Na primeira entrevista depois de ter assumido a liderança da Aon Portugal, Pedro Penalva reconhece a melhoria do grau de preparação dos gestores profissionais para lidar com o risco. O CEO da Aon reitera críticas à implementação da directiva ambiental e antecipa uma intensificação do cenário de consolidação no mercado de corretagem de seguros.
O que muda quando se passa do lado do segurador para o lado do corretor?
Não muda muito, na medida em que a indústria e a actividade são exactamente as mesmas. E os princípios que devem nortear as empresas, quer seja uma seguradora, uma corretora ou uma consultora devem ser muito semelhantes: criar valor, prestar bom serviço e contribuir para que os mecanismos de transferência de risco e de gestão de risco do seu cliente sejam eficazes e sofisticados. Depois, há pequenas mudanças. De repente, os antigos concorrentes passam a ser os nossos parceiros. Na componente da corretora há obviamente um espectro de consultoria, de conceito, de proximidade com o cliente que tipicamente a seguradora não tem, pois deve preocupar-se mais com os mecanismos de transferência de risco.
Passou a ver as seguradoras de forma diferente?
Não. Continuo a achar que o mercado segurador é de primeiríssima importância em qualquer país desenvolvido. Foi muito interessante ver como a actividade seguradora se comportou nos últimos anos face àquilo que se passou no sector financeiro. Foi um atestado de grande capacidade e maturidade de todo o mercado.
E isso foi reconhecido?
Se calhar não tão reconhecido quanto deveria ter sido. Mas basta ver que não aconteceu com seguradoras aquilo que aconteceu noutras actividades financeiras, que estiveram sujeitas a apoios bastante extensos por parte dos Estados soberanos.
Aqui passa a lidar mais directamente com empresas, numa altura em que o contexto económico que as rodeia não é fácil. Tem sentido que os seus clientes atravessam momentos complicados?
Há várias realidades. As empresas que têm uma dependência do Estado, da banca - para acesso a meios de crédito - ou do mercado nacional estão obviamente a passar por um momento difícil. Por outro lado, as empresas que tenham ultrapassado pelo menos duas destas variáveis, não dependendo do Estado enquanto cliente e especialmente enquanto pagador, ou não dependendo do mercado local, claramente estas empresas estão em processo de crescimento, até crescimentos de dois dígitos em termos de facturação, embora possam ter depois dificuldade em financiar esse crescimento. Mas sem dúvida nenhuma que a crise está aí, sente-se.
Há muitos pedidos de renegociação das carteiras de seguros?
Há para todos. Em muitas empresas os seguros continuam a ser encarados apenas como centro de custos - obviamente nós entendemos que a gestão de risco é muito mais do que um custo - e por isso tem de ser controlado, reavaliado e escrutinado de uma forma muito constante. E o mercado ao longo dos últimos anos tem estado bastante aberto a esse tipo de renegociação.
Um dos ramos que mais afecta as empresas é o de Acidentes de Trabalho, onde as operadoras continuam a dar eco de grande competitividade nos preços, numa altura em que a nova legislação aumentou as responsabilidades das seguradoras perante os sinistrados. Que realidade é que encontrou?
Uma realidade com grande competitividade. Mas essa competitividade é também induzida pelos operadores de mercado. As próprias seguradoras é que estabelecem os preços. Para a sustentabilidade futura daquilo que pode ser uma linha de negócio, pode ser preocupante. Há uma entidade que tem como responsabilidade efectuar uma regulação e uma supervisão da actividade e depois há um mercado que tem de funcionar. E obviamente cabe a cada uma das entidades assumir as suas responsabilidades, tendo a supervisão devida. Desde que esta realidade esteja devidamente assegurada, o preço e a concorrência são tão grandes consoante os operadores que estejam no mercado queiram. No caso dos Acidentes de Trabalho, os aumentos de preços não têm acontecido e esta continua a ser uma área bastante competitiva.
O preço dos seguros foi o tema escolhido pela APROSE, de que a Aon é associada, para debater no seu último congresso. O tema merece continuar a ser discutido e debatido pelo sector?
Merece, na medida em que estamos a falar do que é a sustentabilidade de todo o sector de actividade, que é um sector fundamental para a economia, que permite que as empresas consigam ter relações comerciais umas com as outras, assumindo responsabilidades, fazendo projectos, construindo, exportando. O facto de nós termos vivido durante alguns anos um enquadramento de preços consecutivamente em baixa fez levantar algumas interrogações sobre quando é que chegamos ao ponto de inflexão, em que as companhias começam a ver afectada a sua sustentabilidade em termos financeiros face ao volume de prémios, às responsabilidades assumidas e aos sinistros que estão a pagar. O mercado de seguros é um mercado cíclico e está a estranhamente a sofrer uma pressão no sentido da baixa desde há muitos anos.
Esperava que durasse tanto tempo?
Pessoalmente, esperava que em 2008 ou 2009 se começasse a fazer uma inflexão. Os indicadores diziam isso, mas curiosamente não aconteceu e depois percebeu-se que alguns investidores entenderam que a actividade seguradora seria um sector de refúgio e por isso houve nova capacidade que apareceu no mercado, permitindo exactamente continuar a sustentar aquilo que eram as baixas de preço, a que se juntou a ausência de grandes sinistros.
A crise obrigou muitas empresas a rever a sua política de employee benefits?
A crise obrigou as empresas a olharem para os employee benefits de uma forma diferente, ou seja, como um mecanismo de retribuição adicional. As empresas tentaram passar a mensagem de que as pessoas não poderiam ter incremento salarial dentro dos formatos tradicionais, mas poderiam ter uma vantagem adicional através dos employee benefits, quer sejam seguros de saúde, fundos de pensão, seguros de vida ou outros. Alias, esta é uma área onde a Aon tem investido bastante em Portugal porque temos recursos próprios nesta matéria.
E quais são os seguros mais valorizados?
O seguro de saúde e muitas modalidades com componente de assistência. Depois também o seguro de vida e o fundo de pensões.
Saúde e reforma são cada vez mais valorizados. Têm, por isso, grande potencial?
Sim, sem dúvida. Os seguros de saúde tradicionalmente têm apresentado a maior taxa de crescimento em Portugal e provavelmente vai continuar a acontecer. O tema da reforma já estava na ordem do dia, mas com tudo aquilo a que estamos a assistir em torno sistema da segurança social e aumento da idade de reforma, será algo a que as pessoas vão prestar cada vez mais atenção. Por isso nós fizemos um conjunto de investimentos em Portugal para termos pessoas única e exclusivamente dedicadas a esta matéria.
Encontra-se nos gestores portugueses grande apetência para acautelar os riscos profissionais inerentes às responsabilidades de gesta que assumem?
Aí fizemos um caminho importante ao longo da última década. E a resposta é sim, encontramos. Um gestor profissional tem hoje uma consciência muito clara das responsabilidades que assume quando lidera uma empresa. E isso inclui responsabilidades pessoais.
O que é que contribuiu para isso?
Contribuiu o facto de as empresas terem cada vez mais uma expressão internacional e começaram a perceber exactamente aquilo que acontecia com os seus concorrentes e que tipo de mecanismos os seus concorrentes utilizavam sobre estas matérias. Contribuíram também algumas alterações na legislação que vieram colocar este tema com outro tipo de acuidade em Portugal. Mas acima de tudo foi fruto de um processo de crescente abertura ao exterior, de profissionalização e de consciência global do que é a actividade da empresa.
E em relação a novos riscos, como o risco ambiental, como avalia o grau de preparação dos gestores para lidar com ele?
Ai tivemos uma situação curiosa, porque houve uma entrada em vigor de uma legislação de uma forma muito pouco cuidada e muito pouco organizada. E não era difícil fazer um pouco melhor, porque temos aqui ao lado, em Espanha, um exemplo de como as coisas foram feitas de forma organizada e planeada.
Claramente é positivo que tenhamos hoje um conjunto de instrumentos que permitem transferir este risco. Mas em boa verdade estamos a falar de uma lei que não está regulamentada. As companhias podem-se perguntar: "tenho que cumprir, mas cumprir com quê? Com que limites, com que valores?": Mas pelo menos isto permitiu a emergência de um conjunto de produtos, permitiu que as companhias portuguesas olhassem para este tema de forma diferente e tentassem arranjar soluções. E permitiu uma evolução do mercado nesta matéria.
Acredita que há muitas empresas que não têm esse risco acautelado quando o deveriam ter?
Sim, há muitas empresas que não têm. Mas antes da fiscalização sobre quem tem ou não, era preciso ter dado condições para as empresas poderem cumprir e sinceramente acho que essas condições não foram dadas. As empresas devem ter uma garantia obrigatória, mas com que valores? Uma apólice com um limite de 50 mil euros deve dar para muito pouco, mas estarei a cumprir a lei? E quando é começa a minha responsabilidade? É a partir de hoje? O que é o estado inicial? Essa definição nunca foi abordada na lei.
E ainda fazia sentido publicar a regulamentação agora?
Faria mais sentido ter saído a regulamentação quando saiu a lei. Ainda assim, acho que seria vantajoso para todas as entidades envolvidas que houvesse regulamentação.
Que papel cabe à Aon no apoio às empresas nesta matéria?
Esta é uma área onde investimos muito, onde procurámos capitalizar a experiência que tínhamos em termos globais, tentando encontrar soluções que respondessem às necessidades dos nossos clientes. Acima de tudo, procurámos criar conhecimento e transferir esse conhecimento para os nossos clientes.
Qual é a prioridade da Aon para 2011?
Claramente, uma prioridade de crescimento. Queremos crescer no mercado português e ser o corretor de referência nesta actividade. Fechámos 2010 a crescer sensivelmente 4 ou 5 pontos percentuais em Portugal. Foi um ano muito bom. A Aon tem o privilégio e a responsabilidade de contar entre os seus clientes com as maiores empresas portuguesas. Pretendemos continuar a ser um veículo de crescimento e de enriquecimento do mercado no que respeita a um conjunto de conhecimentos que provavelmente existem menos ou não estão tão desenvolvidos. Nós temos a noção que somos a maior organização global na área da gestão da consultoria de risco. Continuamos a transferir para Portugal todo esse conhecimento. Continuamos a desenvolver e a investir em Portugal, na formação das pessoas em Portugal, para que possamos ser um valor acrescentado para os nossos clientes. Temos uma experiência importantíssima em vários países do mundo, por isso queremos formar quadros portugueses, treiná-los, dar-lhes acesso à realidade global da Aon, expô-los internacionalmente, expatriá-los nalguns casos, de forma a sermos um factor positivo naquilo que é a sociedade portuguesa. Nós temos um projecto muito ambicioso para a Aon em Portugal. Queremos tornar a Aon na maior corretora do mercado português.
"Queremos crescer organicamente e por aquisições"
Pedro Penalva está atento ao movimento de concentração no sector da corretagem de seguros e acredita que a tendência de fusões e aquisições continuará acentuada em 2011. A Aon está disponível para estudar oportunidades de crescimento e não descarta a hipótese de protagonizar algumas das operações a realizar este ano. "Enquanto líder deste sector, a Aon vai obviamente querer liderar também esse processo de concentração. Vamos crescer organicamente, mas queremos também tentar tirar partido das oportunidades que nos aparecerem nesta matéria", assume o CEO da corretora, lembrando que "este é um sinal de investimento de uma empresa multinacional num momento em que é tão difícil colocar Portugal no mapa como destino de investimento estrangeiro. Mas da parte da Aon há vontade de investir no mercado português".