimento orgânico que estamos a fazer.
Estar num grupo multinacional trará vantagens após a implementação da directiva Solvência II? Estar num grupo multinacional traz sempre vantagens. Se amanhã as necessidades de capital que possam advir da Solvência II se revelarem de uma exigência muito forte para as seguradoras, naturalmente eu admito que o facto de estarmos integrados num grupo com uma solidez perfeitamente reconhecida ao nível internacional nos traz muitas vantagens. No entanto, neste momento, todo o sector português tem reagido muito bem aos testes de impacto que têm sido feitos.
O que espera de 2011? Esperamos muitas dificuldades. No entanto, apesar do contexto difícil em que estamos a operar, estamos optimistas de que conseguiremos aproveitar as oportunidades para podermos continuar a crescer e apresentar cada vez melhores resultados. ![]() ![]() |